Liberdade feminina é utopia

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Dia desses uma amiga me apresentou a um grupo de pessoas assim “essa é a Marília, a mulher mais livre que eu conheço”. E não parou: “ela é tão livre, que liberta outras mulheres só sendo ela mesma”. Fiquei lisonjeada, confesso, mas mais assustada talvez e isso nunca mais saiu da minha cabeça.

Fiquei pensando o que é liberdade.

Uma vez postei essa foto no Instagram e ela foi removida por ferir os termos (mostra uns pixels de milimetros do mamilo – direito). Nem foi a primeira vez, a Daniela Magalhães vive passando por isso (inclusive já foi removida foto minha também). O irônico é que lá no meu mesmo feed tem uma foto de um homem completamente nu sentado numa cadeira, todo sujo de caqui (era uma intervenção artística num museu no RJ…ah, o RJ, risos) e essa nunca foi denunciada ou removida. Tá lá.

Ontem, lendo um livro que peguei do lixo do vizinho (me julguem, mas julguem mais quem joga livro fora) tinha um diálogo logo no segundo capitulo que me fez refletir mais. Era assim:

-Marco Polo, o mundo que você vive é um teatro. As pessoas frequentemente representam. Elas observam o tempo todo, esperando comportamentos previsíveis. Observam seus gestos, suas roupas, suas palavras. A liberdade é uma utopia. A espontaneidade morreu.

(Antes, a pessoa que deu essa resposta havia perguntado se Marco Polo era livre e com a resposta positiva dele, questionou se ele sofria pelo futuro, ou seja, se se atormentava pelas coisas que ainda não aconteceram, se tinha necessidades que não são necessárias e se ele sofria quando alguém o criticava, o que obviamente o fez constatar que pensava que era livre, mas não era).

Bom, assim como o menino do livro, também constatei que não sou livre (mas adoro uma livraria): só acho que não tenho comportamentos previsíveis na maioria do tempo como a sociedade espera e ó, ela espera muitos deles, principalmente das mulheres (nem falo das mulheres mães por hora), e tá, talvez todo dia eu coloque um balãozinho de oxigênio na menina espontaneidade,por quem eu prezo e defendo com todas as minhas forças. (Ó, no dia ou lugar que não puder ser espontânea ou não puder acolher a espontaneidade do outro por medo do julgamento/observação de alguém ou todos, aí sim é o fim pra mim).

Mas só.

Em tempos de redes sociais e nossas vidas editadas, com filtros, stories e likes e shares, realidade e espontaneidade são artigos raros mesmo, mas liberdade é outra coisa.

Liberdade é poder decidir quando é hora de se envolver numa relação (já repararam que, salvo raras exceções, é o homem que decide quando é que uma começa?)?, poder demonstrar afeto sem medo de parecer desespero, é dar piti e nunca ouvir “cê tá de tpm né?’, é nunca ser chamado de louco seja porque motivo for (mesmo se for loucura de fato, aliás, quem não é? não é mesmo?!), é sair na rua com a roupa que quiser sem ser julgado por isso, é andar pelo mundo sem medo (“vá de bike”), é não acordar todos os dias com medo de ser estuprado e virar mais um numero na estatística, saber que pode morrer, ser jogado pro cachorro comer e seu assassino ainda virar herói nacional. Liberdade é ser pai de fim de semana (ou pai de selfie), ser chefe sem ter que provar todo dia sua competência, sem ter que ouvir que “deu pra alguém” pra chegar ali, sem ter que desviar dos assédios diários que comprovam que realmente, “dar pra alguém” faz você chegar ‘lá’ mais facilmente, aliás, ser livre é poder conjugar o verbo “dar” sem ser sexualizado. É poder falar de “amor livre”, porque liberdade é sua pátria de nascença (enquanto nós mulheres, temos que diariamente tentar se livrar da cultura do aprincesamento a que fomos submetidas desde o nascimento). Ser livre é ser homem.

Ninguém diz “fulano é um homem livre, o ‘homem mais livre que conheço” porque liberdade apesar de substantivo feminino é estado de espirito masculino e dizer “homem livre” seria pleonasmo. (E aqui prezamos pela coerência e coesão textual).

Sobre mulheres: diz –se livre aquela que tenta ao menos sair do padrão previsível do que é aceitável (ou não), mas só essa mulher sabe o peso que esse título carrega (eu que o diga).

“Mas é isso, te vejo livre, não domino. Me vejo livre (já sei que é ilusão), ops, não pertenço”.

E se outra vida houver, quero vir versão mamilo de homem.

(É isso né, espontaneidade é postar textão reflexão em legenda de foto de perfil – sem camisa. Liberdade seria nem que ter problematizar sobre isso.)

Foto do Henri Dos Anjos, a quem agradeço o olhar e claro e já que cheguei nos agradecimentos, agradeço também ao Governo de Brasília, pela péssima mobilidade urbana do DF que me permitiu ler quase um livro todo enquanto esperava o ônibus na parada.

No mais, tenham paciência: retorno de Saturno terminando por aqui.#quase30

 

(Texto originalmente escrito em Abril de 2017, no Facebook.)

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Pelo Direito de Desaparecer

 

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Ano passado, em um texto que escrevi sobre Belchior, falei que o #VoltaBelchior era loucura: um “te entendo, Belchior” fazia muito mais sentido numa época de crise global como essa que vivemos. Ontem falei dessa coisa dele ter desaparecido e do quanto isso fez minha admiração por ele aumentar: não por fetiche, mas pela coragem.

Umas semanas antes dele morrer eu tinha feito essa camiseta aí (sim, eu que fiz. Imprimi a estampa e usei papel transfer com ferro de passar) e ia lançar um humilde manifesto chamado #PeloDireitodeDesaparecer. Mas aí ele morreu e pensei que soaria como apologia ao suicídio e deixei pra lá.

Daí no meio de tudo isso, no calor da emoção da morte do cara, literalmente quando o defunto sequer havia esfriado, a internet já estava se degladiando (eu ainda tava bebendo) em torno do tema Belchior-abandonou-os-filhos-macho-escroto-não-chorem-por-ele e senti a necessidade de voltar ao assunto “desaparecimento”.

Belchior não abandonou os filhos. ele abandonou a si mesmo em busca de um outro eu. Ele
d-e-s-a-p-a-r-e-c-e-u. Deixou pra trás seus documentos pessoais, dois carros importados em estacionamentos pagos, roupas, bens, direitos autorais, fama, dinheiro (e dívidas, inclusive sim, parece que ele tava devendo pensão alimentícia), afetos, lembranças, status, passado e com tudo isso, esposa e filhos. Mas ainda assim é bem diferente do que um abandono afetivo-paterno clássico. Se ele foi ausente quando presente (assim, contraditoriamente mesmo) aí já não sei.

Não pretendo aqui defender a pessoa Belchior, não tenho nem como fazer isso, mas me assusta quão poderosa tem sido uma opinião qualquer lançada na internet: de repente, em questão de horas podemos acabar com a imagem de uma pessoa (ainda mais agora que é moda linchamentos públicos né?) mas enfim, quero falar de outras coisas.

Falaram que uma mulher jamais é para sempre “apenas uma moça latino-americana”, falaram que desaparecer é um luxo masculino (e de fato é porque culturalmente, desde que nascemos, roubam da gente o direito de apenas ser: temos que cuidar, procriar, ter uma existência sempre em favor do outro) e falaram das diferenças do tratamento para um artista pai em
detrimento de uma artista mãe e boto fé nessas problematizações mesmo, só não acredito no ataque pelo ataque e num debate que não observe também as subjetividades das coisas, não faça uma análise de conjuntura mínima e que tem pouca humanidade diante da morte, que ao meu ver, é uma coisa que torna tudo menor. Morte.

Sobre o direito de desaparecer, contextualizando: Belchior era jovem na década de 70. A mais utópica da humanidade. Geração que o pai do Pedrinho Fonseca chama de “metade fracassada, metade bem sucedida” na dedicatória do livro dele. Geração que quis derrubar um tipo de sociedade e não se propôs a construir outro, que quis mudar o mundo, mas muitas vezes não cuidou da sua própria família. Quem não desapareceu literalmente, desapareceu em muitas esferas da vida, morreu aos poucos também. Jesus mesmo falou que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma (hoje eu acredito mais nas micro-revoluções: cuidar dos nossos, do ao redor muito mais do que revolucionar o planeta terra de uma vez só).

E bom, no caso de Belchior, o desejo de desaparecer tava ali o tempo todo presente na sua obra: suas letras foram pautadas pelo inconformismo com a vida, individual e coletiva. Não estava tudo bem pra ele (“nada é divino, nada é maravilhoso”) desde aquela época, em que era moda alienar-se em alucinógenos, tempo de oba oba (e melodia) e paz e amor. Pra ele o importante era o agora, nunca quis saber das promessa de um
depois, de espiritualidade (e todos nós sabemos o quanto a religião é uma válvula de escape à loucura), o plano era só esse terrestre mesmo, essa sociedade cheia de miséria e sofrimento.

Belchior era um radical. Um cara engajado politicamente que queria um outro modelo de sociedade (“Quero outro jogo”.”Quero uma balada nova”), de um materialismo quase pessimista, embora poético. Sua crítica era ao sistema como um
todo, mas principalmente ao dinheiro, com o qual tinha relação complicada e né, contraditória (do nada tava famoso e rico, com suas letras que faziam critica a isso mesmo). Ele cantou: “e no escritório em que trabalho e fico rico quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor” e “mas o dinheiro é cruel e um vento forte levou os amigos para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos”. Ainda que engajado politicamente, não era um sonhador utópico. Criticava tudo que tava posto mas não apareceu nas suas músicas a solução, o modelo do que viria ser ideal pra ele (os sonhadores tem sorte). Como disse Alberto Sartorelli “sua arte é negativa” e por isso mesmo bonita, forte e necessária, mas me pergunto o homem por trás dessas composições. Imagino a frustração de não só não ter podido colocar em prática o que acreditava e cantava, mas principalmente o fato de ter virado um cantor popular (que teve a sua profundidade esvaziada pela critica, aliás) e de repente imerso de no showbisness e nesse círculo midiatico todo (que inclusive o inferniza até depois de morto).

Belchior, “amante da anarquia” como se definiu, viu desde cedo que a “nossa esperança de jovens não aconteceu”, viveu a frente do seu tempo como todo grande filósofo e com isso, sofreu muito mais, imagino. Porém, apesar de tudo isso, nas suas músicas aparece também essa “pressa de viver”, ele tinha uma racionalidade, uma consciência matadora mas ainda “bebeu, conversou com os amigos ao redor da sua mesa e não deixou o cigarro se apagar pela tristeza”.

Imagino que seu desaparecimento, e aqui é só um chute (ou um desejo) foi uma tentativa de salvar-se (inclusive dos holofotes da imprensa) e só. No fim, nada disso interessava ele. Ele já cantava desde sempre que precisava andar sozinho.

Há alguns relatos que a vida de Belchior começou a mudar quando conheceu Edna, a companheira com quem viveu até o dia de sua morte. Pode ter sido por amor. (Curto essa versão romantizada, confesso). Mas que também havia muitas dúvidas e a carreira não andava bem e tal (não curto essa versão desesperada). Sei que quando ainda tava “desaparecido” sua mãe faleceu e ele sequer foi ao enterro. (Me parece uma necessidade de um apagamento do seu próprio passado).

Poucas pessoas sabem de todas essas coisas, penso que quase nenhuma (talvez a companheira e só) sabia de fato o que ele passava, “no tempo em que você sonhava”. Belchior sempre cantou sobre seus medos também.

Belchior desapareceu porque quis e do desejo de reclusão passou a ser foragido (aquela reportagem-perseguição do Fantástico quando ele tava no Uruguai é revoltante) dessa sociedade em linha reta. Sim, porque para além desse circo midiatico todo, o que parece incomodar mesmo as pessoas é alguém que desvia do comportamento padrão aceitável (nascer-crescer-se reproduzir-trabalhar alienadadamente-morrer).

Belchior virou piada, vítima de controle social (sina de quem é famoso), escárnio, julgamento e especulações mil. E o jogo segue mesmo após sua morte.

Belchior nunca quis ser encontrado.

Esse seu suicídio social e toda sua problematizacão pós-morte (em que pese os debates de gênero a parte) talvez seja um sintoma de projeção.

Todo mundo alguma vez na vida já teve vontade de desaparecer, sumir, largar tudo. A maioria de nós não leva esse desejo adiante por inúmeros motivos, amarras pessoais ou sociais, logo, condenar alguém que corajosamente o fez de algum jeito, é a maneira de aliviar um pouco nossa mediocridade existencial. (E contra a gente tem o fato que nunca compomos “alucinação”, “como nossos pais” ou “paralelas”).

Alguém ousou viver por si mesmo. Sem pedir nossa satisfação ou receber consentimento dos seus pares. Devia ser um direito inalienável.

Não sei se é possível reinventar-se totalmente, nunca saberei. (Apesar da minha asa geminiana, da veia hippie e do desejo de liberdade como meu maior motor, me sinto presa às estruturas da minha vida para todo sempre, a começar sim pelo filho que tenho), mas vou deixar esse manifesto pelo #Direitodedesaparecer sim.

“Viver é que é o grande perigo”.

(Ou gente, ao invés de #VoltaBelchior, vou embarcar no #MeLevaBelchior – da Débora Cruz. Pensem o que pensarem. Nãm. “Eu estou muito cansado do peso da minha cabeça”)

Ps: irônico é que ele tenha morrido por uma veia dilatada no coração. Coração selvagem não agüenta tudo não.

Abaixo a cultura do desinteresse

Por falar em textão, em não ser monossilábico e tal, deixa eu contar uma historinha aqui:

Uma vez eu eu tava ficando com um cara e ele sumiu. Sumiu. Nunca mais respondeu meus torpedos (ele tinha um celular que o que tinha de mais tecnológico era o despertador), não me atendia, assim, fim. A gente marcou uma saída, ele furou. O homem que foi comprar cigarros e nunca mais voltou.

Eu quase morri (tava muito apaixonada). Desabafei com as amigas e elas calmamente me disseram “Marília, bem-vinda à vida de todas as mulheres: os homens somem. Só nunca tinha acontecido com você, mas eles somem”. Fiquei chocada, perdi uns 3 kg em uma semana, chorei, ouvi Raça Negra, essas coisas.

Mas aí claro, escrevi um textão, porque ele podia até não querer conversar, mas me ler, ele iria. Cada um usa a arma que dispõe.

Mandei por inbox aqui. Ele falou que não tinha condição de responder naquele dia, mas que no dia seguinte iria. Passou uma semana e nada. Porra, era grande, mas né possível, o ser humano era professor de Filosofia, me dedicava poemas do Maiakowski, NÃO É POSSÍVEL que não tinha dado tempo de ler.

Aí fiquei me sentido o que? Over!

(Coisas do patriarcado: cê tá numa relação há três meses e não era platônica não, era de verdade e o cidadão DO NADA te ignora sem avisar nada! Você podia muito bem o que? Surtar, gritar, xingar, perseguir no trabalho, furar pneu do carro, expor o cara na rede, mas não, nada, tu só manda um textãozinho e ainda se sente culpada e errada).

Ok. Resolvi encaminhar o texto para um amigo (homem) pra ele me dizer se eu tinha sido over mesmo (eu melhorei, nossa! Onde que eu fazia uma coisa dessas hoje?!), o que ele entenderia se recebesse uma carta daquela e tal.

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Esse amigo por acaso já conhecia o bendito, deram aula juntos e inclusive me falou à época, quando contei que tava com ele: “Sério que cê tá apaixonada por fulano? Fulano é um hippie que não tem nem celular porque não quer ceder ao sistema capitalista, meu bem, cuidado!”, risos, mas enfim, esse amigo também é dos textão, logo, pensei que ele seria o mais apropriado para julgar-me.

Ele (o amigo) respondeu o email com a DR encaminhada assim: “Caralho. MARÍLIA, ISSO NÃO É UMA DR. É UMA PEQUENA CRÔNICA SOBRE O ABANDONO OU O AMOR”.

(Eita sinceridade! Eram 4 laudas do word. Não sei vocês, mas acho de boa. Risos)

Me senti over com sempre me sinto mas com a consciência de que é… também, paciência, só sei ser assim.

Quer leveza, vai voar de balão, não se relacionar comigo.

Daí minha gente, se passaram três meses. TRÊS. E ele me LIGOU e falou “Oi. Então, eu queria pedir desculpas e sobre a sua carta, eu acho que..”.

O QUE QUE EU QUERIA TER DITO? ô seu fdp, cê quase acabou com a minha vida!morra!

O QUE EU DEVERIA TER DITO? Olha, confesso que achei bem imatura sua postura, mas ta bom, vida que segue. Beijos de luz.

O QUE EU RESPONDI? “OK”. (o joinha mental).

Três meses gente, três meses demorou a resposta (mas veio). Cada um tem seu tempo, já diria o IESB.

Mas eu sei que depois disso, tudo mudou.

E essa é uma pequena história (sobre nada com moral nenhuma, só pra me fazer lembrar porque eu só amo os hippiesNÃO PERA) que olha,

• a gente não tem que ficar se sentindo mal por ser quem é,
• que sumir não é coisa de gente honesta,
• que nós mulheres vivemos coisas absurdas em tipos de relações diversas, aceitando tudo goela abaixo e quando a gente surta somos taxadas de loucas ou de estar com TPM,
• que esse discurso de leveza é meu coo (cês viram a pesquisa falando que relacionamento duradouro depende de “a mulher manter a calma” né?) e
• que mandem textão sim, DR também que ninguém é obrigado a ficar doente de tanto guardar sentimento.

Demonstrem tudo. O mal do século é a cultura do desinteresse.

Hoje em dia falo tudo. É um filtro. Fica quem guenta. Mas, ó tem uma dica: alterna os textão com uns nude, uns memes, umas piadas porque também ninguém é obrigado.

É isso. (e já fui over de novo aqui, eu sei. Foda-se.)

Obs: Se puderem, evitem os professores de Filosofia. (Confesso que nessa reforma do ensino médio aí quase add ele aqui de novo pra falar: “parece que o jogo virou né kirido”), mas sou muito madura e o máximo que fiz foi mudar de caminho quando encontrei ele na rua.

Meu querido, meu velho, meu amigo

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(Ler escutando essa música) 

A primeira vez que tive uma noção real do tempo (e da idade) foi quando, pré-adolescente, uma criança me chamou de “moça” na rua.

Eu, moça? Como assim?

(Isso me marcou tanto que gosto que me chamem assim até hoje)

Lembro também quando meu pai completou 40 anos. Ele ganhou uma camiseta “40tão Potência máxima” (risos). 40.

Eu tinha 8 anos e 40 me parecia tão distante, tão velho, tão sei lá.

Hoje, 40 é a média de idade dos meus namorados, amigos, colega de trabalho. 40 é o novo 20.

Meu pai completa hoje 60 anos. 60.

Parar pra pensar nisso me dá outra sensaçao de finitude do tempo, um marco temporal, um nó na garganta, um “caramba, meu pai chegou à velhice”.
60 anos e ele já é considerado idoso pela legislação brasileira.

Ver os pais da gente envelhecendo é estranho né?Mas é um baita privilégio, é sim.

Que o 60 seja o novo 40, que meu pai viva mais um bocado de anos pra ir arrumar meu carro no mecânico, buscar Miguel na escola, cozinhar minhas comidas preferidas, cobrar minhas ligações, reclamar da minha roupa curta, puxar assuntos polêmicos, conversar sobre história e política comigo, me fazer passar raiva com suas rabugentices e viver de amor como foi até hoje.

Meu velho. (Ps: acho que essa foi a última foto que ele tirou comigo. Não tira mais nem a pau. Juvenal)

Postado originalmente no Facebook, ano passado. 

Dezesseis

No dia 16 de outubro nos encontramos para um happy hour.

Nosso trio de sempre: Eu, ela e Cintia. A gente se conheceu em 2006, quando trabalhamos juntas no CNPq. Nunca mais nos largamos.
Nesse dia dezesseis, ela, a Flávia, tava mais linda do que nunca. Até fiz um vídeo e postei no snapchat a chamando de “vaca” (do tipo “ai menina, pára de nos humilhar sendo linda assim”). Em três horas de papo, dominei cerca de 2, no mínimo. Era uma atualização sobre minha vida afetiva-amorosa. Ela disse “ele vai te pedir em namoro, se prepara”. Falei também do Miguel, do trabalho e da casa nova. Ela me indicou uma loja pra comprar um sutiã igual ao que ela tava usando. Devolvi umas roupas dela que estavam comigo. Ela também falou de amores, de dores, do novo boy de SP. Teve uma hora que eu disse : “como você é corajosa, não sei se eu iria”. Ela respondeu: “Até parece Mary, eu aprendi a ser assim com você. Você é um exemplo de mulher independente, corajosa e que se joga. A vida é muito curta”. Respondi de volta: “Até parece você, você que é maravilhosa! Merece toda felicidade do mundo”.
A gente era assim. Uma rasgação de seda reciproca, constante e verdadeira.
Fomos ao banheiro do shopping, segurei a porta pra ela, tarefa cotidiana de amiga mulher. Maquiagens retocadas, assuntos diversos. Planos. A gente tava tão feliz. “Vocês tão ‘tudo’ apaixonada”, disse a Cintia depois no nosso grupo de Whatsapp.
Dei carona pra elas até o metrô. Já era noite e começava a chuviscar. Esperei sumirem do meu olhar para ir embora (sempre), mas antes gritei:  “tchau amigas, foi lindo!” e elas acenaram. A Flávia olhou pra trás, já longe e disse “amo você, Mary”.
Guardei esse momento na gaveta da memória, congelei esse olhar pra sempre sem saber que era o último. Mesmo que na hora parecesse rotineiro como eram todos nossos eu te amos. Meu inconsciente quis eternizar.
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Em outro dia 16, o de novembro, 1 mês depois, ela tinha o diagnóstico de Câncer com metástase, meu celular tava afogado na piscina e o carinha lá, como ela previu (e eu desacreditava), me pediu em namoro mesmo.
Eu seguia incomunicável e planejava mentalmente como ia contar a noticia pra ela, compartilhar sensações, mandar fotos do jantar (no qual ela me ajudou a escolher a roupa que usei, opinou sobre a maquiagem, desejou sorte).  Não deu tempo.
Uma segunda-feira depois, recebi a noticia. Ela já estava no hospital e muito doente. Recuperei o celular, mas dessa vez era ela que já não tinha acesso.
Em 16 de Dezembro de 2015, o fatídico, ao meio dia, eu soube da sua morte.
Aquele happy hour, no Madero do Patio Brasil Shopping, foi a última hora feliz pra nós. Ultima vez que estive com ela.
Quem saberia que exatos dois meses depois ela já não estaria entre nós? Era impossível prever, como ainda parece ser impossível acreditar.
Ainda tenho muitas coisas a elaborar, sofrer, chorar, viver nesse luto que hoje só completa um ano. Nunca mais vou viver um dia dezesseis em paz.
Ainda vou (precisar) falar muito sobre ela e do seu legado na minha vida e no mundo.
Prometi, beijando seu rosto já frio e sem vida no velório, que se um dia eu escrever um livro (como ela tanto disse e acreditou que eu faria), seria dedicado à ela. À Flavia Caroline Medeiros e Silva.
Hoje o que me conforta é saber que nossas declarações foram todas em vida. Nossos “eu te amo” eram como “bom dia”. Sobrou amor, palavras de afeto, presentes, presença.
10  anos de amizade, mas foram os últimos dois que trocamos mais e nesse último especificamente, aproveitamos todas as chances que tivemos para estarmos juntas. Todas. Nos esforçamos e encontramos lugar na agenda corrida pra fortalecer nossa amizade. Não ficou nada a ser dito, nenhum abraço a ser dado (só o último), nada pendente no campo das palavras,dos gestos (nunca vou esquecer de quando tava com problemas de grana e ela me ofereceu os únicos cem reais que tinha no banco),dos planos , do carinho, nada.
Sempre tive uma noção quase paupável da fragilidade da vida. Ela também. Talvez meu encontro com a Flávia, na verdade um reconhecimento de alma (nos amamos no momento que nos vimos pela primeira vez, quase um conto de fadas da amizade) tenha sido por causa disso. Flávia amava, dizia que amava, não postergava felicidade, não reclamava (não mesmo, juro), tinha sede de viver. E
Cada dia que o Facebook me relembra as postagens passadas, aparece ela (ou eu) presente na vida uma da outra. E em tempos de redes sociais e tecnologia, digo: façam selfie, gravem audios, façam textão,mandem nudes (a ultima foto que ela me mandou foi dos peitos com o sutiã novo, no banheiro da biblioteca, porque eu pedi. Risos), snapchat sim! Tenho vídeos hilários nosso na Àgua Mineral, dela fazendo trança no meu cabelo (❤️), trocando de roupa no carro, mexendo com pessoas no trânsito, dançando (sou dessas que registra e ainda salva), falando besteira. Ouço áudios com gargalhadas, com choros, com declarações. Tem um de Julho que ela mandou no grupo, falando assim “se eu não morri hoje, não morro nunca mais”, emocionada, sobre um post que fiz homenageando meus amigos, inclusive ela, no dia do amigo.
Não morre mesmo Flavinha. Não enquanto eu tiver aqui pra contar história.
Por fim, tenho refletido em como a morte revela nosso lado mais egoísta. Tô sofrendo a falta porque preciso.
Choramos perder quem é necessário pra nós. Não é uma dor altruísta.
Ela partiu no meio da história e isso também me dá uma certa revolta com o roteirista divino.
Nem cheguei a contar sobre o pedido de namoro e ele (o namoro) já acabou (meus batons duram mais na boca, aff). Aliás, por ironia da vida, no dia do enterro dela.
Rituais de passagem do dia 17 de Dezembro.
Dores. Mas nem se comparam. Como diz o poeta, “suportaria, embora não sem dor, que morressem todos meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos meus amigos”. Não é essa a questão.
A questão é que seria mais fácil com ela aqui. (Como fez falta ouvir: “você é muito mais, amiga. Olha pra você. Linda, deusa, engraçada, inteligente…”  e achava qualidades que nem eu via. De todas as amigas que tenho que dizem isso – quase uma obrigação da amizade feminina- ela era a única que me fazia acreditar que era verdade mesmo. Flávia era tão linda que acho que transbordava um pouco em mim, a admiração dela era um dos meus melhores trofeus, eu era melhor pelos olhos dela). A vida era, na verdade. (E assim eu também justifico a maior fossa que já vivi na vida, esse dezembro e janeiro passados).
O mundo era mais fácil antes do dia 16 de Dezembro de 2015, isso é que é um fato.
Agora o que me resta é agradecer por ter tido a chance de viver com ela o outro 16, de Outubro, aliás, vivi todos os outros 16 e datas e tais que vivemos nos últimos 10 anos.
Foi lindo mesmo. (Pena não poder ouvir o “amo você, Mary” de volta)
Eu te amo, Flavinha.

Não é a crítica que é vulgar, é o amor

Eu amo #Belchior. Sei que ele virou uma espécie de mito depois que sumiu e agora parece que tão reconhecendo toda sua grandeza como compositor e filósofo: o chamam até de Nietchsze brasileiro.

Belchior é sim um gênio, um intelectual, um homem à frente do seu tempo (como o próprio Nietchze, com quem o comparam, aliás, disse: “o homem verdadeiramente de seu tempo sempre está à frente de seu tempo” e Belchior já cantava na década de 70 o que vivemos hoje. Talvez por isso agora ele esteja ressurgindo como a voz de uma (nossa, essa atual) geração insatisfeita com a politica, o governo, a sociedade, que já não está interessada em “nenhuma teoria”.

Belchior já está cool, hipster, cult. Meu filho de 6 anos cantarola suas canções e as escreve na parede. Ressuscitaram Belchior como um símbolo justamente quando ele próprio quis sumir, preferiu andar sozinho, como já havia anunciado há tempos. Enfim, chega a ser irônico o #VoltaBelchior quando nós mesmos temos a mesma vontade de largar tudo todos os dias. Não volta não, Belchior (e você caiu fora bem antes, mais uma vez provando a vanguarda) que por aqui não estamos bem não.

Mas não é isso que quero falar. Quero mais que amem e cantem Belchior.

É que hoje ele completaria #70anos e eu quero “poder falar palavra sobre essas coisas sem jeito que eu trago em meu peito (e que eu acho tão bom)”:

Não foi por suas composições engajadas politicamente ou por suas letras filosóficas que comecei a amar Belchior. Foi pelo bigode. Desde pequeninha sustento esse fetiche de virilidade, me desculpe aí o clichê. Junto com isso, aquelas roupas dos anos 70 (época que queria ter nascido), as calças xadrez ou boca de sino, o blusão de couro (<3), os chapéus (e até hoje me amarro em homem de chapéu), as camisas, a cabeleira.

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Foi pela voz anasalada (já falei que curto uns pequenos “defeitos”? um pouco de fanhice, língua presa – ó Cazuza ai, que charme -, uma leve gagueira, enfim, ele  próprio cantou “a minha voz, rara taquara rachada vem soul blues, do pó da estrada e conta o que a vida convém”), foi o fato de ser cearense (meu pai e meu avô são, ou seja, minha referencia boa ou má de masculinidade é o homem do nordeste, com todas suas caricaturizações machistas. Ah amo o Fagner! <3) e claro, porque ele fala de amor (com a dose certa de safadeza e breguice).

Belchior é brega. Todo mundo que fala de amor é brega (“Por favor não confunda as coisas! toda a canção é vulgar!”). Ate Joao Gilberto ou Vinicius de Moraes são bregas. Fernando Pessoa já falava que toda carta de amor é ridícula. Sei que hoje brigam pra enxergarem Belchior para além da “critica vulgar”, que o reconheçam como o compositor de canções profundas, pelo poeta e homem erudito e engajado que é, mas eu tal qual o Mc Marcinho quero mesmo é falar de amor. Eu sou brega. Na verdade eu sou cafona (brega com ênfase).

Amo Roberto Carlos, Fagner (já falei né?), Fafá de Belem, Alcione, Roupa Nova, Fábio Jr, Guilherme Arantes, Xitãozinho e Xororó…

E bom, pra mim, que o conheci ainda menina, Belchior era só o moço másculo de bigode que (também) falava de amor.

O título de “brega”, nesse caso pejorativo, que a indústria fonográfica e a imprensa deu a ele (e a mim por tabela), só fui entender depois. Hoje sei que é muito mais pelos arranjos simplinhos das melodias e porque, obvio, ele caiu no gosto do popular (como se algo ser apenas do gosto de poucos prove que é de melhor qualidade).

Acho que não devemos brigar para desassociar Belchior do Brega. Belchior é um cara que soube sim usar as palavras (suspiros) como instrumento de luta política, para despertar a consciência de classe e por isso foi um revolucionário, mas fez isso (também) falando de amor, de sexo, de desejo, de fetiches e o fez na linguagem do povo, porque fazia questão de lembrar “eu sou como você, eu sou como você”. Seu materialismo poético, a melancolia quase desesperançada, a realidade escancarada de que ao contrário do que Caetano falava, “nada é divino / nada, nada é maravilhoso” fez da sua arte, uma arte que de fato imita a vida, sem deixar de ser bonita por isso.

Defendo o brega, aliás defendo a vida (e a música e o amor) livre de rótulos porque me parece que isso é só um meio de marginalizar a cultura popular e de hierarquizar até nossas subjetividades. Eu gosto de quem fala o que eu sinto. Seja minha insatisfação política ou seja minha dor de cotovelo. Por que tudo que toca a maioria das pessoas é tão passível de criticas?

Não me responsabilizo se estou dirigindo e toca “Divina comédia humana”: levanto os braços e canto com toda a alma “deixando a profundidade de lado eu quero é ficar colado à pele dela noite e diaaaaaaa”. Juro. E espero muito falar pra alguém um dia que “entrou em mim feito um sol no meu quinta”.

Dos álbuns dele, sei do peso politico de “Alucinação”, um verdadeiro manifesto, mas o meu preferido é de longe ““Coração Selvagem”, a começar pela canção que dá nome a ele: “Eu quero um gole de cerveja no seu copo, no seu colo e nesse bar”. “Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja / Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja /Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo/Tenho pressa de viver”.

Ai Belchior, cê me entende. “Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagarque é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar”. Tão vendo?. Ô vontade de beijar aquele bigode agora.

E quando ele chama de “minha normalista linda”?,  fala “musa, deusa, mulher, cantora e bailarina”?. Ou repara na “aeromoca, sexy, fica mais bonita”.

Medo de avião. Aliás, é linda a relação que tem com seus medos, expondo fragilidades, apesar do lugar de macho alfa conquistador “Eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão”. (E quem não?).

Seus desejos: “quero uma balada nova falando de brotos, de coisas assim/ De money, de banho de lua, de ti e de mim”. Eu também quero, Belchior.

Sua defesa da paixão em detrimento do amor : “Eu não vou querer …o amor somente é tão banal. Busco a paixão fundamental, edípica e vulgar” e ainda deixando a profundidade de lado mais uma vez, não seguindo o conselho do amigo analista: “Me pegue, me toque/Saques de sax/ Você é demais!/ Hoje à noite namorar sem ter medo da saudade/ Sem vontade de casar” .

Eu também tenho pressa de viver, Belchior, mesmo que as vezes a gente se contradiga: “Quantas vezes nós dissemos eu te amo pra tentar sobreviver” e sofra, porque faz parte: “(Oh! Deus daqui!)/Jurou assim: Porque fugir se enfim me queres!/Só me feriu como me feres”.

Mas escuto o conselho: ”Meu bem, admire o meu carro e goze sozinha enquanto fumo um cigarro/ mas cuidado!, atenção!

– Oooh! oooh!… não vá quebrar mais nenhum coração”.

Coração é pra ser quebrado mesmo, amor é pra sofrer também e filosofia é lugar para morar, porque nessa divina comedia humana, nada é eterno mesmo, só você.

[Fazer o que, sigo amando caras “tão sentimentais” (e sujando todos de batom)]

#Belchior70anos

Você pensa que sabe (mas não sabe)

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Cena 1: Uma vez postei uma foto de maiô no instagram. Cortava meu rosto. Muitos likes. Muitos elogios. “Muito sexy”, “linda”, essas coisas. Eu tinha comprado o maiô pra uma ocasião especial. Era o aniversário do meu namorado (na época). O lugar era o melhor, mais caro e mais bonito hotel de Brasília. O dia tava lindo. Foi um “final de semana surpresa” que dei de presente pra ele. Postei a foto deitada na cadeira de sol, depois de ter chorado compulsivamente por um longo tempo ali sozinha (meu namorado estava trancado no quarto escuro de cortinas fechadas) O relacionamento mais importante da minha vida (mais que meu casamento) tava acabando . A diária do hotel também. Eu quis só dar um mergulho na piscina pra afogar de vez aquilo. Peguei o celular pra me olhar na câmera frontal porque depois de ficar insone/brigar/chorar eu não devia estar com uma cara muito boa e foi quando tirei a foto, sentindo um pouco de pena e graça da expectativa que aquele maiô carregava. Postei a foto cortando meus olhos inchados. Para a internet: só mais uma selfie sensualizante de uma mulher qualquer. Pra mim o registro de um fim de uma era.

Cena 2: No meu trabalho, há algumas semanas fui informada sobre uma usuária “agressiva”, “nervosa” e que tinha ameaçado “cortar o cabelo e bater” nas servidoras que a atenderam, caso não tivesse seu problema solucionado. Realmente essa mulher gritou, tentou se impor assim e eu mesma, a fim de evitar maiores problemas dado os nervos alterados de ambas, a atendi. (Ela queria atualizar seu cadastro único, pra voltar a receber o Bolsa Família). Na conversa particularizada dias depois, mais calma e sendo ouvida com atenção, ela informou que era catadora de materiais recicláveis no lixão, mas que não tava podendo trabalhar porque descobriu-se soropositiva e já com baixa imunidade . Sem renda nenhuma, benefício social bloqueado e com um filho no colo. Falou que um dia antes dela chegar na unidade “exigindo” o atendimento, seu companheiro a espancou (me mostrou feridas ainda recentes na cabeça) e saiu de casa porque ela falou que tava grávida (dele) novamente. Para quem a atendeu era uma louca agressiva, pra ela mesma era a última instância do desespero.

Cena 3: Uma mulher após perder o vôo, ficar desabrigada num pais que não é o seu, esperar por dias uma conexão, horas sem comer e dormir, desesperada e exausta pela situação, estende um paninho no chão à sua frente e coloca seu bebê deitado ali em segurança (sim porque se colocasse no banco ao lado ele poderia rolar e cair) para poder falar ao telefone e encontrar a solução para aquilo ali que vivia. Alguém (que duvido muito perguntou se ela precisava de algo) passou, tirou uma foto, muitas conclusões e postou na internet. De repente essa mãe virou ré (mais uma) na rede mundial de computadores. Um segundo. Um instante e de mãe preocupada e protetora, ela virou a mãe negligente e ausente.

Questão de perspectiva.

A verdade é que ninguém sabe o que a outra pessoa está passando. As cicatrizes que mais doem não saem em selfies. Ninguém sabe a luta diária que cada um enfrenta para sei lá, estar de pé agora trabalhando, tomando um café, dividindo o transporte público com você ou sei lá, fazendo um comentário na internet.

Nas redes sociais especificamente, só mostramos o que é bonito (claro), mas é bom lembrar ninguém tem a vida perfeita. Uma taça de vinho postada pode ser solidão e não ostentação, por trás de uma foto linda de por-do-sol pode ter um coração melancólico e não grato, aquelas fotos de viagens paradisíacas não contam os bastidores, os perrengues, as brigas do casal que parece saído da novela global das 7.

Nem tudo que parece é. Nem tudo que somos em um instante determina o que seremos pra sempre. O que as pessoas mostram geralmente é só um retrato (nem sempre fiel) de um momento, não pode ser nunca uma sentença.

Ser empático, respirar fundo antes de julgar e esperar o melhor dos outros, ainda que não seja o que eles estão demonstrando naquele momento não é fazer papel de trouxa (vamos parar de demonizar os sentimentos bons que ainda temos?), é entender que cada um já carrega sua própria bagagem de dor e sofrimento, logo, ser legal com todos vale a pena sim. (E parar de reclamar da própria vida porque o parâmetro de comparação é a do outro, digo, a que o outro quer mostrar é também é um caminho para a paz interior).

Pela minha experiência (no trabalho e na vida) percebo que quem é mais agressivo, quem mais cria problemas, tretas, quem mais quer afirmar sua pseudo felicidade ou arrogância ao mundo e as pessoas que parecem ausentes ou indiferentes são quem mais precisam da gente.

Ainda quero muito viver num mundo em que falaremos abertamente das nossas feridas, dores, que nos orgulharemos também das nossas cicatrizes, solidão, defeitos. Onde possamos pedir desculpas no Facebook (parar com essa cultura de “lacre”, que parece exaltar a má educação, as respostas rápidas e o fechamento de qualquer oportunidade de diálogo), tenhamos mais coragem de “fazer a Glória” e simplesmente admitir que às vezes não somos capazes de opinar mesmo (de formadores de opinião esse bagulho já está cheio), onde possamos mostrar nossas vulnerabilidades vez ou outra e parar um pouco com essa ditadura rivotril da felicidade eterna.

Mas enquanto isso não acontece, podemos apenas considerar que a gente pensa que sabe, mas não sabe? Uma foto é só uma foto. Um like é só um like, um momento é só um momento e não estamos aqui numa grande inquisição. E a internet não é um tribunal.

Antes de xingar alguém no trânsito, cobrar simpatia demais da atendente na padaria ou sofrer pelo silêncio e frieza do seu crush, pense nisso: V-O-C-Ê N-Ã-O S-A-B-E.

É fácil pedir mais amor por favor e dizer que gentileza gera gentileza. Difícil é praticar. Mas se esforçar, a gente consegue. O paraíso é o outros.
(No caso do meu namorado, eu fiquei muito arrasada à épca. No dia que ele terminou comigo o achei frio, insensível, monossílabico, covarde. 1 ano depois, agora recentemente, o reencontrei e ele me falou que passou por um processo depressivo e que foi naquele dia que ele se deu conta dos gatilhos que desencadearam isso. Que não tinha nada a ver comigo).

A dor da gente não sai no jornal.

Queria terminar falando que o essencial é mesmo invisível aos olhos ou que a dor é inevitável e o sofrimento opcional, mas além de esgotar o limite de auto-ajuda do dia, só queria comprovar minha teoria de que vocês não sabem: aposto que tão pensando “ai como a Marilia é sensível e legal, e humana e …” GENTE, ESSE POST É SÓ UMA OPORTUNIDADE PRA POSTAR ESSA FOTO NOVAMENTE, ok? Risos.

(Lição essencial: sofrendo ou não sofrendo, sensualize sempre).