Sobre o dia das mães: não me violente com seus esteriótipos

Ontem passei o dia das mães longe do meu filho. E da minha mãe. Fui pra uma cachoeira e fiquei meio que offline para essa data. Apenas uma data (criada pelo capitalismo para o consumismo e insira aqui esse clichê esquerdóide, porém verdadeiro), mas uma data que é impossível não ficar mexida com ela. Afinal, mãe é mãe. Dizem.

 Quero falar disso.

Quando voltei, à noitinha, vi as redes sociais inundadas de fotos lindas e carinhosas, declarações e relatos sobre mães, maternidade, experiências, os clichês de sempre, tal, e aí quis escrever sobre isso.  Sobre ser mãe, sobre ser filha, sobre esse dia. A primeira coisa que me assustou foi a reação das pessoas quando eu falei que não ia passar o domingo com meu filho. Nem com a minha mãe. Parece que tinha ofendido gravemente os valores da família tradicional brasileira.

Bom, ontem especificamente, Miguel estava no final de semana com o pai, a madrinha dele viria de outra cidade pra vê-lo, eu já havia programado esse passeio roots e não vi necessidade de ir buscá-lo só para reforçar uma data que homenageia a mãe e como no caso a mãe sou eu e eu não me importo, achei super ok. Ele tem 5 anos, certamente não tinha comprado presente, não tinha reservado restaurante, não ia sentir falta de passar esse dia comigo, simplesmente “porque é dia das mães” (é o que espero ao menos, só falta virar emo depois por causa disso).

– Pausa –

Nessa semana as tarefas da escola foram todas nesse tema e a gente já tinha curtido um tanto. Teve uma que eram perguntas sobre a mãe. “Qual a comida preferida da sua?” ele respondeu “Leite com nescau”.   Cara, isso encheu meu coração de ternura.

Só quem me conhece muito bem responderia com exatidão que não vivo sem meu leitinho e que esse leitinho com nescau é a melhor comida do mundo pra mim (sou adulta, sou requintada, sou sim. risos). Meu filho me conhece.

– Despausa.

Enfim, não caguei regra, não tô fazendo isso agora, mas cara, eu tenho a oportunidade de criar meu filho da maneira que acredito e não acredito muito nessas datas comerciais (Também não dou ovo de páscoa, presente de Natal, nem nada no dia das Crianças – me julguem) e a gente leva isso, desde que ele nasceu, com muita tranquilidade, sem extremismos, quando dá, dá, mas não fazemos dessas datas momentos importantes pra nós. Não as reafirmo, não repasso pra ele, não dou importância.

Pra minha mãe eu sempre dou presente (ó as contradições), simplesmente porque ela adora ser presenteada (é a sua linguagem de amor) e pra ela é importante.  Ok. Mas justamente recentemente, eu e ela (minha mãe e eu) tivemos umas DR’s, umas crises de identidade, umas brigas, uns papos profundos e a NÃO comemoração esse ano foi importante (pelo menos pra mim) pra dar um fôlego e espaço pra traçar os rumos da nossa relação, que está sendo construída.

Construída.

Relação de mãe e filho (a) é uma relação como todas as outras, gente. E foi isso que falei pra minha mãe, quando ela falou algo como “mãe é mãe”, exigindo uma determinada postura minha em relação ao Miguel, no sentido de que mãe deveria fazer mais, amar mais,se doar mais, porque amor de mãe é mais forte. Eu falei: “Mãe, eu amo meu pai do mesmo tanto que amo a senhora. O tanto que a senhora se dedicou a mais por mim, o tanto de abdicações, renúncias, e esforço braçal mesmo, não contou pontos extras para o meu amor”. Foi duro, eu sei. É duro. Mas é a verdade.

Eu amo meu pai. Loucamente. Não foi ele que me carregou no ventre, nem que acordou de madrugada pra me amamentar, nem que trocou minhas fraldas, nem nada disso, mas eu o amo. Como amo minha mãe. Loucamente também.

Como se dá a relação de pai e filho? Pai se dá conta de que é pai, quando o filho nasce, praticamente. Ao contrário da mãe, que já sente o bebê nos primeiros meses de gestação. Pai começa em desvantagem.

Pai tem que correr atrás do prejuízo (os que tem interesse, claro) porque nos dois primeiros anos a criança depende muito da mãe (inclusive pela amamentação) e ele é um pouco desnecessário, muitas vezes. Pai tem que construir um vinculo, porque a mãe já tem, nem que seja o de pele, o de umbigo. A da mãe tá dada, tá no corpo, tá na cara, mas também tem que ser construída e nem é maior e mais forte por isso. Sempre fui apaixonada por essa relação de pai e filhos. (Aliás, até hoje, piro num pai solteiroAPAGAR). Infelizmente ainda é minoria homem que é pai protagonista, que reivindica esse papel, que não se acomoda no lugar secundário que a sociedade lhe dá, mas quando rola, é lindo.

Usei minha própria experiência em relação ao amor pelos meus pais quando me tornei mãe.

Nunca quis sozinha (aliás, até casei precipitada e erroneamente em busca desse compartilhar), nunca achei que eu era uma super heroína por ter um útero, nunca vi o pai do meu filho como um ser inferior a mim, essa coisa de mãe, santa, poderosa, suprema. Não foram poucas as vezes que pedi ajuda ao Heitor. Que pedi socorro. Que reconheci habilidades dele em relação ao Miguel como muito superiores às minhas (trocar fralda, pegar no colo, dar remédio, sei lá). Que briguei por direitos iguais. Que falei: “toma um pouco, dou conta não”. A guarda compartilhada, por ocasião do divórcio, foi sempre decisão/imposição/insistência minha. Fui julgada muitas e muitas vezes por isso. Até hoje sou, aliás. Sempre achei que Miguel merecia um pai. Que Heitor merecia e devia ser pai. Que eu era só a mãe e que não deveria carregar peso nenhum a mais por conta dessa nomenclatura. E que eu tinha direitos, de ser eu, Marília, e não só a mãe do Miguel.

IMG_9163Há 5 anos sou mãe. 5 anos dificeis pra porra. Mas 5 anos de muito aprendizado.

Ano passado, tive que tirar Miguel da escola e ele foi morar com o pai dele (na verdade, com a avó paterna e eu tenho pegado meio que meio a meio). Eu também  estava num momento da minha vida que… não tava dando conta. (Depois eu vou fazer um post sobre filhos que não moram só com as mães). Procurei ajuda. Fui reconstruir minha relação com o Miguel. Fui trabalhar minhas coisas na terapia. Foi uma barra.

Mas aprendi uma grande lição nesse período: pedir ajuda é libertador, uma mãe sem rede de apoio não é ninguém e principalmente: eu preciso acreditar na MINHA maternidade, confiar no que eu acredito e foda-se o que o mundo espera de uma mãe.

Não sou a mãe que a sociedade espera. Nem a que a minha família admira. Nem que é retratada nos comerciais e na publicidade. Mas eu sou só mais uma mãe e não, mães não são todas iguais.

Eu esqueço de levar casacos pro Miguel, ou seja, nada de: “ta levando o casaquinho?”, eu não sei cozinhar, nem preparo o lanche da escola, eu detesto fazer tarefa escolar e ir em reuniões de pais, eu viajo sem ele e sem culpa cristã, eu não ligo pra ele no final de semana que ele tá com o pai, ou seja, eu não falo com ele todo dia, eu às vezes vou comer uma comida escondido só pra não ter que dividir com ele (quem nunca? risos), eu não penso nele antes de pensar em mim algumas vezes, eu não esqueço dos meus outros e múltiplos lados enquanto mulher e ele não é a minha vida. É parte dela. Uma parte essencial, diria, mas não é meu todo.

Eu não senti um amor incondicional quando ele nasceu (embora eu já tenho dito isso e que já achei bonito acreditar que sim), mas o amo cada dia mais, porque estamos construindo isso. Decisão minha e dele. E construir relação é dificil gente. Mesmo com um ser de 5 anos.

As vezes briga, as vezes chora, as vezes tem culpa, DR (sim, sou aloka da DR e sim tenho DR com o Miguel), tem tempo afastado, tem reconciliação, tem tudo. Pode parecer bizarro, mas trato o Miguel assim desde que ele era um feijão no meu ventre.

Chorava pacas na gravidez e sofri muito nos primeiros meses de vida dele (os 2 primeiros anos na real, pior fase da minha vida) e todo mundo falava: “você é mãe, agradeça por ter um filho saudável” ou “ele vai achar que você não o ama”, colocando meus sentimentos e crises de mulher, de ser humano em stand by porque bem, eu era mãe, não tinha o direito de sofrer. O filho em primeiro lugar. Pois eu conversava com a barriga e dizia: “meu filho, não é bem contigo, mas minha vida tá uma merda. Te amo, mas tá foda”.

Sempre me mostrei humana pra ele. Peço desculpas ao Miguel. Não falo “porque sim, porque tô mandando”. Nunca desenvolvi uma relação (apenas) de poder e de hierarquia.

  Outro dia tava chorando e ele simplesmente foi ao banheiro, pegou um papel higiênico, limpou minhas lágrimas e me deu a mão. Não falou nada. Achei lindo.

Sou mãe, mas sou vulnerável, errante, tenho medos, desejos, frustrações.

Mas principalmente: não acho que a maternidade nos salva de nada. Filho não é pra preencher nossa existência, nem cumprir nossas expectativas e foi exatamente isso que gerou a tensão com minha mãe.

Talvez eu não seja a filha que ela desejou que eu fosse. Mas e a nossa mãe, a gente escolhe? Não. Então, também não dá pra escolher o que os filhos vão ser. E o negócio é se amar APESAR DE.

NHQA3812Filhos não são a continuação de nossa existência.

Falei pra ela que temos que construir algo que seja mais forte que um laço sanguineo ou um almoço no segundo domingo de maio.  Quando crianças, até o começo da juventude, uns 20 anos, nossas mães e pais, cuidam da gente. Depois, quando eles estão velhinhos, nós é que cuidamos deles, lá pros 70 anos. Me diz, o que fazer com uma relação que se baseia na dependência,  nessa lacuna de 40,50 anos, em que somos todos adultos e ninguém precisa de ninguém? Almoçar, pedir benção e serem meros estranhos uns aos outros?  Foi isso que falei que pra minha mãe. Que passou.

As fraldas sujas passaram. As olheiras também. Sou grata, mas não a congratulo por isso. Ser mãe não é uma corrida em que há um pódio no final. Não espere minha reverência. Construa seu espaço na minha vida, para além do amor.

Uma das coisas mais excitantes na maternidade é justamente: “não temos controle de nada”. É pular de olhos vendados num abismo. Nunca sabemos onde vai dar, não adianta querer prever. Mandei meu presente pra comemoração e fui curtir meu dia, não porque era das mães, mas porque era meu domingo livre. Quando cheguei, liguei pro Miguel. Falamos um pouco. Nos despedimos, amanhã vejo ele.  Minha mãe, verei também. Uma segunda-feira. Um dia comum.

Sabe, não é mal agradecimento, mas não quero que Miguel me chame, me trate como “minha rainha”. Não sou. Não quero devoção. Abdico do tratamento especial, porque ele traz um peso pra maternidade, um peso de que quero me livrar, rótulos que luto para desconstruir. Não quero que Miguel me agradeça por eu ser alguém altruísta, alguém que renunciou, que se anulou, que deixou de viver por ele. Isso não é amor de mãe e se amor, não é exclusivo nosso. Eu quero que o Miguel cresça me agradecendo por tê-lo deixado livre pra ser quem ele quiser, porque eu não depositei nele minhas expectativas de vida.

Que cresça com uma vinculação comigo para além das obrigações e reverências, que olhe pra minha vida e veja nela alguém que foi livre, feliz, que amou, que errou, que nunca teve pretensão de ser perfeita, nem que o amou mais do qualquer outra pessoa no mundo.

Chega de semi-deuses. Deusas. Ser mãe não é algo sublime, queridos publicitários. Ser mãe é algo bom, ou ruim. Depende das circunstancias, depende de muitos fatores. Maternidade não é uma experiência igual pra todas as mulheres. E é por isso que defendo a maternidade como escolha e não imposição social (aborto, tema polêmico. falo um outro dia).

Ano passado postei algo no Facebook como: “Doce, terna, fazedora de bolos, santa…com todos esses adjetivos dado às mães, me sinto uma mera chocadeira”. Risos. Mas brincadeiras à parte, não me vejo nesses modelos retratados no Dia das mães, que convenhamos, que data mais sem sentido (como todas as outras comerciais, aliás). Na verdade sou mãe porque transei.  O resto eu tô batalhando pra fazer, me virar, aprender.

Desculpa desapontar o imaginário de vocês, mas mãe é só mãe mesmo. Descreva a sua e eu descrevo a minha.

E pra finalizar, vi minha mãe sendo humana de verdade esses dias atrás, quando ela me disse coisas terríveis e pra machucar mesmo, mágoas de anos, coisas sérias e até me excluiu do Facebook (novos tempos, minha gente. fiquei ofendidíssima com essa, sério). Na hora da raiva, falou “esquece que você tem mãe” e aquilo me deixou embasbacada. Pensei e até revidei: “Nunca vi mãe renegar filho”, mas refletindo depois, vi que putz, minha mãe, a minha, que é calma, que nunca grita, que releva tudo, toda bobinha e coração mole, um referencial de amor incondicional, foi só…humana.

Achei libertador. Pra nós duas. Me senti em pé de igualdade. Suspiros.

Propus algo a ela depois como “mãe, tamo junto, bora aprofundar as coisas aí, nas nossas diferenças mesmo, nesse tempo que nos resta” e é o que espero pra nós duas. Passamos o dia ontem separadas, mas mais ligadas do que nunca.

Nunca é tarde pra se descobrir mãe, pra aprender a ser filha.

Por isso finalmente, meça seus comentários estereotipados, parça. Não reproduza esses clichês que na prática só oprimem e reforçam um ideal inatingível pras mulheres, que exclui pessoas do processo de maternagem, que pesa pros filhos também.  E você que é mãe, liberte-se também. Não é tudo mérito seu e a culpa não é toda sua. Outros domingos virão.

Comemore com moderação.

(Post originalmente publicado em Maio de 2015 aqui)

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O amor e o poder

Ontem eu conversava com uma amiga sobre um meme que tá rolando por aí que diz assim “Namore um homem que não tenha medo do seu poder”. Ironizei que a continuação deveria ser: “Ou seja, amiga: seja feliz solteira mesmo, porque né…risos, tá difícil ” e problematizamos um pouco sobre o que já vinha refletindo há um tempo. Isso de que os homens não tão acompanhando mesmo essa geração de mulheres fortes pra cacete (ou pra buceta, no caso) e tão sim, ficando à margem, aquém, deixando a desejar, enfim, insira aqui (_________________) qualquer outro adjetivo que alguém chamará de mimimi mesmo.

Daí hoje o deputado com essa fala infeliz: “as mulheres de verdade não querem ser empoderadas, querem ser amadas” me veio mais coisas à cabeça.

A noção de amor que nós mulheres recebemos desde a infância é realmente inconciliável com a de uma mulher empoderada.

O amor que nos é ensinado desde cedo é mesmo um amor que silencia e abaixa a cabeça. A começar pela maldição dos contos de fadas que romantizam abusos e introjetam a eterna idéia que devemos esperar (belas, recatadas e do lar) um príncipe vir nos salvar de nossa vã existência. A idéia de princesa, de passividade, do amor como um sentimento romantizado e irreal (É irreal. Felizes para sempre não existe!) é de um fardo e uma opressão sem tamanho.

Por mais bem-sucedida e feliz que você seja, ainda será (e até muitas vezes mesmo se sentirá) incompleta se não tiver um homem do lado. Os conselhos e mensagens que uma mulher minimamente “empoderada” ouve no decorrer da vida é:

“Não pague a conta”, “Homem se assusta com mulher independente”, “Ele está inseguro, não o assuste”, “Não grite com seu marido”, “Quem vai querer uma mulher que age como um homem?”, “Deixa ele se sentir no comando”, “Você tem que prender ele na cama”, “Ele tem ciúme porque te ama” e tantos outros.

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(E eu não tô falando da revista Nova e as “5864 dicas infalíveis de surpreender o gato com um sexo oral incrível”).

Tô falando de mim, das minhas amigas, to falando da maioria das mulheres fodas que conheço. Uma geração de mulheres que até cresceu assistindo Cinderela, mas um belo dia (resolveu mudar e fazer tudo que queria fazer) se deu conta de seu poder e acabou batendo de frente com uma puta crise existencial:

eu não sei amar sem ser submissa. Ou: como amar e ter voz? Ainda: até tô sabendo amar e lidar com meu poder, mas meu parceiro não.

Isso é uma coisa.

A outra é:

Feministas não são mulheres “de verdade” porque “Mulher de verdade”, como diz a música, não é aquela que sequer questiona sua fome? (“Meu filho o que se há de fazer?” – Ai que saudades da Amélia), imagina se questionará homem um dia né? E tamo aí questionando tudo.

Também faz sentido ainda chamar feministas de “mal-amadas” numa sociedade que ensina que amor é sinônimo de silenciamento. Realmente, nesse caso, por esse prisma de amor, eu topo. Sou mal-amada mesmo (mal comida jamais). Ponto.

Não quero também um amor que vez ou outra aparece como causa de um assassinato. Ainda é normal ver manchetes de jornal por aí dizendo “homem mata esposa por amor” ou “mulher é vitima de crime passional”.

Sei que amor não mata. Como feminista (mal-amada) sei que o que faz os homens matarem mulheres todos os dias (o Brasil é o 7º no mundo nesse ranking) não é amor, é a sensação de PODER que eles tem sobre nós. (“Se não for minha, não será de mais ninguém”, conhecem essa expressão?).

 E aí fica tudo fica muito claro porque não interessa ter mulheres empoderadas e sim mulheres “de verdade” no mundo né? E porque é tão mais fácil enfiar um conceito de amor passivo e silencioso goela abaixo.

Pra um homem que sabe que poder mata, nada mais assustador que uma mulher com ele (o poder). E nada mais ameaçador para ele (o homem) uma mulher poderosa ao seu lado.

Só que assim como feminismo não é o contrário de machismo. (Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais).

Vamos desconstruir a idéia de que amor é antítese de poder.

Vamos falar de amor (chamem o Marcinho) com nossas filhas. Amor, gente. Dá pra ter poder, amar e ser amada, dá sim. Aos nossos filhos vamos dizer que o poder feminino não mata (ao contrário do masculino). A mulher empoderada de hoje é o mito da “vagina dentada” de antigamente. 2016 e ainda alimentamos lenda urbana.

Às nossas filhas, ao invés de contos de fadas, vamos dizer (o que aprendi a duras penas, ainda venho aprendendo e digo pra todas as mulheres que eu tenho oportunidade) : amor só existe quando a gente tem voz.

Não dá pra querer amor de quem não considera a gente enquanto mensagem no mundo. Homem que te ama e aceita seu poder é o que se interessa pelo que você tem a dizer, pelo que a sua história diz, que considera a sua singularidade. Qualquer coisa fora disso fora é consumo e não amor. Se você não tem voz, se não pode ser você mesma, é melhor ficar sozinha (e ser chamada de mal-amada).

E é isso que incomoda o deputado lá e seus amigos né?. Conveniente mesmo é ter as mulheres bem caladinhas , “amadas” e felizes fazendo a janta – que não pode ser sopa – enquanto eles decidem no plenário sobre o futuro do nosso útero.

Bom, pra citar mais uma música (tô bem musical hoje). A gente não quer só ter voz mesmo. A gente quer comida e quer fazer amor.

Amor e poder.

(Ps: eu fui colocar o título no texto e obviamente saiu a música “como uma deusaaaaaa, você me mantééééém”. Até que achei apropriado. Leiam de novo, agora escutando:

Ps2: eu aproveitei os texto pra problematizar todos as ultimas polemicas e memes juntos. Se organizar direitinho, tem treta todo dia. Com calma mundo!)

 

Livre, respeitada e de onde quiser

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A reportagem (se é que isso pode ser chamada de uma) da revista Veja de ontem nos mostra para onde estamos caminhando. Para trás.

Saímos do “toda menina pode sonhar em ser uma presidenta da República” para “lugar de mulher é nô âmbito doméstico, à sombra de um homem”.

Saímos da figura de Dilma, uma mulher cujo slogan de campanha era “coração valente” para entrar na figura de “Marcela, a bela moça recatada de vestidos na altura do joelho”.

Saímos do “lute como uma garota” para entrar em “sua função no mundo se resume a sua aparência física”.

Politica se faz com símbolos.

Não se enganem, o golpe de domingo não é somente contra a democracia,é contra a Dilma, MULHER sim ! e tem muita misoginia e ódio por ser uma MULHER sim! ocupando aquela cadeira.

Nunca aceitaram sequer a flexão do gênero na palavra PRESIDENTE, gente. É um A que eles não aceitam.

Para eles, nosso lugar é no tanque, é em casa, é na reunião de “pais” dos nossos filhos.

Sobre a Dilma, simbolicamente falando, pesa o manto do patriarcado e do machismo.

Não é pouca coisa ser a primeira mulher a governar um país do tamanho do Brasil. Junto com isso (ou também por causa disso) as mulheres foram se organizando e não-mais se silenciando num movimento que foi chamado, ano passado, de a “primavera das mulheres” por alguns. A gente se levantou. As mulheres tomaram as ruas, saíram “do lar” de onde não queriam que saíssemos (assim como a casa grande surta quando a senzala aprende a ler).

2015 foi um marco civil e politico no feminismo brasileiro, um movimento reavivado nas ruas e redes.
2016 já aponta para o retrocesso.

Fiquem atentos: num dia um parlamentar exulta um torturador, estuprador e assassino de mulheres. No outro, já querem vender o modelo ideal do que é ser mulher (e essa mulher é jovem, branca, magra, “se dá o respeito”, usa saia comprida e NÃO FALA).

Primeiro-damismo é das coisas mais atrasadas da nossa sociedade. Significa afirmar que nascemos com função secundária. Não aceito sequer esse termo, que ao meu ver, já devíamos ter superado.

Quem já foi presidentA jamais se conformará em voltar a ser primeira dama. Tá avisado.

E à VEJA fica o recado: minha saia seguirá curta. Continuarei sendo não-recatada e meu lar é o palanque. Não nos calaremos nunca mais. Nunca mais. N-U-N-C-A M-A-I-S.

(Post original aqui e aqui)

Pertecimento, Empatia, Gentileza

Ontem à noite, eu e mais dois amigos estávamos numa pizzaria delivery e enquanto a gente esperava, o Jornal da globo anunciava as manchetes: “Ministro do STF, Teori Zavascki, determina que Moro envie ao STF as investigações envolvendo Lula na operação Lava-Jato”. Sem pensar, bati no balcão, dei um gritão e simulei uma dancinha da vitória . Alguns segundos depois, olhei pro lado e vi que tinha um homem bem vestido e tal,  me olhando (e os garçons riram também). Já pensei : “ixe, vou apanhar”. Aí o cara fala: “se esse país for sério mesmo esse juizeto vai é preso né? Onde já se viu grampear a presidenta da República? E globo a contragosto tendo que noticiar isso? Não tem preço. E olha, dia 31 você vai né? Vai ser maior, vai ser lindo”. Não conversamos nada além disso. Não durou 15 segundos. Nos despedimos com um olhar de “tamo junto” e um breve aceno de mãos.

Sem título

Foto: Diego Patriota 

Depois, fomos para um food-truck e chegou à nossa mesa uma figuraça chamada Ricardo. De shortinho e blusa rosa colada no corpo. Contou, muito bem-humorado sua história. De como passou a viver nas ruas depois que sua família o rejeitou pela sua homossexualidade. Perguntou ao Diego (ou o moço do sorriso bonito, segundo ele) qual de nós duas (eu e minha outra amiga) era namorada dele e eu respondi que as duas. Rimos. Ele falou que é cozinheiro, mas não arruma trabalho porque perdeu os documentos. Orientei ele em como proceder nesses casos e pra procurar o órgão especializado em pessoas em situação de rua. Ele disse que só queria dinheiro pra comer e não pra se drogar, que se fosse pra se drogar ele falaria também. Falamos que não tínhamos dinheiro, mas dava pra pagar um hamburguer no cartão. Ele ficou feliz pela atenção, pelo não-coitadismo e pela comida. Falei pra ele que ele tem o nome do boy magya. Ele falou “outro? Ai que gulosa!”. Rimos. Cada um seguiu seu caminho sabe-se lá porque um pouco mais leve, apesar da barriga cheia.

Encontramos outra pessoa e passou um tempo, voltamos ao FoodTruck para comer (de novo, mas agora tinha o boy que não havia comido nada). Eram  23:00 h já haviam encerrado a cozinha. Não saía hambúrguer mais. “Nem batata?”, perguntamos como quem não quer nada. O dono do estabelecimento não respondeu, virou e DEU dois baldinhos de batata pra gente, com molho. Assim, de graça. “Só pra vocês não perderem a viagem”. Gente, não eram quaisquer batatas. Eram “batatas rústicas temperadas com páprica defumada e alecrim”. ❤ Ficamos paralisados e feito crianças com brinquedo novo, comemos e disputamos cada uma delas sentados no meio fio da rua. Foi o lanche mais gentil que comemos na vida.

Por fim, na minha última pizza, lá pra meia noite,1 h da manhã, fui passar o cartão e não passou. (Vergonha que quem é cliente BRB já conhece). Tentei umas 4 vezes. Virei e falei de brincadeira “ah não moço, vou ter que ser bancada hoje, odeio”. E ri. Sentei pra conversar, comi, bebi e o dono do bar falou pra mim  em leitura labial: “tem nada não, você paga depois”. E deu uma piscada. Ofereci pra deixar minha carteira de identidade e ele falou “precisa não, eu confio”. No fim o cartão o passou, mas a sensação de ser tratada com educação sem assedio ficou. É raro. E meu short era curto.

Conclusão: existe amor em Bsb, o mundo ainda é um lugar bacana pra viver , tem mais gente boa do que ruim no planeta, o amor vence o ódio, amigos que laricam juntos permanecem juntos, o Banco Regional de Brasília tem meus piores sentimentos, o @geleiafoodtruck eu indico na vida, Ricardos são gostosos e tudo acabar em pizza não é uma coisa necessariamente ruim (e eu preciso parar de comer carboidrato).

Aprendi com minha mãe

Aprendi com minha mãe sobre linguagens de amor. Uma vez dei uma gravatinha de papel (que fiz na escola) para o meu pai e ele desprezou. Na hora aquilo me doeu, mas depois que eu descobri uma gaveta da minha mãe, cheia de desenhos e declarações minhas, junto com meu primeiro vestidinho, sapatinho, pulseirinha da maternidade e outras coisas, me dei conta que simplesmente as pessoas amam (e demonstram) de forma diferente. Então tava explicado: minha mãe era das minhas. Colecionava memórias e guardava amor em pequenos gestos. Ela se importava com declarações escritas, com lembrancinhas sem valor financeiro, com pequenas doses de gentileza. Meu pai? É de outra praia e isso não quer dizer que ame menos, só que ama diferente.

Minha mãe guarda até hoje um desenho que fiz: ela cuidando de bebês. (Nessa época ela era estagiária de enfermagem na Obstetricia). Isso deve ter uns 25 anos.

Minha mãe fica feliz ganhando um bombom recheado ou um ingresso vip pro show do Roberto Carlos. É uma delicia comprar presente pra ela: fica feliz, experimenta a roupa, rasga o embrulho, usa a coisa na hora, agradece com os olhos brilhando. Ela sabe que merece.

Minha mãe nasceu pra ser amada, ela sabe aceitar. Humildade é isso: saber receber e saber dar. Não é humilde quem não sabe receber. Minha mãe é uma recebedora nata.

Mas minha mãe é também uma doadora universal, tipo meu tipo sanguíneo. Minha mãe doa tudo. Minha mãe dá presentes. Pra todo mundo. Minha mãe dá presentes para as diaristas lá de casa, pros colegas de trabalho, pra todos os aniversariantes da família, pra mim então…fui a mais agraciada! Se tem uma coisa que lembro da minha infância é de esperar ansiosamente ela chegar do trabalho, só pra correr e perguntar “o que a senhora trouxe de bom pra mim hoje?” e SEMPRE tinha alguma coisa. Podia ser um chocolate branco (que eu e ela amamos), um pirulito, uma revistinha, um arranjo de cabelo… qualquer coisa. Minha mãe me ensinou que a felicidade está nas coisas simples da vida, a ter prazer em receber, a ver gentileza e cuidado nas mínimas coisas. Minha mãe me incentivou a gostar de amor em doses homeopáticas.

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Teve um tempo que eu não a via chegar em casa. Minha mãe trabalhava o dia todo e fazia faculdade à noite. Vinha de ônibus, quase de madrugada, com meu pai, que também estudava. Eu ficava com minhas irmãs. Na maioria das vezes, dormia orando pra eles chegarem bem. Eu tinha medo de assalto, de acidente, eu tinha medo de perde-los. Minha mãe me ensinou o que é alivio quando eu sentia ela me cobrindo com o cobertor quando chegava. Ela não devia saber na época, mas eu sentia. Sentia paz, sentia cuidado, sentia acolhimento. Dormia tranquilamente.

Hoje, imagino que talvez ela tenha sentido culpa, medo, insegurança. Imagina uma filha pequena (eu devia ter uns 5 anos) sendo cuidada por outras duas ainda pré-adolescentes enquanto você sai pra colocar a comida na mesa. Não tínhamos empregada. Minha mãe ensinou minhas irmãs sobre responsabilidade e união. Eu sobrevivi e mãe, sobrevivi cheia de orgulho dessa história. Minha mãe me ensinou que ser só mãe não basta e que é sempre tempo de correr atrás do que se quer.

Lembro da formatura do meu pai até hoje. Inventei de passar minha própria roupa e ganhei uma queimadura na barriga. A cicatriz ta ai até hoje me lembrando da minha falta de habilidade com coisas domésticas. Risos.

Por falar em habilidades domésticas: minha mãe me ensinou o que é prioridade na vida. Ela, nessa rotina exaustiva, nunca teve obsessão por uma casa impecável e nunca, nunquinha perdeu uma noite de sono por causa de uma pia cheia de louça. Entre descansar ou fazer uma faxina, minha mãe descansava. Ela dormia até mais tarde aos finais de semana, às vezes cochilava a tarde. Minha mãe nunca passou a imagem de Amélia, mulher subserviente ao lar, nunca vestiu  a carapuça de “Super Mulher” e isso fez muita diferença na mulher que sou hoje. Sou uma mulher que não se deixou oprimir por estereótipos do que é uma boa mulher. Obrigada, mãe.

Minha mãe é uma mulher que sabe viver a vida. Talvez seja por isso que nunca a vi reclamando. É sério: ela NUNCA reclama de nada. Minha mãe é leve, minha mãe é feliz, minha mãe é sem estresse, minha mãe me deu esse legado. Eu também prefiro dormir até mais tarde, também sou fã de praticidade e tenho como uma verdade da vida que se reclamar não muda nada, pra que então? Amo meu trabalho, minha rotina, eu agradeço até pelos problemas. Ela foi meu espelho.

Dona Sandra também nunca foi uma exímia cozinheira. Até se vira, mas admite pra quem quer ouvir que não gosta de cozinhar. Entretanto, pra equilibrar, se aperfeiçoou no quesito sobremesas e olha, ela faz o melhor pavê de sonho de valsa e bolo de chocolate do mundo, sem exageros. E ela me fez e ainda faz muito feliz quando deixa a gente lamber a forma da massa do bolo. Pequenos prazeres.

Minha mãe é uma mulher vaidosa. Comecei a gostar de batom por causa dela. Lembro dela se arrumando pro trabalho algumas vezes. Lembro do cheiro que deixava (e ainda deixa) pela casa quando saía, porque sempre amou perfumes. O cheiro da minha mãe é doce e forte, como ela. Fica nas roupas, fica na casa, fica na gente. Fica na memória. Se eu pudesse fazer um pedido pra Deus hoje, pediria pra encapsular esse cheiro. Pra ele nunca sair da minha memória (afetiva), mas também pra distribuir pra todo mundo. O mundo seria melhor.

Em relação ao trabalho, minha mãe se aposentou no mesmo setor que entrou, com 17 anos. Morro de tédio só de imaginar. Nisso somos opostas, mas ela me ensinou o que é ser uma profissional excelente. Minha mãe não teve uma falta, uma reclamação, não deu um atestado. Todos amavam minha mãe: de médicos chefes a pacientes em estado terminal. Ela tem um senso de responsabilidade gigante, o maior que já vi e que adquiri observando. Minha mãe recebia presentes e mais presentes, apenas por fazer o que um servidor público de verdade deveria fazer: servir bem o público. Ela tratava todos com igualdade, respeito e gentileza. Valeu mãe, é da senhora que eu lembro todo dia quando atendo meus usuários.

Hoje ela é aposentada e mesmo tendo se dedicado tanto ao trabalho, não sente falta dele. Nunca esteve tão disposta, feliz, jovem e bonita. Minha mãe é rainha de si mesma. Ela usa redes sociais, assiste programas de tv, malha todos os dias, corre na esteira, participa de grupos de oração, de mães, manda piadas no whatsapp, viaja sozinha com meu pai, aprende tutoriais de tudo no youtube, sabe de tendências de moda, jaja vira blogueira. Um dia é pouco pra ela. Ela me ensina sobre aproveitar o tempo.

Minha mãe me ensina sobre tudo o tempo todo, sem dar lição nenhuma.

Aprendi com ela que afagos de mãe são definitivos. Pra sempre me lembrarei do cobertor à noite, do chocolate quando vinha do trabalho, do leite com nescau já frio que eu encontrava ao meu lado ao acordar (ela deixava quentinho ao lado da minha cama, mas como saía muito cedo, esfriava), do lugar que eu achava entre as pernas dela no sofá, na hora de assistir Tv ( e eu caibo nele até hoje porque aprendi que colo de mãe é adaptável, ele sempre vai ser do tamanho que a gente está), do pijama que guarda pra mim até hoje, pra quando eu vou dormir lá.

Aprendi com minha mãe que dá pra amar pequeninho, que alguns desenhos de caneta bic não desbotam, que cheiro não se esquece, que gentileza é o amor em movimento, que quando a gente tá com a mãe da gente não sente medo de nada (a não ser dela mesmo), que a vida é bonita, leve, parafraseando o poeta, que “pode ser maravilhosa”.

(Observação: O título do post e a idéia desse texto veio desse livro aqui , que li em Julho desse ano)

Agosto


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Acordo 7 h com meu despertador tocando Nação Zumbi. (Saiba como aprender a odiar uma música: coloque-a como seu despertador). Meu plano era chegar mais cedo no trabalho para poder tirar mais horas no almoço. Opa, essa essa casa não é a minha.
Alguns segundos de “onde estou, dormi com quem?”.
Estou só de calcinha e camiseta (de ontem). Bebi um pouco. Será que fiz besteira?
Luana acorda lendo Chapolin Sincero pra mim. “É impressão minha ou agosto tem 365 dias?” Ufa. Sorrio.
Lembro da noite anterior. Dignidade ainda comigo (apesar das fotos bregas e felizes achadas no celular e de lembrar que tirei o sutiã no meio do show. Ok. Antes o sutiã que a blusa).
Acordo de bom humor.
Me arrumo rapidamente.

Por que eu bebi ontem e que cabelo é esse? Vai assim mesmo.

Sinto cheiro de chá e de ovos. Luana fez omelete. E torradas. E me deu opção: “chá ou toddynho?” Toddynho claro. Que amor.

Quanto tempo não tomava café decentemente ou acompanhada. (Apesar que uma vez ganhei mexericas descascadas. Se isso não é amor, o que mais pode ser?).

Penso que todas as últimas vezes que dormi com alguém fui embora na madrugada ou fugida de manhã cedinho.

Lembrei das conversas com uma amiga que disse que eu não me abro e que sou blasé. Não aprofundo esse pensamento. Tá muito cedo pra crise existencial.

Lembro de um cara que postou um textão filosófico conceitual no facebook sobre o “seu lugar na objetificação sexual masculina” depois que eu fui embora da casa dele com ele dormindo. E não deixei mensagem. Só não fiquei ofendida porque não entendi muito bem o texto. Aliás, fiquei de mandar pra Luana ler. E me explicar. Lembro que encontrei ele no show de ontem. E ele não falou comigo.

Me questiono se sou escrota. (algo dentro de mim me censura e diz que o escroto foi ele, mas calo essa voz rapidamente) e porque ainda não exclui ele dessa rede social.

Ah, foda-se a meia hora pra chegar mais cedo no trabalho. Tomo café com a Luana. Mereço.

Caramba, 8:40 h, vou chegar atrasada. Desço correndo. Beijo na Luana. Aviso que peguei um sapato emprestado. No caminho pro trabalho agradeço mentalmente por ter amigas incríveis.
Coloco uma música e danço. Só eu danço dirigindo?

Trânsito semi congestionado. Droga, vou chegar atrasada mesmo. Por que eu tô sempre atrasada?
Uma rápida olhadinha no whatsapp. Putz, tenho tanta gente pra responder. Mensagens de sexta passada.

Chego no trabalho com 10 minutos de atraso e vou direto pra labuta, sem os 15 minutos de enrolação que levaria para tomar um café preto feito pela menina da limpeza e engolir uns biscoitos água e sal.
Trabalho.
Ligações.
Email de encheção de saco do pai do meu filho. Respondo civilizadamente ou mando se fuder? Não, vou ser de boa.
Porém nota mental: usar sempre camisinha. Por falar em coisa boa lembro que entro de férias depois de amanhã. Mas sem viajar. E sem dinheiro. Paciência.

Atendo um homossexual que foi espancado… Por ser homossexual. Sem família. Tava com o olho roxo. E sua família? Pergunto. “Não tenho. Não me aceitam como sou”.
Mundo escroto.

Penso que não posso absorver tudo isso pra minha vida pessoal. Como não?
Ofereço um café pra ele enquanto conversamos. Ele diz “ai brigada, tô numa ressaca”. Penso em dizer “eu também”. Mas não falo.
Faço os encaminhamentos.

Vou ao banheiro, me olho no espelho e desejo perder 3 kg, que provavelmente estão concentrados todos na minha bunda. Paciência.

Entro no facebook (site).Dou uma lida geral no feed. Ninguém merecendo meu like.

Começo um relatório.

Outra família pra atender. Estupro.

Putz, passou meia hora do almoço.
Vou correndo ver meu filho que tá doente. Beijo o filho. Vejo remédios do filho. Tem tarefa da escola do filho. Não deu tempo. Deixo pra noite.
Almoço interrompido a cada 30 segundos por “mããããe”. Comida esfriou. Ok. Paciência.

20 minutos restantes pra voltar ao trabalho: 10 pra cochilar. 10 para o percurso. Oba. Deito. Que delicia.
Sinto mãozinhas abrindo minhas pálpebras.Só queria cochilar. Não deu. Paciência.

Voltar para o trabalho.

No caminho vejo que o carro tá na reserva. 20 reais na carteira. Cartão ficou na outra bolsa. Penso que esse lance de trocar de bolsa é tipo sair com mais de um cara ao mesmo tempo: requer muita logística pra pouco prazer na prática. Acho que vou investir numa bolsa só mesmo.

Abasteço e vejo que não dá mais pra postergar: tenho que calibrar os pneus.
Droga, logo hoje que estou de vestido justo.

Nunca sei quanto colocar. Tenho vontade de perguntar pra um boy magia e já aproveitar pra puxar um assunto, já que “você é blasé”, critica de uma amiga, não sai da minha cabeça.
Resolvo apelar pro google mesmo, afinal, ao menos ele não faz joguinhos nem é monossilábico.
Diz que o ideal é 30 libras. Enquanto calibro ouço buzinas. Respiro. Vou ficar de boa.
Um cara grita: “Mas que rabo!”. Fico puta. Quero xingar. Quero mandar ele dar meia hora de bunda. Respiro.
Penso que talvez dar meia hora de bunda seja uma coisa boa. Sorrio.
Talvez meia hora seja muito tempo, concluo.
Penso em perguntar isso pra algum amigo gay. Lembro do homossexual espancado. Tenho vontade de chorar. Ainda estou calibrando os pneus.
10 minutos atrasada.
Penso em como o mundo é opressor.
Enquanto dirijo dou uma olhadinha no whatsapp.
Penso no porquê os homens serem tão monossilábicos. (Se Bukowski tivesse rede social ele mandaria emoticons? E nudes? divago. Quase avanço o sinal vermelho. Mais um). Penso nas minhas amigas incríveis e que reclamam de homens monossilábicos.

Eu penso demais.

Chego a conclusão que os homens estão meio aquém do bando de mulherio foda que tem por aí. Quero escrever um texto sobre isso. Eu escrevo demais.
Cheguei.
Reunião.
No meio percebo que as minhas mãos ainda estão sujas.

Atendo uma família. Caso light. Só ameaça de morte.

Olho o whatsapp. Penso que se uma pessoa não se dispõe a te responder usando no minimo três palavras é porque ela não quer falar com você. Depois eu que sou blasé?

Mensagens no snapchat. A única rede social que me atrai ultimamente. Pelo menos algo ainda tem me atraído, concluo tentando ser otimista.

Ligo pra corretores de imóveis. É mais fácil encontrar o amor verdadeiro do que um apartamento legal.

Internet do trabalho acaba. Oba, dá pra responder algumas pessoas no whatsapp. Falo de sexo, filhos, fotografia, política e dou conselhos amorosos.
Escuto alguns.

Me questiono se sou escrota. Já estamos no meio da tarde e já dá pra ter crise existencial.

Começo a escrever a pauta pra minha consulta no analista quarta. Talvez tenha que pedir horário duplo.

Lembro do homossexual espancado. Tenho vontade de chorar. Checo se estou na Tpm. Não estou.

Hora de ir embora. Chega gente pra atender. Nada grave. Agendo pra amanhã. Não me sinto culpada por isso.

Chego em casa.
Estaciono o carro. Não desço. Preciso de 15 min só pra mim. Mas resolvo responder uma mensagem no whatsapp. Audio. Putz, passei 1 hora dentro do carro. Subo.

Filho me demanda muito. Estou mal humorada e sem paciência. Me sinto culpada por isso.

Me olho no espelho pela segunda vez no dia e desejo perder 4 kg ( sim, 1 a mais porque provavelmente ganhei esse retendo líquidos durante o dia).
Dou uma googlada sobre retenção de líquidos. E penso que talvez o cara que gritou sobre o meu rabo mais cedo não estivesse me cantando. Ainda bem que fiquei de boa.

Talvez eu seja de boa.

Vejo que preciso arrumar o cabelo. Corto ou não corto?

Filho me chama. Fujo pro banheiro. Tomo um banho de 10 minutos. Agora sim só eu e eu. Doce ilusão. Ouço “mããããe” do outro lado da porta. Deos, quando eles param de nos chamar?
Lavo o cabelo. Escovo o cabelo.

Compro um vestido maravilhoso. Eu mereço.
Me sinto culpada, capitalista consumista e que desvia o foco das coisas, mas ok.

Filho faz birras pra chamar minha atenção. Converso. Respira. Não pira. Ele chora. Fico brava. Ele melhora, pede desculpas. Eu pego no colo. Abraço. Beijo.
Tô saindo do salão com meu filho. Ainda estou com a mesma roupa que trabalhei. E calibrei os pneus. Um cara passa e fala “mas você está maravilhosa hein?”. Respondo que não perguntei. Acho que não sou tão de boa. Paciência.
Fico com vergonha pelo meu filho. Talvez eu não devesse usar mais esse vestido. Ou talvez os homens devessem ser menos escrotos. “Meu filho, não seja um homem escroto” talvez seja um bom ensinamento. Só penso.

Chego em casa de novo. Meu filho pede colo. Como esse menino cresceu.

Esqueci que não como nada desde o almoço. São 21 h. Janto sopa. Excepcionalmente tô na casa dos meus pais.

Penso num audio que recebi. Penso sobre relações vazias e amor livre. Sinto falta de conexões e trocas reais. Lembro que “rejeitei” quase 5 mil caras no Happn.
Tenho medo de castigo divino. Porém lembro dos matchs e crushs: quantos passaram de um número a mais no whatsapp ou na minha listinha? As pessoas estão mais desinteressantes? Eu que tô exigente? Ou chata? Acho que a última opção. Virei uma mulher que fala “conexões” e quer perder 4 kg.

Tô precisando de um detox de gente. Penso.

Meu filho quer ficar grudado. Eu só queria ficar sozinha. Ele dorme. Lembro que não fiz a tarefa com ele. Me sinto culpada, mas prometo que amanhã vou acordar mais cedo pra fazer.

Olho o whatsapp: muitas mensagens pra responder. Não vou. Vou ser monossilábica agora. E fazer joguinho. Ou ser misteriosa. Não consigo.

Definitivamente não sou escrota.

Penso. Por que tanto? Só queria relaxar.

Abro o instagram: todo mundo é feliz. Posto esse texto que mistura tempos verbais e confusões mentais lá. Apago. Fiquei com vergonha. Lá todo mundo é feliz.
Deito. Vou dormir. Sem pensar. Tenho que responder as pessoas. Não consigo.

Penso demais.

Amanhã não posso sucumbir ao modo soneca. Tenho tarefa de filho e atendimentos. E mensagens. E planos. E culpas. E é véspera de férias. Mas sem viajar. E sem dinheiro. Paciência.

Resolvo postar esse texto no facebook porque baixei o app de novo só pra excluir o cara que disse que eu objetifiquei ele. Não tive coragem (de excluir, de postar ainda tenho. “Post like nobody’s watching”. Meu lema.  Apesar que me arrependo e apago às vezes). Anoto mais essa pauta pro analista quarta. Apago o post que já tinha 13 curtidas e 7 comentários. Na madrugada. Não sei lidar com likes. Não sigo de volta.

Me dou conta que fazia mais de 14 dias que não postava nada lá/aqui. Muitos joinhas, pouca interação. Nem o Zuckerberg escapou do meu bode.

Me questiono porque eu apaguei o app (o do face, porque os de encontro já expliquei) e lembro que é porque o celular estava sem memória. Meu iphone é o oposto de mim. Lembro de tudo.

Penso demais.

Dou uma última olhada no
whatsapp: respondi uma mensagem. de um cara. Ele é bonito e fofo e não-monossilábico, mas não vou ao encontro amanhã.
Me sinto culpada, só que não tô a fim. Paciência.
Consegui dizer não. Vou falar isso também pro meu analista na quarta. Acho que não sou escrota.

Observo meu filho dormir. Parece um anjo. Dou um beijo e digo no ouvido dele que amanhã vou tentar ser melhor.

Estou cansada. Não estou dormindo na minha cama de novo. Agosto tem quantos meses, Chapolin Sincero? Coloco celular pra despertar às 7 horas. Vai tocar Nação Zumbi. Mas ao menos na quarta estarei de férias (sem viajar e sem dinheiro, mas ok, paciência), terei consulta no analista e os pneus do meu carro já estão calibrados. Quem sabe eu ache um apê legal e consiga não pensar sobre tudo. Só ser de boa. Paciência.

Quem tem medo de mamilos pretos? – O ranking do machismo na USP

Estava indo dormir ontem quando resolvi dar aquela última olhada na internet. Me deparo com a notícia “Ranking expõe intimidade sexual de alunas da USP e causa revolta”. Fui ler e o caso se trata de uma “brincadeirinha” que os estudantes (homens) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), no campus da USP em Piracicaba(SP) fizeram: criaram um ranking da vida sexual das meninas, afixado na área de vivência (onde há maior circulação de pessoas) para que, de maneira c o l a b o r a t i v a os machinhos fossem marcando com quais delas eles já haviam transado. Não pára por aí. O ranking foi dividido em três categorias, que são elas: buceta fedida, teta preta (porque não bastar dizer que as mulheres transam – como os homens – é preciso dizer que nosso corpo é defeituoso, feio, fora do padrão. É aquilo: não somos apenas machistas: somos também racistas, homofóbicos…) e sociedade do anel

Não sei como, mas ainda me surpreendo com o machismo. Fui dormir extremamente triste e pensativa. Me coloquei no lugar de cada menina que foi exposta, difamada e ridicularizada. E nem precisei fazer um grande esforço de sororidade porque eu mesma já fui vítima de ameaças nesse sentido. Certa vez tive meu aparelho celular furtado, meus e-mails e redes invadida e o único objetivo do agressor era o de me ameaçar e chantagear através da MINHA vida intima e sexual.

Vivemos numa época em que transar ou ser livre depõe contra sua conduta, seu caráter, sobre o que você é. Comigo não funcionou, mas quantas mulheres são vitimas diariamente do revenge porn? Quantas já se suicidaram por terem sua intimidade, seu corpo, seu sexo exposto na internet? Quantas ainda serão punidas por exercer seu direito ao prazer, ao seu corpo?

Para além das consequências que esse crime na USP possa causar nas meninas é hora de parar para pensar o que significa esse ato machista. Por que esses estudantes “agroboys” quiseram ridicularizar as minas? Não gostaram do sexo? Como é: homens gostam de mulheres que transam, mas não gostam de mulheres que GOSTAM de transar? (Porque eles anotaram a quantidade de vezes em que “repetiram a dose” com a mesma garota).

Claro que gostam. Parece que o grande problema é a ousadia das mulheres quererem igualdade. Parece que é extremamente ofensivo para eles mulheres que gostam de transar sem compromisso porque assim, derrubam o mito de que elas, ou nós, sempre estamos à espera de uma relação e usamos o sexo para esse fim.

           Certa vez, estava eu numa roda de conhecidos (homens) e eles falavam, de maneira bem machista que todos ali haviam “pegado” uma menina aí. Um soltou “ela rodou na nossa mão”. Apenas respondi: “Queridos, se ela pegou todos vocês, foram VOCÊS que rodaram na mão dela e não o contrário”.

            Moças, transar não é errado. Muito menos gostar de transar. (Talvez a coisa errada nessa história toda seja a escolha dos caras com quem  você transa. Um que te coloca num ranking não é uma boa escolha, definitivamente).

           A outra coisa é a tentativa de ridicularizar nossos corpos e características.

Buceta fedida é nada mais, nada menos que a velha lógica higienista do machismo, que quer tirar de nossas vaginas os pelos e o cheiro. É a cultura do “sabonetezinho liquido” que nos empurram goela abaixo, naturalizando que mulheres não podem ter odores e fluidos, que temos que cheirar a floral. Olha só: pinto tem cheiro, buceta idem. Aceitem. Se você não gosta do cheiro natural de uma (não me refiro à falta de higiene), fique livre pra procurar algo que te agrade: talvez outro pênis ou uma boneca inflável.

 Teta preta é, além de racismo, um resquício da cultura do pornô. Vocês meninos que cresceram assistindo esses filmes (que vou contar pra vocês, ensinam tudo errado viu?) que só tem mulher branca/euroupéia de mamilo (e c* rosa), acham que esse é o padrão, isso que é agradável aos olhos e excitante. Queridos, saiam da caixa.

[Lembrei de quando a Cléo Pires posou nua na Playboy e o grande comentário foi que seus mamilos eram escuros. Cléo,a típica brasileira,meio índia, linda…queriam que seus mamilos fossem rosados. Esse padrão de beleza hibrido (porque é impossível uma mulher só reunir todas as características “ideais”) é  também, mais uma maneira de inferiorizar a mulher, como se o fato de ter mamilos escuros fosse algo ruim. Ei vocês, deixem nossos mamilos em paz].

A sociedade do anel é também um grande paradoxo. Homens, em geral, tem um grande fetiche com a relação anal. O bumbum é a preferência nacional do brasileiro (dizem) e parece que convencer uma mulher a fazer sexo anal é a meta de 8 entre cada 10 homens (de acordo com meu próprio instituto de pesquisa empírico, risos), mas se uma mulher gosta, pede, faz, aí merece ser constrangida em público.

            Constrangida?

A grande arma contra o machismo e esse tipo de prática é naturalizar o que para eles é assustador: a gente gosta de sexo, a gente quer transar, a gente quer liberdade, a gente ama nosso corpo e ele não existe para agradar você homem. Nossa sexualidade não gira em torno de você. O mundo das mulheres não gira em torno de vossos paus. E é por isso que o ranking existe.

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Fazendo um exercício de inversão: mulheres fariam um quadro em que julgariam os homens em categorias? Sei lá: pau pequeno, goza rápido e curte fio terra? Não. Porque NÃO existe opressão sobre a vida sexual masculina, nem ditadura para a estética do pênis, tampouco pelo cheiro que exala, muito menos que o que quer que ele faça entre quatro paredes interfira na sua imagem perante a sociedade. E mulheres não tem medo (ou inveja, né Freud?) da sexualidade dos homens.

E a resposta das minas da USP não poderia ser melhor. Se eles se assustam com liberdade, pois então que nem saiam de casa. Vai ter mulher livre, gozando e amando seu corpo.

Ter uma vida sexual livre nunca foi e nunca será motivo de vergonha.

 O ranking do machismo só escancarou o medo que o patriarcado e a sociedade em geral tem das mulheres livres. Enquanto eles escrevem em muralzinho, a gente, igual aquela página do Facebook PREFERE TRANSAR.

Não passarão.

E moças: libertem seus mamilos. Eles são lindos.

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 Cartaz-resposta das minas