Mais amor, menos pornô

Linda-Lovelace

Sob o efeito de “Lovelace” no cinema: algumas coisas (sobre Pornografia, Sexo, Violência e algo mais).

Pra quem não conhece “Linda Lovelace” foi a protagonista do filme “Garganta Profunda”, da década de 70 , um dos maiores recordes de bilheteria da indústria pornô (arrecadou mais de 600 milhões de dólares).

“Garganta Profunda” foi um marco pra pornografia também porque começou a chamar a atenção para o prazer feminino. No enredo, a moça nunca tinha chegado ao orgasmo, até descobrir que seu clitóris ficava no fundo da garganta, motivo pelo qual se desenrola a “trama”.
Nunca assisti esse filme. Nem nenhum outro pornô (por mais de 3 minutos). Nunca me excitou e só fui descobrir os motivos depois. Falo disso lá em baixo (do texto, no caso).

A vida de “Linda Lovelace” passou longe do glamour, assim como a vida da maioria das mulheres que se prostituem. Sim, ela se prostituiu. Na verdade, foi coagida a tal. Além de ter sido obrigada a fazer os filmes (o Garganta e outros dois que foram fracassos de bilheteria). Linda sofria violência doméstica e era ameaçada de morte. Violência sexual e psicológica.

Sofreu diversos problemas de saúde, inclusive teve que fazer cirurgia para retirar seus dois seios por problemas decorrentes do silicone que foi obrigada a colocar antes do filme. Todos esses abusos foram cometidos pelo seu próprio marido.

A maioria do que falei acima nem tá no filme do cinema, que recria a história de forma mais sensorial e não linear mesmo dos fatos, porém mesmo assim vale (muito) a pena ser conferido (Amanda Seyfried, merece no mínimo indicação ao Oscar por sua atuação).

Não sei se é porque sou mulher, já sofri violência, odeio pornô e fui educada numa família conservadora que tantas coisas repercutiram em mim no pós-cinema.
Os valores morais da nossa “família tradicional” que determina quem são as boas mulheres para a sociedade é estrutural e estruturante para manter o machismo que violenta e oprime. A pornografia é pra mim uma das maiores disseminadoras do machismo e da coisificação da mulher e está estritamente ligada à prostituição. Todas essas coisas se retroalimentam.

No caso da pornografia especificamente, mulher é vista como uma mera receptora de esperma, um grande “buraco” ambulante, pronta pra ser fodida (desculpem a sinceridade). E toda uma geração (gerações?) de homens “educados” sexualmente pela indústria pornô, somada a uma cultura repressora da sexualidade feminina, gerou o que temos hoje: a maioria das mulheres que sequer sabem o que é um orgasmo de verdade (“fogos de artifício, barragens rompendo” como romantiza Linda no filme).

Os homens veem nos filmes/vídeos mulheres sendo sufocadas por pênis (de proporções animais, como se o prazer feminino estivesse condicionado ao tamanho do pau do cidadão), cobertas de esperma, sendo esbofeteadas e cuspidas, sexo anal sendo uma obrigação  (uma coisa que toda mulher gosta e DEVE fazer) e acham que é assim é que é sexo. Aliás, sobre o filme: é bom dizer que o próprio marido de Linda confirmou que ele a “hipnotizava”  para poder fazer o “Deep Throat” – ensinando a técnica de suprimir o “gag flex” , aquele negócio que faz a gente ter ânsia de vômito. Na boa, alguém sente prazer com um pau na garganta? (só as que tem clitóris lá).

O prazer feminino não existe na pornografia, até porque quem produz o filme são os homens.

A pornografia, ao meu ver, incita a violência e endossa a cultura do estupro. Além de reforçar o esteriótipo de beleza que as mulheres devem ter pra serem atraentes. As gordas, ou magras demais, assim como asiáticas, negras, entram no lugar “fetiche”. O padrão mesmo é mulher jovem (aliás, bem jovem, algumas até sugerindo que sejam menores de idade e porque não dizer também que incentivam a pedofilia?), branca, magra, peito siliconada, xoxota sem pêlos e ânus rosinha (os cremes de clareamento anal são produtos derivados da pornografia).

Por tudo isso, a pornografia já seria um grande desserviço à sociedade. Existe um movimento, por enquanto ainda americano, chamado “Make Love Not Porn “(Faça amor, não faça pornô, em português). Não, não é a idéia de que mulher gosta de sexo amorzinho e dormir de conchinha depois, mulher também gosta de sexo. Mas sexo de verdade, não plastificado. Qual a coisa mais legal do sexo, na verdade? Não é o tesão? O contexto? A sedução? O cheiro? A pele do outro (a)? – que aliás nem se encostam nos filmes, já que para a câmera poder filmar a penetração – que parece ser o que mais importa na transa – os corpos tem que estar afastados.

Esses clichês pornográficos de mulher fácil, que vende seu corpo por dinheiro, a vadia, a teenager, a tigresa, a enfermeira, a professora putinha, não representa o cotidiano feminino (e masculino?). Isso de você pedir um gás e vir um bombado bem dotado, de macacão aberto, que nem te dá bom dia e já te come loucamente (e você tem orgasmos múltiplos, gritando claro!) é meio surreal, não?

No fundo pode parecer um #mimimi de feminista, mas é que a pornografia acaba estando presente nas nossas vidas, através dos nossos relacionamentos, no padrão imposto, e interferindo em como enxergamos nossa própria sexualidade. Os filmes pornôs são verdadeiras cartilhas sexuais, que infelizmente estão ensinando tudo errado.

É preciso quebrar esse tabu. É preciso repensar como queremos falar de sexo e consumir sexo – que pra mim a melhor forma é fazendo mesmo.
No meu mundo ideal sexo é natural, biológico, mas também interfere no social. Se existe um mercado que vive à base dele, que ao menos não seja misógino, racista, homofóbico (chega de falocentrismo!) e que não sirva pra perpetuar uma opressão às mulheres.

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Sei que corro o risco de parecer “careta”, mas vou caminhando na linha de que o mundo em que quero viver, mulheres não são mercadoria. Esse papinho pseudo-libertário de que o feminismo existe pra libertar a mulher e assim, consequentemente dar a ela o poder de vender seu corpo ou expor em um filme, por exemplo, não me representa. Isso é conservadorismo vendido como “Liberdade”. É o liberal x libertário. O que quero (e luto) por mim e por todas as mulheres é que tenhamos liberdade sobre nossos corpos, nossa sexualidade, e direito de decidir, mas isso inserido numa sociedade em que sequer exista essa opção de nos vender pra sobreviver. Sexo é prazer, não negócio.

O filme, na verdade, só mostra como esse mundo pornográfico/prostituição é opressor e que o discurso de que mulheres se prostituem porque “gostam de sexo” e porque “são livres” é se não ilusório, uma exceção.

Nosso prazer não tem preço. Nossa sexualidade não está a serviço dos homens. Nossos corpos não tem padrões. Sexo só com consentimento. E essa pornografia misógina, não obrigada.

Menos pornô, mais tesão.

Menos violência, mais amor.

(E ah, Linda “Lovelace” após curtíssima temporada na pornografia, se casou, teve um filho, engajou-se na causa feminista, escreveu um livro autobiográfico– que para conseguir uma editora que topasse publicar, teve que passar por um teste na máquina da verdade por mais de 11 horas para PROVAR que não estava mentindo – e dedicou 20 anos de sua vida, até morrer em 2002, em favor da luta das mulheres: contra Pornografia e a violência. De todas as formas)

Post Originalmente escrito em Setembro de 2013

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