Livre, respeitada e de onde quiser

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A reportagem (se é que isso pode ser chamada de uma) da revista Veja de ontem nos mostra para onde estamos caminhando. Para trás.

Saímos do “toda menina pode sonhar em ser uma presidenta da República” para “lugar de mulher é nô âmbito doméstico, à sombra de um homem”.

Saímos da figura de Dilma, uma mulher cujo slogan de campanha era “coração valente” para entrar na figura de “Marcela, a bela moça recatada de vestidos na altura do joelho”.

Saímos do “lute como uma garota” para entrar em “sua função no mundo se resume a sua aparência física”.

Politica se faz com símbolos.

Não se enganem, o golpe de domingo não é somente contra a democracia,é contra a Dilma, MULHER sim ! e tem muita misoginia e ódio por ser uma MULHER sim! ocupando aquela cadeira.

Nunca aceitaram sequer a flexão do gênero na palavra PRESIDENTE, gente. É um A que eles não aceitam.

Para eles, nosso lugar é no tanque, é em casa, é na reunião de “pais” dos nossos filhos.

Sobre a Dilma, simbolicamente falando, pesa o manto do patriarcado e do machismo.

Não é pouca coisa ser a primeira mulher a governar um país do tamanho do Brasil. Junto com isso (ou também por causa disso) as mulheres foram se organizando e não-mais se silenciando num movimento que foi chamado, ano passado, de a “primavera das mulheres” por alguns. A gente se levantou. As mulheres tomaram as ruas, saíram “do lar” de onde não queriam que saíssemos (assim como a casa grande surta quando a senzala aprende a ler).

2015 foi um marco civil e politico no feminismo brasileiro, um movimento reavivado nas ruas e redes.
2016 já aponta para o retrocesso.

Fiquem atentos: num dia um parlamentar exulta um torturador, estuprador e assassino de mulheres. No outro, já querem vender o modelo ideal do que é ser mulher (e essa mulher é jovem, branca, magra, “se dá o respeito”, usa saia comprida e NÃO FALA).

Primeiro-damismo é das coisas mais atrasadas da nossa sociedade. Significa afirmar que nascemos com função secundária. Não aceito sequer esse termo, que ao meu ver, já devíamos ter superado.

Quem já foi presidentA jamais se conformará em voltar a ser primeira dama. Tá avisado.

E à VEJA fica o recado: minha saia seguirá curta. Continuarei sendo não-recatada e meu lar é o palanque. Não nos calaremos nunca mais. Nunca mais. N-U-N-C-A M-A-I-S.

(Post original aqui e aqui)

Pertecimento, Empatia, Gentileza

Ontem à noite, eu e mais dois amigos estávamos numa pizzaria delivery e enquanto a gente esperava, o Jornal da globo anunciava as manchetes: “Ministro do STF, Teori Zavascki, determina que Moro envie ao STF as investigações envolvendo Lula na operação Lava-Jato”. Sem pensar, bati no balcão, dei um gritão e simulei uma dancinha da vitória . Alguns segundos depois, olhei pro lado e vi que tinha um homem bem vestido e tal,  me olhando (e os garçons riram também). Já pensei : “ixe, vou apanhar”. Aí o cara fala: “se esse país for sério mesmo esse juizeto vai é preso né? Onde já se viu grampear a presidenta da República? E globo a contragosto tendo que noticiar isso? Não tem preço. E olha, dia 31 você vai né? Vai ser maior, vai ser lindo”. Não conversamos nada além disso. Não durou 15 segundos. Nos despedimos com um olhar de “tamo junto” e um breve aceno de mãos.

Sem título

Foto: Diego Patriota 

Depois, fomos para um food-truck e chegou à nossa mesa uma figuraça chamada Ricardo. De shortinho e blusa rosa colada no corpo. Contou, muito bem-humorado sua história. De como passou a viver nas ruas depois que sua família o rejeitou pela sua homossexualidade. Perguntou ao Diego (ou o moço do sorriso bonito, segundo ele) qual de nós duas (eu e minha outra amiga) era namorada dele e eu respondi que as duas. Rimos. Ele falou que é cozinheiro, mas não arruma trabalho porque perdeu os documentos. Orientei ele em como proceder nesses casos e pra procurar o órgão especializado em pessoas em situação de rua. Ele disse que só queria dinheiro pra comer e não pra se drogar, que se fosse pra se drogar ele falaria também. Falamos que não tínhamos dinheiro, mas dava pra pagar um hamburguer no cartão. Ele ficou feliz pela atenção, pelo não-coitadismo e pela comida. Falei pra ele que ele tem o nome do boy magya. Ele falou “outro? Ai que gulosa!”. Rimos. Cada um seguiu seu caminho sabe-se lá porque um pouco mais leve, apesar da barriga cheia.

Encontramos outra pessoa e passou um tempo, voltamos ao FoodTruck para comer (de novo, mas agora tinha o boy que não havia comido nada). Eram  23:00 h já haviam encerrado a cozinha. Não saía hambúrguer mais. “Nem batata?”, perguntamos como quem não quer nada. O dono do estabelecimento não respondeu, virou e DEU dois baldinhos de batata pra gente, com molho. Assim, de graça. “Só pra vocês não perderem a viagem”. Gente, não eram quaisquer batatas. Eram “batatas rústicas temperadas com páprica defumada e alecrim”. ❤ Ficamos paralisados e feito crianças com brinquedo novo, comemos e disputamos cada uma delas sentados no meio fio da rua. Foi o lanche mais gentil que comemos na vida.

Por fim, na minha última pizza, lá pra meia noite,1 h da manhã, fui passar o cartão e não passou. (Vergonha que quem é cliente BRB já conhece). Tentei umas 4 vezes. Virei e falei de brincadeira “ah não moço, vou ter que ser bancada hoje, odeio”. E ri. Sentei pra conversar, comi, bebi e o dono do bar falou pra mim  em leitura labial: “tem nada não, você paga depois”. E deu uma piscada. Ofereci pra deixar minha carteira de identidade e ele falou “precisa não, eu confio”. No fim o cartão o passou, mas a sensação de ser tratada com educação sem assedio ficou. É raro. E meu short era curto.

Conclusão: existe amor em Bsb, o mundo ainda é um lugar bacana pra viver , tem mais gente boa do que ruim no planeta, o amor vence o ódio, amigos que laricam juntos permanecem juntos, o Banco Regional de Brasília tem meus piores sentimentos, o @geleiafoodtruck eu indico na vida, Ricardos são gostosos e tudo acabar em pizza não é uma coisa necessariamente ruim (e eu preciso parar de comer carboidrato).

Aprendi com minha mãe

Aprendi com minha mãe sobre linguagens de amor. Uma vez dei uma gravatinha de papel (que fiz na escola) para o meu pai e ele desprezou. Na hora aquilo me doeu, mas depois que eu descobri uma gaveta da minha mãe, cheia de desenhos e declarações minhas, junto com meu primeiro vestidinho, sapatinho, pulseirinha da maternidade e outras coisas, me dei conta que simplesmente as pessoas amam (e demonstram) de forma diferente. Então tava explicado: minha mãe era das minhas. Colecionava memórias e guardava amor em pequenos gestos. Ela se importava com declarações escritas, com lembrancinhas sem valor financeiro, com pequenas doses de gentileza. Meu pai? É de outra praia e isso não quer dizer que ame menos, só que ama diferente.

Minha mãe guarda até hoje um desenho que fiz: ela cuidando de bebês. (Nessa época ela era estagiária de enfermagem na Obstetricia). Isso deve ter uns 25 anos.

Minha mãe fica feliz ganhando um bombom recheado ou um ingresso vip pro show do Roberto Carlos. É uma delicia comprar presente pra ela: fica feliz, experimenta a roupa, rasga o embrulho, usa a coisa na hora, agradece com os olhos brilhando. Ela sabe que merece.

Minha mãe nasceu pra ser amada, ela sabe aceitar. Humildade é isso: saber receber e saber dar. Não é humilde quem não sabe receber. Minha mãe é uma recebedora nata.

Mas minha mãe é também uma doadora universal, tipo meu tipo sanguíneo. Minha mãe doa tudo. Minha mãe dá presentes. Pra todo mundo. Minha mãe dá presentes para as diaristas lá de casa, pros colegas de trabalho, pra todos os aniversariantes da família, pra mim então…fui a mais agraciada! Se tem uma coisa que lembro da minha infância é de esperar ansiosamente ela chegar do trabalho, só pra correr e perguntar “o que a senhora trouxe de bom pra mim hoje?” e SEMPRE tinha alguma coisa. Podia ser um chocolate branco (que eu e ela amamos), um pirulito, uma revistinha, um arranjo de cabelo… qualquer coisa. Minha mãe me ensinou que a felicidade está nas coisas simples da vida, a ter prazer em receber, a ver gentileza e cuidado nas mínimas coisas. Minha mãe me incentivou a gostar de amor em doses homeopáticas.

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Teve um tempo que eu não a via chegar em casa. Minha mãe trabalhava o dia todo e fazia faculdade à noite. Vinha de ônibus, quase de madrugada, com meu pai, que também estudava. Eu ficava com minhas irmãs. Na maioria das vezes, dormia orando pra eles chegarem bem. Eu tinha medo de assalto, de acidente, eu tinha medo de perde-los. Minha mãe me ensinou o que é alivio quando eu sentia ela me cobrindo com o cobertor quando chegava. Ela não devia saber na época, mas eu sentia. Sentia paz, sentia cuidado, sentia acolhimento. Dormia tranquilamente.

Hoje, imagino que talvez ela tenha sentido culpa, medo, insegurança. Imagina uma filha pequena (eu devia ter uns 5 anos) sendo cuidada por outras duas ainda pré-adolescentes enquanto você sai pra colocar a comida na mesa. Não tínhamos empregada. Minha mãe ensinou minhas irmãs sobre responsabilidade e união. Eu sobrevivi e mãe, sobrevivi cheia de orgulho dessa história. Minha mãe me ensinou que ser só mãe não basta e que é sempre tempo de correr atrás do que se quer.

Lembro da formatura do meu pai até hoje. Inventei de passar minha própria roupa e ganhei uma queimadura na barriga. A cicatriz ta ai até hoje me lembrando da minha falta de habilidade com coisas domésticas. Risos.

Por falar em habilidades domésticas: minha mãe me ensinou o que é prioridade na vida. Ela, nessa rotina exaustiva, nunca teve obsessão por uma casa impecável e nunca, nunquinha perdeu uma noite de sono por causa de uma pia cheia de louça. Entre descansar ou fazer uma faxina, minha mãe descansava. Ela dormia até mais tarde aos finais de semana, às vezes cochilava a tarde. Minha mãe nunca passou a imagem de Amélia, mulher subserviente ao lar, nunca vestiu  a carapuça de “Super Mulher” e isso fez muita diferença na mulher que sou hoje. Sou uma mulher que não se deixou oprimir por estereótipos do que é uma boa mulher. Obrigada, mãe.

Minha mãe é uma mulher que sabe viver a vida. Talvez seja por isso que nunca a vi reclamando. É sério: ela NUNCA reclama de nada. Minha mãe é leve, minha mãe é feliz, minha mãe é sem estresse, minha mãe me deu esse legado. Eu também prefiro dormir até mais tarde, também sou fã de praticidade e tenho como uma verdade da vida que se reclamar não muda nada, pra que então? Amo meu trabalho, minha rotina, eu agradeço até pelos problemas. Ela foi meu espelho.

Dona Sandra também nunca foi uma exímia cozinheira. Até se vira, mas admite pra quem quer ouvir que não gosta de cozinhar. Entretanto, pra equilibrar, se aperfeiçoou no quesito sobremesas e olha, ela faz o melhor pavê de sonho de valsa e bolo de chocolate do mundo, sem exageros. E ela me fez e ainda faz muito feliz quando deixa a gente lamber a forma da massa do bolo. Pequenos prazeres.

Minha mãe é uma mulher vaidosa. Comecei a gostar de batom por causa dela. Lembro dela se arrumando pro trabalho algumas vezes. Lembro do cheiro que deixava (e ainda deixa) pela casa quando saía, porque sempre amou perfumes. O cheiro da minha mãe é doce e forte, como ela. Fica nas roupas, fica na casa, fica na gente. Fica na memória. Se eu pudesse fazer um pedido pra Deus hoje, pediria pra encapsular esse cheiro. Pra ele nunca sair da minha memória (afetiva), mas também pra distribuir pra todo mundo. O mundo seria melhor.

Em relação ao trabalho, minha mãe se aposentou no mesmo setor que entrou, com 17 anos. Morro de tédio só de imaginar. Nisso somos opostas, mas ela me ensinou o que é ser uma profissional excelente. Minha mãe não teve uma falta, uma reclamação, não deu um atestado. Todos amavam minha mãe: de médicos chefes a pacientes em estado terminal. Ela tem um senso de responsabilidade gigante, o maior que já vi e que adquiri observando. Minha mãe recebia presentes e mais presentes, apenas por fazer o que um servidor público de verdade deveria fazer: servir bem o público. Ela tratava todos com igualdade, respeito e gentileza. Valeu mãe, é da senhora que eu lembro todo dia quando atendo meus usuários.

Hoje ela é aposentada e mesmo tendo se dedicado tanto ao trabalho, não sente falta dele. Nunca esteve tão disposta, feliz, jovem e bonita. Minha mãe é rainha de si mesma. Ela usa redes sociais, assiste programas de tv, malha todos os dias, corre na esteira, participa de grupos de oração, de mães, manda piadas no whatsapp, viaja sozinha com meu pai, aprende tutoriais de tudo no youtube, sabe de tendências de moda, jaja vira blogueira. Um dia é pouco pra ela. Ela me ensina sobre aproveitar o tempo.

Minha mãe me ensina sobre tudo o tempo todo, sem dar lição nenhuma.

Aprendi com ela que afagos de mãe são definitivos. Pra sempre me lembrarei do cobertor à noite, do chocolate quando vinha do trabalho, do leite com nescau já frio que eu encontrava ao meu lado ao acordar (ela deixava quentinho ao lado da minha cama, mas como saía muito cedo, esfriava), do lugar que eu achava entre as pernas dela no sofá, na hora de assistir Tv ( e eu caibo nele até hoje porque aprendi que colo de mãe é adaptável, ele sempre vai ser do tamanho que a gente está), do pijama que guarda pra mim até hoje, pra quando eu vou dormir lá.

Aprendi com minha mãe que dá pra amar pequeninho, que alguns desenhos de caneta bic não desbotam, que cheiro não se esquece, que gentileza é o amor em movimento, que quando a gente tá com a mãe da gente não sente medo de nada (a não ser dela mesmo), que a vida é bonita, leve, parafraseando o poeta, que “pode ser maravilhosa”.

(Observação: O título do post e a idéia desse texto veio desse livro aqui , que li em Julho desse ano)

Agosto


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Acordo 7 h com meu despertador tocando Nação Zumbi. (Saiba como aprender a odiar uma música: coloque-a como seu despertador). Meu plano era chegar mais cedo no trabalho para poder tirar mais horas no almoço. Opa, essa essa casa não é a minha.
Alguns segundos de “onde estou, dormi com quem?”.
Estou só de calcinha e camiseta (de ontem). Bebi um pouco. Será que fiz besteira?
Luana acorda lendo Chapolin Sincero pra mim. “É impressão minha ou agosto tem 365 dias?” Ufa. Sorrio.
Lembro da noite anterior. Dignidade ainda comigo (apesar das fotos bregas e felizes achadas no celular e de lembrar que tirei o sutiã no meio do show. Ok. Antes o sutiã que a blusa).
Acordo de bom humor.
Me arrumo rapidamente.

Por que eu bebi ontem e que cabelo é esse? Vai assim mesmo.

Sinto cheiro de chá e de ovos. Luana fez omelete. E torradas. E me deu opção: “chá ou toddynho?” Toddynho claro. Que amor.

Quanto tempo não tomava café decentemente ou acompanhada. (Apesar que uma vez ganhei mexericas descascadas. Se isso não é amor, o que mais pode ser?).

Penso que todas as últimas vezes que dormi com alguém fui embora na madrugada ou fugida de manhã cedinho.

Lembrei das conversas com uma amiga que disse que eu não me abro e que sou blasé. Não aprofundo esse pensamento. Tá muito cedo pra crise existencial.

Lembro de um cara que postou um textão filosófico conceitual no facebook sobre o “seu lugar na objetificação sexual masculina” depois que eu fui embora da casa dele com ele dormindo. E não deixei mensagem. Só não fiquei ofendida porque não entendi muito bem o texto. Aliás, fiquei de mandar pra Luana ler. E me explicar. Lembro que encontrei ele no show de ontem. E ele não falou comigo.

Me questiono se sou escrota. (algo dentro de mim me censura e diz que o escroto foi ele, mas calo essa voz rapidamente) e porque ainda não exclui ele dessa rede social.

Ah, foda-se a meia hora pra chegar mais cedo no trabalho. Tomo café com a Luana. Mereço.

Caramba, 8:40 h, vou chegar atrasada. Desço correndo. Beijo na Luana. Aviso que peguei um sapato emprestado. No caminho pro trabalho agradeço mentalmente por ter amigas incríveis.
Coloco uma música e danço. Só eu danço dirigindo?

Trânsito semi congestionado. Droga, vou chegar atrasada mesmo. Por que eu tô sempre atrasada?
Uma rápida olhadinha no whatsapp. Putz, tenho tanta gente pra responder. Mensagens de sexta passada.

Chego no trabalho com 10 minutos de atraso e vou direto pra labuta, sem os 15 minutos de enrolação que levaria para tomar um café preto feito pela menina da limpeza e engolir uns biscoitos água e sal.
Trabalho.
Ligações.
Email de encheção de saco do pai do meu filho. Respondo civilizadamente ou mando se fuder? Não, vou ser de boa.
Porém nota mental: usar sempre camisinha. Por falar em coisa boa lembro que entro de férias depois de amanhã. Mas sem viajar. E sem dinheiro. Paciência.

Atendo um homossexual que foi espancado… Por ser homossexual. Sem família. Tava com o olho roxo. E sua família? Pergunto. “Não tenho. Não me aceitam como sou”.
Mundo escroto.

Penso que não posso absorver tudo isso pra minha vida pessoal. Como não?
Ofereço um café pra ele enquanto conversamos. Ele diz “ai brigada, tô numa ressaca”. Penso em dizer “eu também”. Mas não falo.
Faço os encaminhamentos.

Vou ao banheiro, me olho no espelho e desejo perder 3 kg, que provavelmente estão concentrados todos na minha bunda. Paciência.

Entro no facebook (site).Dou uma lida geral no feed. Ninguém merecendo meu like.

Começo um relatório.

Outra família pra atender. Estupro.

Putz, passou meia hora do almoço.
Vou correndo ver meu filho que tá doente. Beijo o filho. Vejo remédios do filho. Tem tarefa da escola do filho. Não deu tempo. Deixo pra noite.
Almoço interrompido a cada 30 segundos por “mããããe”. Comida esfriou. Ok. Paciência.

20 minutos restantes pra voltar ao trabalho: 10 pra cochilar. 10 para o percurso. Oba. Deito. Que delicia.
Sinto mãozinhas abrindo minhas pálpebras.Só queria cochilar. Não deu. Paciência.

Voltar para o trabalho.

No caminho vejo que o carro tá na reserva. 20 reais na carteira. Cartão ficou na outra bolsa. Penso que esse lance de trocar de bolsa é tipo sair com mais de um cara ao mesmo tempo: requer muita logística pra pouco prazer na prática. Acho que vou investir numa bolsa só mesmo.

Abasteço e vejo que não dá mais pra postergar: tenho que calibrar os pneus.
Droga, logo hoje que estou de vestido justo.

Nunca sei quanto colocar. Tenho vontade de perguntar pra um boy magia e já aproveitar pra puxar um assunto, já que “você é blasé”, critica de uma amiga, não sai da minha cabeça.
Resolvo apelar pro google mesmo, afinal, ao menos ele não faz joguinhos nem é monossilábico.
Diz que o ideal é 30 libras. Enquanto calibro ouço buzinas. Respiro. Vou ficar de boa.
Um cara grita: “Mas que rabo!”. Fico puta. Quero xingar. Quero mandar ele dar meia hora de bunda. Respiro.
Penso que talvez dar meia hora de bunda seja uma coisa boa. Sorrio.
Talvez meia hora seja muito tempo, concluo.
Penso em perguntar isso pra algum amigo gay. Lembro do homossexual espancado. Tenho vontade de chorar. Ainda estou calibrando os pneus.
10 minutos atrasada.
Penso em como o mundo é opressor.
Enquanto dirijo dou uma olhadinha no whatsapp.
Penso no porquê os homens serem tão monossilábicos. (Se Bukowski tivesse rede social ele mandaria emoticons? E nudes? divago. Quase avanço o sinal vermelho. Mais um). Penso nas minhas amigas incríveis e que reclamam de homens monossilábicos.

Eu penso demais.

Chego a conclusão que os homens estão meio aquém do bando de mulherio foda que tem por aí. Quero escrever um texto sobre isso. Eu escrevo demais.
Cheguei.
Reunião.
No meio percebo que as minhas mãos ainda estão sujas.

Atendo uma família. Caso light. Só ameaça de morte.

Olho o whatsapp. Penso que se uma pessoa não se dispõe a te responder usando no minimo três palavras é porque ela não quer falar com você. Depois eu que sou blasé?

Mensagens no snapchat. A única rede social que me atrai ultimamente. Pelo menos algo ainda tem me atraído, concluo tentando ser otimista.

Ligo pra corretores de imóveis. É mais fácil encontrar o amor verdadeiro do que um apartamento legal.

Internet do trabalho acaba. Oba, dá pra responder algumas pessoas no whatsapp. Falo de sexo, filhos, fotografia, política e dou conselhos amorosos.
Escuto alguns.

Me questiono se sou escrota. Já estamos no meio da tarde e já dá pra ter crise existencial.

Começo a escrever a pauta pra minha consulta no analista quarta. Talvez tenha que pedir horário duplo.

Lembro do homossexual espancado. Tenho vontade de chorar. Checo se estou na Tpm. Não estou.

Hora de ir embora. Chega gente pra atender. Nada grave. Agendo pra amanhã. Não me sinto culpada por isso.

Chego em casa.
Estaciono o carro. Não desço. Preciso de 15 min só pra mim. Mas resolvo responder uma mensagem no whatsapp. Audio. Putz, passei 1 hora dentro do carro. Subo.

Filho me demanda muito. Estou mal humorada e sem paciência. Me sinto culpada por isso.

Me olho no espelho pela segunda vez no dia e desejo perder 4 kg ( sim, 1 a mais porque provavelmente ganhei esse retendo líquidos durante o dia).
Dou uma googlada sobre retenção de líquidos. E penso que talvez o cara que gritou sobre o meu rabo mais cedo não estivesse me cantando. Ainda bem que fiquei de boa.

Talvez eu seja de boa.

Vejo que preciso arrumar o cabelo. Corto ou não corto?

Filho me chama. Fujo pro banheiro. Tomo um banho de 10 minutos. Agora sim só eu e eu. Doce ilusão. Ouço “mããããe” do outro lado da porta. Deos, quando eles param de nos chamar?
Lavo o cabelo. Escovo o cabelo.

Compro um vestido maravilhoso. Eu mereço.
Me sinto culpada, capitalista consumista e que desvia o foco das coisas, mas ok.

Filho faz birras pra chamar minha atenção. Converso. Respira. Não pira. Ele chora. Fico brava. Ele melhora, pede desculpas. Eu pego no colo. Abraço. Beijo.
Tô saindo do salão com meu filho. Ainda estou com a mesma roupa que trabalhei. E calibrei os pneus. Um cara passa e fala “mas você está maravilhosa hein?”. Respondo que não perguntei. Acho que não sou tão de boa. Paciência.
Fico com vergonha pelo meu filho. Talvez eu não devesse usar mais esse vestido. Ou talvez os homens devessem ser menos escrotos. “Meu filho, não seja um homem escroto” talvez seja um bom ensinamento. Só penso.

Chego em casa de novo. Meu filho pede colo. Como esse menino cresceu.

Esqueci que não como nada desde o almoço. São 21 h. Janto sopa. Excepcionalmente tô na casa dos meus pais.

Penso num audio que recebi. Penso sobre relações vazias e amor livre. Sinto falta de conexões e trocas reais. Lembro que “rejeitei” quase 5 mil caras no Happn.
Tenho medo de castigo divino. Porém lembro dos matchs e crushs: quantos passaram de um número a mais no whatsapp ou na minha listinha? As pessoas estão mais desinteressantes? Eu que tô exigente? Ou chata? Acho que a última opção. Virei uma mulher que fala “conexões” e quer perder 4 kg.

Tô precisando de um detox de gente. Penso.

Meu filho quer ficar grudado. Eu só queria ficar sozinha. Ele dorme. Lembro que não fiz a tarefa com ele. Me sinto culpada, mas prometo que amanhã vou acordar mais cedo pra fazer.

Olho o whatsapp: muitas mensagens pra responder. Não vou. Vou ser monossilábica agora. E fazer joguinho. Ou ser misteriosa. Não consigo.

Definitivamente não sou escrota.

Penso. Por que tanto? Só queria relaxar.

Abro o instagram: todo mundo é feliz. Posto esse texto que mistura tempos verbais e confusões mentais lá. Apago. Fiquei com vergonha. Lá todo mundo é feliz.
Deito. Vou dormir. Sem pensar. Tenho que responder as pessoas. Não consigo.

Penso demais.

Amanhã não posso sucumbir ao modo soneca. Tenho tarefa de filho e atendimentos. E mensagens. E planos. E culpas. E é véspera de férias. Mas sem viajar. E sem dinheiro. Paciência.

Resolvo postar esse texto no facebook porque baixei o app de novo só pra excluir o cara que disse que eu objetifiquei ele. Não tive coragem (de excluir, de postar ainda tenho. “Post like nobody’s watching”. Meu lema.  Apesar que me arrependo e apago às vezes). Anoto mais essa pauta pro analista quarta. Apago o post que já tinha 13 curtidas e 7 comentários. Na madrugada. Não sei lidar com likes. Não sigo de volta.

Me dou conta que fazia mais de 14 dias que não postava nada lá/aqui. Muitos joinhas, pouca interação. Nem o Zuckerberg escapou do meu bode.

Me questiono porque eu apaguei o app (o do face, porque os de encontro já expliquei) e lembro que é porque o celular estava sem memória. Meu iphone é o oposto de mim. Lembro de tudo.

Penso demais.

Dou uma última olhada no
whatsapp: respondi uma mensagem. de um cara. Ele é bonito e fofo e não-monossilábico, mas não vou ao encontro amanhã.
Me sinto culpada, só que não tô a fim. Paciência.
Consegui dizer não. Vou falar isso também pro meu analista na quarta. Acho que não sou escrota.

Observo meu filho dormir. Parece um anjo. Dou um beijo e digo no ouvido dele que amanhã vou tentar ser melhor.

Estou cansada. Não estou dormindo na minha cama de novo. Agosto tem quantos meses, Chapolin Sincero? Coloco celular pra despertar às 7 horas. Vai tocar Nação Zumbi. Mas ao menos na quarta estarei de férias (sem viajar e sem dinheiro, mas ok, paciência), terei consulta no analista e os pneus do meu carro já estão calibrados. Quem sabe eu ache um apê legal e consiga não pensar sobre tudo. Só ser de boa. Paciência.

Quem tem medo de mamilos pretos? – O ranking do machismo na USP

Estava indo dormir ontem quando resolvi dar aquela última olhada na internet. Me deparo com a notícia “Ranking expõe intimidade sexual de alunas da USP e causa revolta”. Fui ler e o caso se trata de uma “brincadeirinha” que os estudantes (homens) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), no campus da USP em Piracicaba(SP) fizeram: criaram um ranking da vida sexual das meninas, afixado na área de vivência (onde há maior circulação de pessoas) para que, de maneira c o l a b o r a t i v a os machinhos fossem marcando com quais delas eles já haviam transado. Não pára por aí. O ranking foi dividido em três categorias, que são elas: buceta fedida, teta preta (porque não bastar dizer que as mulheres transam – como os homens – é preciso dizer que nosso corpo é defeituoso, feio, fora do padrão. É aquilo: não somos apenas machistas: somos também racistas, homofóbicos…) e sociedade do anel

Não sei como, mas ainda me surpreendo com o machismo. Fui dormir extremamente triste e pensativa. Me coloquei no lugar de cada menina que foi exposta, difamada e ridicularizada. E nem precisei fazer um grande esforço de sororidade porque eu mesma já fui vítima de ameaças nesse sentido. Certa vez tive meu aparelho celular furtado, meus e-mails e redes invadida e o único objetivo do agressor era o de me ameaçar e chantagear através da MINHA vida intima e sexual.

Vivemos numa época em que transar ou ser livre depõe contra sua conduta, seu caráter, sobre o que você é. Comigo não funcionou, mas quantas mulheres são vitimas diariamente do revenge porn? Quantas já se suicidaram por terem sua intimidade, seu corpo, seu sexo exposto na internet? Quantas ainda serão punidas por exercer seu direito ao prazer, ao seu corpo?

Para além das consequências que esse crime na USP possa causar nas meninas é hora de parar para pensar o que significa esse ato machista. Por que esses estudantes “agroboys” quiseram ridicularizar as minas? Não gostaram do sexo? Como é: homens gostam de mulheres que transam, mas não gostam de mulheres que GOSTAM de transar? (Porque eles anotaram a quantidade de vezes em que “repetiram a dose” com a mesma garota).

Claro que gostam. Parece que o grande problema é a ousadia das mulheres quererem igualdade. Parece que é extremamente ofensivo para eles mulheres que gostam de transar sem compromisso porque assim, derrubam o mito de que elas, ou nós, sempre estamos à espera de uma relação e usamos o sexo para esse fim.

           Certa vez, estava eu numa roda de conhecidos (homens) e eles falavam, de maneira bem machista que todos ali haviam “pegado” uma menina aí. Um soltou “ela rodou na nossa mão”. Apenas respondi: “Queridos, se ela pegou todos vocês, foram VOCÊS que rodaram na mão dela e não o contrário”.

            Moças, transar não é errado. Muito menos gostar de transar. (Talvez a coisa errada nessa história toda seja a escolha dos caras com quem  você transa. Um que te coloca num ranking não é uma boa escolha, definitivamente).

           A outra coisa é a tentativa de ridicularizar nossos corpos e características.

Buceta fedida é nada mais, nada menos que a velha lógica higienista do machismo, que quer tirar de nossas vaginas os pelos e o cheiro. É a cultura do “sabonetezinho liquido” que nos empurram goela abaixo, naturalizando que mulheres não podem ter odores e fluidos, que temos que cheirar a floral. Olha só: pinto tem cheiro, buceta idem. Aceitem. Se você não gosta do cheiro natural de uma (não me refiro à falta de higiene), fique livre pra procurar algo que te agrade: talvez outro pênis ou uma boneca inflável.

 Teta preta é, além de racismo, um resquício da cultura do pornô. Vocês meninos que cresceram assistindo esses filmes (que vou contar pra vocês, ensinam tudo errado viu?) que só tem mulher branca/euroupéia de mamilo (e c* rosa), acham que esse é o padrão, isso que é agradável aos olhos e excitante. Queridos, saiam da caixa.

[Lembrei de quando a Cléo Pires posou nua na Playboy e o grande comentário foi que seus mamilos eram escuros. Cléo,a típica brasileira,meio índia, linda…queriam que seus mamilos fossem rosados. Esse padrão de beleza hibrido (porque é impossível uma mulher só reunir todas as características “ideais”) é  também, mais uma maneira de inferiorizar a mulher, como se o fato de ter mamilos escuros fosse algo ruim. Ei vocês, deixem nossos mamilos em paz].

A sociedade do anel é também um grande paradoxo. Homens, em geral, tem um grande fetiche com a relação anal. O bumbum é a preferência nacional do brasileiro (dizem) e parece que convencer uma mulher a fazer sexo anal é a meta de 8 entre cada 10 homens (de acordo com meu próprio instituto de pesquisa empírico, risos), mas se uma mulher gosta, pede, faz, aí merece ser constrangida em público.

            Constrangida?

A grande arma contra o machismo e esse tipo de prática é naturalizar o que para eles é assustador: a gente gosta de sexo, a gente quer transar, a gente quer liberdade, a gente ama nosso corpo e ele não existe para agradar você homem. Nossa sexualidade não gira em torno de você. O mundo das mulheres não gira em torno de vossos paus. E é por isso que o ranking existe.

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Fazendo um exercício de inversão: mulheres fariam um quadro em que julgariam os homens em categorias? Sei lá: pau pequeno, goza rápido e curte fio terra? Não. Porque NÃO existe opressão sobre a vida sexual masculina, nem ditadura para a estética do pênis, tampouco pelo cheiro que exala, muito menos que o que quer que ele faça entre quatro paredes interfira na sua imagem perante a sociedade. E mulheres não tem medo (ou inveja, né Freud?) da sexualidade dos homens.

E a resposta das minas da USP não poderia ser melhor. Se eles se assustam com liberdade, pois então que nem saiam de casa. Vai ter mulher livre, gozando e amando seu corpo.

Ter uma vida sexual livre nunca foi e nunca será motivo de vergonha.

 O ranking do machismo só escancarou o medo que o patriarcado e a sociedade em geral tem das mulheres livres. Enquanto eles escrevem em muralzinho, a gente, igual aquela página do Facebook PREFERE TRANSAR.

Não passarão.

E moças: libertem seus mamilos. Eles são lindos.

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 Cartaz-resposta das minas

Quando eu me chamar saudade (texto pré-póstumo)

(Prólogo: Leia o texto ouvindo essa música)

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Atire a primeira pedra quem nunca pensou no seu próprio velório. Será que vai ter muita gente? Será que vão chorar? Quem vai chorar mais? Quem vai ficar com remorso? Terei homenagens?

Sempre tive uma relação intensa com o fim, com a eternidade, com a morte. Um misto de excitação com medo. Me atrai mas me assusta. Gosto de cemitérios, gosto de biografias (principalmente de quem já morreu), gosto de rituais, gosto de pensar na possibilidade de deixar algo nessa vida para além dessa matéria, desse corpo. Gosto até de enterros, de observar como as pessoas se despedem dos seus entes queridos porque acho que diz muito sobre como vemos nossa própria existência e relações.

Nunca tive medo de morrer, nunca. Talvez porque não tenha passado ao longo desses 28 anos (completando hoje) algum susto ou momento que me colocasse perto disso. Talvez. E também não tem relação com o fato de que cresci numa família cristã (evangélica) em que a “salvação” e o “céu” sempre foram os bônus e as garantias de uma vida “andando na linha”. Pra falar a verdade, quando frequentava igreja, sentia um certo pânico quando ouvia isso de “eternidade”. Legal que ia ser com Deus (morro de vontade de conhecer O cara, acho Ele maneiríssimo, apesar que ia rolar uma discussão de relação), num lugar lindo e cheio de paz, mas isso de “pra sempre” me angustia. Um medo do tédio. Perdão se é heresia.

Mas meu “não- medo” da (minha própria morte) tem muito mais a ver com o medo da morte dos outros e na urgência em que vivo a vida.

Desde criança meu grande medo era da minha mãe e do meu pai morrer. Das minhas irmãs. Depois amigos. Namorados. Agora meu filho. E todo mundo. Esse medo me dominava. Se meu pai demorasse um pouco mais do trabalho, eu já pensava o pior. Não lido bem com perdas e eu nem sei bem porque, pois não perdi quase nada na vida (só a dignidade).

Esse medo acabou gerando uma urgência em viver. (Lulu Santos me entende). Eu tenho que demonstrar tudo, eu tenho que perdoar, eu tenho que relevar, amanhã pode não dar tempo, sempre pode ser a última vez. Quebrei muito a cara nessa coisa toda, me machuquei e me violentei muito sendo assim, pois acabava me colocando em segundo plano, porque afinal, a vida é curta e podia ser a ultima vez.

Talvez agora, quase balzaquiana, fazendo terapia e num processo profundo de autoconhecimento esteja cortejando o equilíbrio. Meu pai, sempre me vendo querendo resolver as coisas na hora , sofrendo e amando exageradamente por medo de um amanhã que talvez não viria, me repetia “Marília, amanhã é outro dia, o mundo não vai acabar”. E essa expressão, junto com o “ relaxa” (bem pausado) da minha professora de Yoga é o que mentalizo quando essa urgência me consome.

Às vezes funciona.

Meu mesmo pai falou essa expressão “o mundo não vai acabar” quando minhas irmãs choraram e imploraram para ir ao Show dos Mamonas Assassinas em Brasília. Elas, no auge da adolescência (época em que a gente acha que tudo é urgente!) choravam, afinal era a melhor banda de todos os tempos.

“Eles não vão morrer. Depois vocês vão em outro show”. Eu tinha 9 anos e acordei no dia seguinte, 2 de março de 1996 (um dia que nunca esqueço e que agora é o dia de aniversário do meu filho) com o noticiário da TV e o país em choque. O avião que levava os integrantes dos Mamonas bateu na serra e eles morreram. O show em Brasília foi a despedida. O último. E minhas irmãs nunca terão essa oportunidade novamente.

Ei pai, nem sempre terá amanhã.

Nos dias que antecedem meu aniversário, sempre faço um balanço do meu ano, da minha trajetória, do que espero para o próximo período. As pessoas próximas de mim sabem o quanto eu dramatizei esse último mês. Afinal, grandes gênios da música e da arte não sobreviveram aos 27. Falei que fiquei preocupada, afinal porque seria eu a exceção? Risos.

E testes não faltaram: suspeita de dengue, umas febres, umas dores, uns enjoos, umas coisas estranhas, pneu desparafusado em via de alta velocidade, um susto, um carro batido, um quase incêndio em casa sozinha. Comecei a acreditar que não ia sobreviver mesmo.

E caso não sobrevivesse (ia achar muito glamuroso morrer com 27) teria mó orgulho da vida que construí, sério mesmo. Mas por favor, não manchem minha imagem no meu ritual de despedida.

Nesses últimos meses muita gente conhecida morreu e participei de dois velórios contrastantes.

Um dele foi o de um amigo, que um dia foi evangélico, mas que nos últimos anos não acreditava mais em religião (nos ensinamentos de Jesus sim)e até era revoltado com a manipulação da fé alheia.  Seu velório teve TRÊS pastores diferentes, um mais cheio de ego que o outro, que disputavam quem falava a palavra mais bonita e colocavam meu amigo como “alguém que Deus ia ter misericórdia” e que pra “você que tá ouvindo isso, ainda há tempo”. Foi horrível. Não condizia com a vida dele, que era uma pessoa generosa, amiga, que transmitia bondade e paz, mesmo não sendo religioso.

A outra pessoa é a mãe de uma amiga, uma mulher livre, militante, dona de si, amante da vida, das pessoas, dos animas e das plantas (palavras da filha) e que teve um ritual de passagem muito condizente com isso. Nunca vi tanta gente bonita, serena, em paz. Nunca vi tanto cuidado, amor, empatia. Nunca vi musicas, poemas, desenhos e artes num velório. Saí de lá melhor do que entrei. Saí decidida a ter um fim de vida que valesse a pena ser comemorado e não chorado.

Então, favoritem esse post e todos vocês, que já receberam minhas cartas, meus presentes, minhas DR’s, meus áudios de 10 minutos no whatsapp, que já ouviu um “Eu te amo” meu (e eu amo muitas pessoas e digo isso sem vergonhamente) cuidem da minha imagem póstuma, se eu me for antes de vocês.

Regras:

  • Nada de pastores ou padres. Não frequento uma igreja há uns 12 anos. Não quero nada de religião lá;
  • Mas alguém precisa conduzir os trabalhos, ler uns poemas de Carlos Drumond de Andrade, Fernando Pessoa, Manoel de Barros e Leminski (meus preferidos) e cantar umas músicas no violão (que eu sempre quis aprender a tocar e acho que nunca vai rolar, então vai ser meio poético alguém tocando), então quando souberem da fatídica noticia, reúnam-se todos e decidam quem vai ser o apresentador do evento. Como boa geminiana, tenho muitos e diferentes amigos, mas nada de disputa, nem ranking de quem eu amava mais. Sugiro que seja a pessoa que eu tava mais próxima antes de morrer, porque sou meio sazonal com as amizades;
  • Decidido o apresentador e a logística: confio em vocês para falar coisas bonitas e engraçadas. No meu velório vai poder rir, fazer piada, falar mal de mim. Podem citar histórias que me envolvam (mas nada de mostrar meus nudes), pode dizer o quanto mudei sua vida, enfim, se organizem pra dizer ao mundo o quanto fui uma pessoa genial, amiga, feliz. Sempre gostei de paparicações, coerente desejar isso até o fim;
  • Podem chorar. “Ai, ela não queria me ver triste”. Nada disso. Quero sim. Quero todo mundo sofrendo minha ausência no mundo. (Só não quero ninguém chorando de remorsinho, do tipo “devia ter dito isso pra ela”, “devia ter feito isso”, “devia ter aceitado o convite dela”. Ó se tu é desses, nem merece estar no meu velório. Era uma pessoa super disponível [(tá bizarro escrever isso como se eu já tivesse morrido mesmo)], que dizia mais sim do que não e se não fez em vida, nem se dê ao trabalho do mimimi. Aliás, se tu é desses ou dessas que economiza palavras e afeto, morra também);
  • Iria adorar que todos meus ex, atuais, affais e quase futuros estivessem presentes (menos um , esse proibi de aparecer e ele sabe ). De repente podia rolar uma foto (não, não ia caber). Todo mundo me daria parabéns pelo meu grau de diversidade e bom gosto. Risos;
  • Gente de fora de Brasília: obrigatório. Foda-se. Paguem a passagem em 10 x. Eu mereço essa homenagem;
  • Se forem cantar músicas: cantem as que eu gostava. Raça Negra, SPC, Arnaldo Antunes, Los Hermanos (desculpa desapontar),Leoni, Fabio Jr, Roupa Nova, Nenhum de Nós, Legião Urbana, Caetano, Tim Maia. Nada de musica internacional (tá bom, Jason Mraz e Amy Winehouse pode ), nem sambinhas cults. Podem eleger três músicas in memoriam (Você é má , do Zeca ), Ela é Tarja Preta do Arnaldo ou Cheia de Manias. Elas me representam;
  • Tá liberado ler o” poeminha do contra” que tenho tatuado nos ombros “Eu passarinho”. Esse clichê é obrigatório até;
  • Podem falar que eu era uma pessoa incrível, amiga, generosa, que ajuda todo mundo, que não era apegada com grana, que amava todas as pessoas e amo (mesmo as pessoas que ficavam um dia só na minha vida), que nunca fui de cobrar, que detestava incomodar, que sempre trabalhei, paguei minha faculdade, minhas contas (mas sempre fui meio péssima em finanças), que nunca reclamava da vida e que achava graça de tudo, que detestava jogos (todos, mas principalmente os amorosos),que mandava sms no dia seguinte, que dramatizava coisas mínimas, mas tornava leve problemas intensos e tal. Mas podem dizer também que eu era desorganizada, esquecida, relapsa, briguenta (adorava, mas muito mais pra colocar minha opinião do que pelo atrito), que nunca fui pontual, que vivia sendo multada e que dei muito dinheiro ao Detran, que era paranóica, que tinha mania de ter DR’s infinitas (nessa hora um ex meu, que nem chegou a ser namorado vai falar que mandei 6 paginas do word pra ele, quando ele sumiu por dois dias), que nunca aprendeu a cozinhar, que nunca soube fazer baliza, que era preguiçosa demais, um tanto estranha e antissocial etc, etc. Façam homenagens reais (só com uma licencinha poética básica);
  • Podem tirar selfie com meu corpinho morto, desde que a morte não tenha causados muitos efeitos. Se eu tiver verde, ferida, inchada, etc, postem fotos de quando era linda, por favor;
  • Não quero ser enterrada. Tenho claustrofobia e não quero ninguém tendo a obrigação de ir limpar meu tumulo, me visitar, etc. Além do quê, nunca tive (vontade de) casa própria em vida por ideologia mesmo e ter quando morta seria de uma incoerência sem tamanho. Podem me cremar e joguem minhas cinzas, hum… ali, entre a Torre de Tv e o Memorial JK, no eixo Monumental, na hora do pôr-do-sol. Aquele trecho é o mais bonito de Brasília pra mim e passei por lá quase todos os dias para ir trabalhar e todos esses mesmos dias me senti abençoada de viver sob esse céu e esse planalto central;
  • Não quero flores. Nenhuma. Nunca gostei. Não gastem com isso. Levem doces, sei lá;
  • Encerrado o ritual, amigos que estejam lendo isso, deem um jeito de descobrir minha senha das redes sociais (principalmente a do Facebook). Vai ter que ter ajuda profissional, porque minhas senhas são tipo “oiporfavormeveumaaguacomgas158emParis”. Desativem a necessidade de eu autorizar a marcação de fotos. Pode deixar a galera me marcar em fotos antigas e textos emocionados (apaguem as inbox comprometedoras, que envolvam fotos e coisas alheias);
  • Depois podia rolar uma festa no meu apartamento (supondo que eu teria um e não que eu estivesse vivendo na casa dos outros igual tô agora). Ia ser massa ter todos os amigos juntos em minha memória, alguns que nem se conheciam e tudo. Podiam dividir minhas roupas entre as amigas, levar meus diários pra rir, levar fotos. Iam ter que descer pra comprar bebidas e comidas, porque na minha geladeira nunca tem nada, mas ia ser lindo. É isso! Que tudo termine numa festa. Porém tenho uma exigência: COM VIDEOKÊ. Sim. Respeitem isso;
  • No fim desse dia durmam em paz com a certeza que fui feliz o tanto que pude. Que vivi amores intensos, necessários, de aeroportos, de rodoviárias, de Tinders e de vida real. Que passei por todas as experiências que a vida me ofereceu e mesmo nas mais dolorosas, consegui tirar uma lição delas e sair mais fortalecida. Isso é resiliência e isso eu tinha. Que nunca dei lição de moral, que nunca fui exemplo, que nunca quis ser perfeita, mas que vivi sem medo, que vivi de peito aberto, que respeitei minhas relações, que gastei muito dinheiro em bobagens, que não deixei 1 centavo pra ninguém, mas nunca fiquei sem dormir por problema nenhum. A maioria das pessoas que irá em meu velório terá, com certeza em algum lugar, mesmo que seja na memória, uma declaração de afeto minha. Porque se qualquer uma das pessoas que eu gosto, gostei, amo, tinha na vida (e isso se aplica a literalmente todas as pessoas, mesmo as pessoas que só vi uma vez na vida) morresse hoje, eu me despediria feliz.

Que reciprocidade, empatia e afeto eram minhas palavras preferidas. E gratidão (mas essa tá na modinha, então deixa). E que no fim, vale a pena não confiar tanto assim que vai ter amanhã. Sei lá vocês. Esse parágrafo saiu meio Renato Russo né?

(Epílogo: Se forem dizer alguma coisa de mim, definitivamente, digam que eu NUNCA dormi brigada com ninguém. E que eu tinha uma bunda incrível)

Liberte seu amor

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Nessa semana, a prefeitura de Paris decidiu retirar os milhares de “cadeados do amor” que lotavam as grades de proteção da Pont des Arts, na cidade. São cerca de 45 toneladas de cadeados, quase um milhão deles, que foram deixados como símbolo de amor eterno.

A justificativa do governo local é a danificação de locais históricos causada pelo peso dos cadeados, que fez até parte da ponte desabar no ano passado, mas eu tô aqui é aplaudindo o valor simbólico do ato. O cadeado é talvez o anti-simbolo do amor.

Deixar um cadeado preso numa ponte, como símbolo de amor eterno, consegue no máximo simbolizar um amor prisioneiro.

Essa tradição (bizarra), iniciada numa obra de ficção, mas que rapidamente ganhou o mundo, apenas exemplifica como encaramos o amor e as relações. Desnuda a maneira idealista e a possessiva que encaramos o amor! Um amor que em vez de libertar, tranca, aprisiona, acorrenta, ancorado na ilusão de que vai durar para sempre. Me perdoem os (muito) românticos, tudo bem acreditar (apesar que, como já dizia o poeta, “o pra sempre, sempre acaba”), mas o gesto de trancar não é bonito, não remete a amor eterno e sim a uma sentença.

Pontes talvez sejam um dos símbolos mais eficazes para encurtar distâncias, unir lados e aproximar duas realidades distintas, não coloquem sobre elas o peso do seu amor (ou da sua expectativa). Ano passado, na mesma Paris surgiu a campanha “No Love Locks” (Não ao Cadeado do Amor), com o slogan genial  “Free Your Love, Save our Bridges (Liberte seu Amor, Salve Nossas Pontes). A campanha, assim como a decisão do governo local agora é baseado na conservação do patrimônio, mas a minha é: “amor é ponte, não cadeado”.

Laço de amor, quando vira fardo e tranca, não é mais laço, é nó.

“”Paris deverá continuar sendo a capital do amor… Que os casais continuem a se declarar, a se pedir em casamento, pode ser sobre a Pont des Arts, mas sem pendurar um cadeado”, disse o secretário de Cultura de lá. Sim, o amor nunca precisou de cadeados, nem de alianças, nem de rituais. Nós é que precisamos de certezas e garantias para amar, o que está totalmente equivocado.

Aqui uma reportagem de utilidade pública (sóquenão) dizendo onde você pode deixar seu cadeado do amor ainda. Cadeados não.

 Se é que o amor precisa de algo, é de liberdade.

Cante com o Gil “O seu amor ame-o e deixe-o livre para amar. Livre para amar .Livre para amar .O seu amor .Ame-o e deixe-o ir aonde quiser . Ir aonde quiser. Ir aonde quiser.”

Free Your Love.