Não é a crítica que é vulgar, é o amor

Eu amo #Belchior. Sei que ele virou uma espécie de mito depois que sumiu e agora parece que tão reconhecendo toda sua grandeza como compositor e filósofo: o chamam até de Nietchsze brasileiro.

Belchior é sim um gênio, um intelectual, um homem à frente do seu tempo (como o próprio Nietchze, com quem o comparam, aliás, disse: “o homem verdadeiramente de seu tempo sempre está à frente de seu tempo” e Belchior já cantava na década de 70 o que vivemos hoje. Talvez por isso agora ele esteja ressurgindo como a voz de uma (nossa, essa atual) geração insatisfeita com a politica, o governo, a sociedade, que já não está interessada em “nenhuma teoria”.

Belchior já está cool, hipster, cult. Meu filho de 6 anos cantarola suas canções e as escreve na parede. Ressuscitaram Belchior como um símbolo justamente quando ele próprio quis sumir, preferiu andar sozinho, como já havia anunciado há tempos. Enfim, chega a ser irônico o #VoltaBelchior quando nós mesmos temos a mesma vontade de largar tudo todos os dias. Não volta não, Belchior (e você caiu fora bem antes, mais uma vez provando a vanguarda) que por aqui não estamos bem não.

Mas não é isso que quero falar. Quero mais que amem e cantem Belchior.

É que hoje ele completaria #70anos e eu quero “poder falar palavra sobre essas coisas sem jeito que eu trago em meu peito (e que eu acho tão bom)”:

Não foi por suas composições engajadas politicamente ou por suas letras filosóficas que comecei a amar Belchior. Foi pelo bigode. Desde pequeninha sustento esse fetiche de virilidade, me desculpe aí o clichê. Junto com isso, aquelas roupas dos anos 70 (época que queria ter nascido), as calças xadrez ou boca de sino, o blusão de couro (<3), os chapéus (e até hoje me amarro em homem de chapéu), as camisas, a cabeleira.

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Foi pela voz anasalada (já falei que curto uns pequenos “defeitos”? um pouco de fanhice, língua presa – ó Cazuza ai, que charme -, uma leve gagueira, enfim, ele  próprio cantou “a minha voz, rara taquara rachada vem soul blues, do pó da estrada e conta o que a vida convém”), foi o fato de ser cearense (meu pai e meu avô são, ou seja, minha referencia boa ou má de masculinidade é o homem do nordeste, com todas suas caricaturizações machistas. Ah amo o Fagner! <3) e claro, porque ele fala de amor (com a dose certa de safadeza e breguice).

Belchior é brega. Todo mundo que fala de amor é brega (“Por favor não confunda as coisas! toda a canção é vulgar!”). Ate Joao Gilberto ou Vinicius de Moraes são bregas. Fernando Pessoa já falava que toda carta de amor é ridícula. Sei que hoje brigam pra enxergarem Belchior para além da “critica vulgar”, que o reconheçam como o compositor de canções profundas, pelo poeta e homem erudito e engajado que é, mas eu tal qual o Mc Marcinho quero mesmo é falar de amor. Eu sou brega. Na verdade eu sou cafona (brega com ênfase).

Amo Roberto Carlos, Fagner (já falei né?), Fafá de Belem, Alcione, Roupa Nova, Fábio Jr, Guilherme Arantes, Xitãozinho e Xororó…

E bom, pra mim, que o conheci ainda menina, Belchior era só o moço másculo de bigode que (também) falava de amor.

O título de “brega”, nesse caso pejorativo, que a indústria fonográfica e a imprensa deu a ele (e a mim por tabela), só fui entender depois. Hoje sei que é muito mais pelos arranjos simplinhos das melodias e porque, obvio, ele caiu no gosto do popular (como se algo ser apenas do gosto de poucos prove que é de melhor qualidade).

Acho que não devemos brigar para desassociar Belchior do Brega. Belchior é um cara que soube sim usar as palavras (suspiros) como instrumento de luta política, para despertar a consciência de classe e por isso foi um revolucionário, mas fez isso (também) falando de amor, de sexo, de desejo, de fetiches e o fez na linguagem do povo, porque fazia questão de lembrar “eu sou como você, eu sou como você”. Seu materialismo poético, a melancolia quase desesperançada, a realidade escancarada de que ao contrário do que Caetano falava, “nada é divino / nada, nada é maravilhoso” fez da sua arte, uma arte que de fato imita a vida, sem deixar de ser bonita por isso.

Defendo o brega, aliás defendo a vida (e a música e o amor) livre de rótulos porque me parece que isso é só um meio de marginalizar a cultura popular e de hierarquizar até nossas subjetividades. Eu gosto de quem fala o que eu sinto. Seja minha insatisfação política ou seja minha dor de cotovelo. Por que tudo que toca a maioria das pessoas é tão passível de criticas?

Não me responsabilizo se estou dirigindo e toca “Divina comédia humana”: levanto os braços e canto com toda a alma “deixando a profundidade de lado eu quero é ficar colado à pele dela noite e diaaaaaaa”. Juro. E espero muito falar pra alguém um dia que “entrou em mim feito um sol no meu quinta”.

Dos álbuns dele, sei do peso politico de “Alucinação”, um verdadeiro manifesto, mas o meu preferido é de longe ““Coração Selvagem”, a começar pela canção que dá nome a ele: “Eu quero um gole de cerveja no seu copo, no seu colo e nesse bar”. “Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja / Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja /Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo/Tenho pressa de viver”.

Ai Belchior, cê me entende. “Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagarque é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar”. Tão vendo?. Ô vontade de beijar aquele bigode agora.

E quando ele chama de “minha normalista linda”?,  fala “musa, deusa, mulher, cantora e bailarina”?. Ou repara na “aeromoca, sexy, fica mais bonita”.

Medo de avião. Aliás, é linda a relação que tem com seus medos, expondo fragilidades, apesar do lugar de macho alfa conquistador “Eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão”. (E quem não?).

Seus desejos: “quero uma balada nova falando de brotos, de coisas assim/ De money, de banho de lua, de ti e de mim”. Eu também quero, Belchior.

Sua defesa da paixão em detrimento do amor : “Eu não vou querer …o amor somente é tão banal. Busco a paixão fundamental, edípica e vulgar” e ainda deixando a profundidade de lado mais uma vez, não seguindo o conselho do amigo analista: “Me pegue, me toque/Saques de sax/ Você é demais!/ Hoje à noite namorar sem ter medo da saudade/ Sem vontade de casar” .

Eu também tenho pressa de viver, Belchior, mesmo que as vezes a gente se contradiga: “Quantas vezes nós dissemos eu te amo pra tentar sobreviver” e sofra, porque faz parte: “(Oh! Deus daqui!)/Jurou assim: Porque fugir se enfim me queres!/Só me feriu como me feres”.

Mas escuto o conselho: ”Meu bem, admire o meu carro e goze sozinha enquanto fumo um cigarro/ mas cuidado!, atenção!

– Oooh! oooh!… não vá quebrar mais nenhum coração”.

Coração é pra ser quebrado mesmo, amor é pra sofrer também e filosofia é lugar para morar, porque nessa divina comedia humana, nada é eterno mesmo, só você.

[Fazer o que, sigo amando caras “tão sentimentais” (e sujando todos de batom)]

#Belchior70anos

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