Dezesseis

No dia 16 de outubro nos encontramos para um happy hour.

Nosso trio de sempre: Eu, ela e Cintia. A gente se conheceu em 2006, quando trabalhamos juntas no CNPq. Nunca mais nos largamos.
Nesse dia dezesseis, ela, a Flávia, tava mais linda do que nunca. Até fiz um vídeo e postei no snapchat a chamando de “vaca” (do tipo “ai menina, pára de nos humilhar sendo linda assim”). Em três horas de papo, dominei cerca de 2, no mínimo. Era uma atualização sobre minha vida afetiva-amorosa. Ela disse “ele vai te pedir em namoro, se prepara”. Falei também do Miguel, do trabalho e da casa nova. Ela me indicou uma loja pra comprar um sutiã igual ao que ela tava usando. Devolvi umas roupas dela que estavam comigo. Ela também falou de amores, de dores, do novo boy de SP. Teve uma hora que eu disse : “como você é corajosa, não sei se eu iria”. Ela respondeu: “Até parece Mary, eu aprendi a ser assim com você. Você é um exemplo de mulher independente, corajosa e que se joga. A vida é muito curta”. Respondi de volta: “Até parece você, você que é maravilhosa! Merece toda felicidade do mundo”.
A gente era assim. Uma rasgação de seda reciproca, constante e verdadeira.
Fomos ao banheiro do shopping, segurei a porta pra ela, tarefa cotidiana de amiga mulher. Maquiagens retocadas, assuntos diversos. Planos. A gente tava tão feliz. “Vocês tão ‘tudo’ apaixonada”, disse a Cintia depois no nosso grupo de Whatsapp.
Dei carona pra elas até o metrô. Já era noite e começava a chuviscar. Esperei sumirem do meu olhar para ir embora (sempre), mas antes gritei:  “tchau amigas, foi lindo!” e elas acenaram. A Flávia olhou pra trás, já longe e disse “amo você, Mary”.
Guardei esse momento na gaveta da memória, congelei esse olhar pra sempre sem saber que era o último. Mesmo que na hora parecesse rotineiro como eram todos nossos eu te amos. Meu inconsciente quis eternizar.
2015-08-28-16-10-41
Em outro dia 16, o de novembro, 1 mês depois, ela tinha o diagnóstico de Câncer com metástase, meu celular tava afogado na piscina e o carinha lá, como ela previu (e eu desacreditava), me pediu em namoro mesmo.
Eu seguia incomunicável e planejava mentalmente como ia contar a noticia pra ela, compartilhar sensações, mandar fotos do jantar (no qual ela me ajudou a escolher a roupa que usei, opinou sobre a maquiagem, desejou sorte).  Não deu tempo.
Uma segunda-feira depois, recebi a noticia. Ela já estava no hospital e muito doente. Recuperei o celular, mas dessa vez era ela que já não tinha acesso.
Em 16 de Dezembro de 2015, o fatídico, ao meio dia, eu soube da sua morte.
Aquele happy hour, no Madero do Patio Brasil Shopping, foi a última hora feliz pra nós. Ultima vez que estive com ela.
Quem saberia que exatos dois meses depois ela já não estaria entre nós? Era impossível prever, como ainda parece ser impossível acreditar.
Ainda tenho muitas coisas a elaborar, sofrer, chorar, viver nesse luto que hoje só completa um ano. Nunca mais vou viver um dia dezesseis em paz.
Ainda vou (precisar) falar muito sobre ela e do seu legado na minha vida e no mundo.
Prometi, beijando seu rosto já frio e sem vida no velório, que se um dia eu escrever um livro (como ela tanto disse e acreditou que eu faria), seria dedicado à ela. À Flavia Caroline Medeiros e Silva.
Hoje o que me conforta é saber que nossas declarações foram todas em vida. Nossos “eu te amo” eram como “bom dia”. Sobrou amor, palavras de afeto, presentes, presença.
10  anos de amizade, mas foram os últimos dois que trocamos mais e nesse último especificamente, aproveitamos todas as chances que tivemos para estarmos juntas. Todas. Nos esforçamos e encontramos lugar na agenda corrida pra fortalecer nossa amizade. Não ficou nada a ser dito, nenhum abraço a ser dado (só o último), nada pendente no campo das palavras,dos gestos (nunca vou esquecer de quando tava com problemas de grana e ela me ofereceu os únicos cem reais que tinha no banco),dos planos , do carinho, nada.
Sempre tive uma noção quase paupável da fragilidade da vida. Ela também. Talvez meu encontro com a Flávia, na verdade um reconhecimento de alma (nos amamos no momento que nos vimos pela primeira vez, quase um conto de fadas da amizade) tenha sido por causa disso. Flávia amava, dizia que amava, não postergava felicidade, não reclamava (não mesmo, juro), tinha sede de viver. E
Cada dia que o Facebook me relembra as postagens passadas, aparece ela (ou eu) presente na vida uma da outra. E em tempos de redes sociais e tecnologia, digo: façam selfie, gravem audios, façam textão,mandem nudes (a ultima foto que ela me mandou foi dos peitos com o sutiã novo, no banheiro da biblioteca, porque eu pedi. Risos), snapchat sim! Tenho vídeos hilários nosso na Àgua Mineral, dela fazendo trança no meu cabelo (❤️), trocando de roupa no carro, mexendo com pessoas no trânsito, dançando (sou dessas que registra e ainda salva), falando besteira. Ouço áudios com gargalhadas, com choros, com declarações. Tem um de Julho que ela mandou no grupo, falando assim “se eu não morri hoje, não morro nunca mais”, emocionada, sobre um post que fiz homenageando meus amigos, inclusive ela, no dia do amigo.
Não morre mesmo Flavinha. Não enquanto eu tiver aqui pra contar história.
Por fim, tenho refletido em como a morte revela nosso lado mais egoísta. Tô sofrendo a falta porque preciso.
Choramos perder quem é necessário pra nós. Não é uma dor altruísta.
Ela partiu no meio da história e isso também me dá uma certa revolta com o roteirista divino.
Nem cheguei a contar sobre o pedido de namoro e ele (o namoro) já acabou (meus batons duram mais na boca, aff). Aliás, por ironia da vida, no dia do enterro dela.
Rituais de passagem do dia 17 de Dezembro.
Dores. Mas nem se comparam. Como diz o poeta, “suportaria, embora não sem dor, que morressem todos meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos meus amigos”. Não é essa a questão.
A questão é que seria mais fácil com ela aqui. (Como fez falta ouvir: “você é muito mais, amiga. Olha pra você. Linda, deusa, engraçada, inteligente…”  e achava qualidades que nem eu via. De todas as amigas que tenho que dizem isso – quase uma obrigação da amizade feminina- ela era a única que me fazia acreditar que era verdade mesmo. Flávia era tão linda que acho que transbordava um pouco em mim, a admiração dela era um dos meus melhores trofeus, eu era melhor pelos olhos dela). A vida era, na verdade. (E assim eu também justifico a maior fossa que já vivi na vida, esse dezembro e janeiro passados).
O mundo era mais fácil antes do dia 16 de Dezembro de 2015, isso é que é um fato.
Agora o que me resta é agradecer por ter tido a chance de viver com ela o outro 16, de Outubro, aliás, vivi todos os outros 16 e datas e tais que vivemos nos últimos 10 anos.
Foi lindo mesmo. (Pena não poder ouvir o “amo você, Mary” de volta)
Eu te amo, Flavinha.
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