Você pensa que sabe (mas não sabe)

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Cena 1: Uma vez postei uma foto de maiô no instagram. Cortava meu rosto. Muitos likes. Muitos elogios. “Muito sexy”, “linda”, essas coisas. Eu tinha comprado o maiô pra uma ocasião especial. Era o aniversário do meu namorado (na época). O lugar era o melhor, mais caro e mais bonito hotel de Brasília. O dia tava lindo. Foi um “final de semana surpresa” que dei de presente pra ele. Postei a foto deitada na cadeira de sol, depois de ter chorado compulsivamente por um longo tempo ali sozinha (meu namorado estava trancado no quarto escuro de cortinas fechadas) O relacionamento mais importante da minha vida (mais que meu casamento) tava acabando . A diária do hotel também. Eu quis só dar um mergulho na piscina pra afogar de vez aquilo. Peguei o celular pra me olhar na câmera frontal porque depois de ficar insone/brigar/chorar eu não devia estar com uma cara muito boa e foi quando tirei a foto, sentindo um pouco de pena e graça da expectativa que aquele maiô carregava. Postei a foto cortando meus olhos inchados. Para a internet: só mais uma selfie sensualizante de uma mulher qualquer. Pra mim o registro de um fim de uma era.

Cena 2: No meu trabalho, há algumas semanas fui informada sobre uma usuária “agressiva”, “nervosa” e que tinha ameaçado “cortar o cabelo e bater” nas servidoras que a atenderam, caso não tivesse seu problema solucionado. Realmente essa mulher gritou, tentou se impor assim e eu mesma, a fim de evitar maiores problemas dado os nervos alterados de ambas, a atendi. (Ela queria atualizar seu cadastro único, pra voltar a receber o Bolsa Família). Na conversa particularizada dias depois, mais calma e sendo ouvida com atenção, ela informou que era catadora de materiais recicláveis no lixão, mas que não tava podendo trabalhar porque descobriu-se soropositiva e já com baixa imunidade . Sem renda nenhuma, benefício social bloqueado e com um filho no colo. Falou que um dia antes dela chegar na unidade “exigindo” o atendimento, seu companheiro a espancou (me mostrou feridas ainda recentes na cabeça) e saiu de casa porque ela falou que tava grávida (dele) novamente. Para quem a atendeu era uma louca agressiva, pra ela mesma era a última instância do desespero.

Cena 3: Uma mulher após perder o vôo, ficar desabrigada num pais que não é o seu, esperar por dias uma conexão, horas sem comer e dormir, desesperada e exausta pela situação, estende um paninho no chão à sua frente e coloca seu bebê deitado ali em segurança (sim porque se colocasse no banco ao lado ele poderia rolar e cair) para poder falar ao telefone e encontrar a solução para aquilo ali que vivia. Alguém (que duvido muito perguntou se ela precisava de algo) passou, tirou uma foto, muitas conclusões e postou na internet. De repente essa mãe virou ré (mais uma) na rede mundial de computadores. Um segundo. Um instante e de mãe preocupada e protetora, ela virou a mãe negligente e ausente.

Questão de perspectiva.

A verdade é que ninguém sabe o que a outra pessoa está passando. As cicatrizes que mais doem não saem em selfies. Ninguém sabe a luta diária que cada um enfrenta para sei lá, estar de pé agora trabalhando, tomando um café, dividindo o transporte público com você ou sei lá, fazendo um comentário na internet.

Nas redes sociais especificamente, só mostramos o que é bonito (claro), mas é bom lembrar ninguém tem a vida perfeita. Uma taça de vinho postada pode ser solidão e não ostentação, por trás de uma foto linda de por-do-sol pode ter um coração melancólico e não grato, aquelas fotos de viagens paradisíacas não contam os bastidores, os perrengues, as brigas do casal que parece saído da novela global das 7.

Nem tudo que parece é. Nem tudo que somos em um instante determina o que seremos pra sempre. O que as pessoas mostram geralmente é só um retrato (nem sempre fiel) de um momento, não pode ser nunca uma sentença.

Ser empático, respirar fundo antes de julgar e esperar o melhor dos outros, ainda que não seja o que eles estão demonstrando naquele momento não é fazer papel de trouxa (vamos parar de demonizar os sentimentos bons que ainda temos?), é entender que cada um já carrega sua própria bagagem de dor e sofrimento, logo, ser legal com todos vale a pena sim. (E parar de reclamar da própria vida porque o parâmetro de comparação é a do outro, digo, a que o outro quer mostrar é também é um caminho para a paz interior).

Pela minha experiência (no trabalho e na vida) percebo que quem é mais agressivo, quem mais cria problemas, tretas, quem mais quer afirmar sua pseudo felicidade ou arrogância ao mundo e as pessoas que parecem ausentes ou indiferentes são quem mais precisam da gente.

Ainda quero muito viver num mundo em que falaremos abertamente das nossas feridas, dores, que nos orgulharemos também das nossas cicatrizes, solidão, defeitos. Onde possamos pedir desculpas no Facebook (parar com essa cultura de “lacre”, que parece exaltar a má educação, as respostas rápidas e o fechamento de qualquer oportunidade de diálogo), tenhamos mais coragem de “fazer a Glória” e simplesmente admitir que às vezes não somos capazes de opinar mesmo (de formadores de opinião esse bagulho já está cheio), onde possamos mostrar nossas vulnerabilidades vez ou outra e parar um pouco com essa ditadura rivotril da felicidade eterna.

Mas enquanto isso não acontece, podemos apenas considerar que a gente pensa que sabe, mas não sabe? Uma foto é só uma foto. Um like é só um like, um momento é só um momento e não estamos aqui numa grande inquisição. E a internet não é um tribunal.

Antes de xingar alguém no trânsito, cobrar simpatia demais da atendente na padaria ou sofrer pelo silêncio e frieza do seu crush, pense nisso: V-O-C-Ê N-Ã-O S-A-B-E.

É fácil pedir mais amor por favor e dizer que gentileza gera gentileza. Difícil é praticar. Mas se esforçar, a gente consegue. O paraíso é o outros.
(No caso do meu namorado, eu fiquei muito arrasada à épca. No dia que ele terminou comigo o achei frio, insensível, monossílabico, covarde. 1 ano depois, agora recentemente, o reencontrei e ele me falou que passou por um processo depressivo e que foi naquele dia que ele se deu conta dos gatilhos que desencadearam isso. Que não tinha nada a ver comigo).

A dor da gente não sai no jornal.

Queria terminar falando que o essencial é mesmo invisível aos olhos ou que a dor é inevitável e o sofrimento opcional, mas além de esgotar o limite de auto-ajuda do dia, só queria comprovar minha teoria de que vocês não sabem: aposto que tão pensando “ai como a Marilia é sensível e legal, e humana e …” GENTE, ESSE POST É SÓ UMA OPORTUNIDADE PRA POSTAR ESSA FOTO NOVAMENTE, ok? Risos.

(Lição essencial: sofrendo ou não sofrendo, sensualize sempre).

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