O amor e o poder

Ontem eu conversava com uma amiga sobre um meme que tá rolando por aí que diz assim “Namore um homem que não tenha medo do seu poder”. Ironizei que a continuação deveria ser: “Ou seja, amiga: seja feliz solteira mesmo, porque né…risos, tá difícil ” e problematizamos um pouco sobre o que já vinha refletindo há um tempo. Isso de que os homens não tão acompanhando mesmo essa geração de mulheres fortes pra cacete (ou pra buceta, no caso) e tão sim, ficando à margem, aquém, deixando a desejar, enfim, insira aqui (_________________) qualquer outro adjetivo que alguém chamará de mimimi mesmo.

Daí hoje o deputado com essa fala infeliz: “as mulheres de verdade não querem ser empoderadas, querem ser amadas” me veio mais coisas à cabeça.

A noção de amor que nós mulheres recebemos desde a infância é realmente inconciliável com a de uma mulher empoderada.

O amor que nos é ensinado desde cedo é mesmo um amor que silencia e abaixa a cabeça. A começar pela maldição dos contos de fadas que romantizam abusos e introjetam a eterna idéia que devemos esperar (belas, recatadas e do lar) um príncipe vir nos salvar de nossa vã existência. A idéia de princesa, de passividade, do amor como um sentimento romantizado e irreal (É irreal. Felizes para sempre não existe!) é de um fardo e uma opressão sem tamanho.

Por mais bem-sucedida e feliz que você seja, ainda será (e até muitas vezes mesmo se sentirá) incompleta se não tiver um homem do lado. Os conselhos e mensagens que uma mulher minimamente “empoderada” ouve no decorrer da vida é:

“Não pague a conta”, “Homem se assusta com mulher independente”, “Ele está inseguro, não o assuste”, “Não grite com seu marido”, “Quem vai querer uma mulher que age como um homem?”, “Deixa ele se sentir no comando”, “Você tem que prender ele na cama”, “Ele tem ciúme porque te ama” e tantos outros.

13092186_1065968603477127_5010500539462400554_n

(E eu não tô falando da revista Nova e as “5864 dicas infalíveis de surpreender o gato com um sexo oral incrível”).

Tô falando de mim, das minhas amigas, to falando da maioria das mulheres fodas que conheço. Uma geração de mulheres que até cresceu assistindo Cinderela, mas um belo dia (resolveu mudar e fazer tudo que queria fazer) se deu conta de seu poder e acabou batendo de frente com uma puta crise existencial:

eu não sei amar sem ser submissa. Ou: como amar e ter voz? Ainda: até tô sabendo amar e lidar com meu poder, mas meu parceiro não.

Isso é uma coisa.

A outra é:

Feministas não são mulheres “de verdade” porque “Mulher de verdade”, como diz a música, não é aquela que sequer questiona sua fome? (“Meu filho o que se há de fazer?” – Ai que saudades da Amélia), imagina se questionará homem um dia né? E tamo aí questionando tudo.

Também faz sentido ainda chamar feministas de “mal-amadas” numa sociedade que ensina que amor é sinônimo de silenciamento. Realmente, nesse caso, por esse prisma de amor, eu topo. Sou mal-amada mesmo (mal comida jamais). Ponto.

Não quero também um amor que vez ou outra aparece como causa de um assassinato. Ainda é normal ver manchetes de jornal por aí dizendo “homem mata esposa por amor” ou “mulher é vitima de crime passional”.

Sei que amor não mata. Como feminista (mal-amada) sei que o que faz os homens matarem mulheres todos os dias (o Brasil é o 7º no mundo nesse ranking) não é amor, é a sensação de PODER que eles tem sobre nós. (“Se não for minha, não será de mais ninguém”, conhecem essa expressão?).

 E aí fica tudo fica muito claro porque não interessa ter mulheres empoderadas e sim mulheres “de verdade” no mundo né? E porque é tão mais fácil enfiar um conceito de amor passivo e silencioso goela abaixo.

Pra um homem que sabe que poder mata, nada mais assustador que uma mulher com ele (o poder). E nada mais ameaçador para ele (o homem) uma mulher poderosa ao seu lado.

Só que assim como feminismo não é o contrário de machismo. (Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais).

Vamos desconstruir a idéia de que amor é antítese de poder.

Vamos falar de amor (chamem o Marcinho) com nossas filhas. Amor, gente. Dá pra ter poder, amar e ser amada, dá sim. Aos nossos filhos vamos dizer que o poder feminino não mata (ao contrário do masculino). A mulher empoderada de hoje é o mito da “vagina dentada” de antigamente. 2016 e ainda alimentamos lenda urbana.

Às nossas filhas, ao invés de contos de fadas, vamos dizer (o que aprendi a duras penas, ainda venho aprendendo e digo pra todas as mulheres que eu tenho oportunidade) : amor só existe quando a gente tem voz.

Não dá pra querer amor de quem não considera a gente enquanto mensagem no mundo. Homem que te ama e aceita seu poder é o que se interessa pelo que você tem a dizer, pelo que a sua história diz, que considera a sua singularidade. Qualquer coisa fora disso fora é consumo e não amor. Se você não tem voz, se não pode ser você mesma, é melhor ficar sozinha (e ser chamada de mal-amada).

E é isso que incomoda o deputado lá e seus amigos né?. Conveniente mesmo é ter as mulheres bem caladinhas , “amadas” e felizes fazendo a janta – que não pode ser sopa – enquanto eles decidem no plenário sobre o futuro do nosso útero.

Bom, pra citar mais uma música (tô bem musical hoje). A gente não quer só ter voz mesmo. A gente quer comida e quer fazer amor.

Amor e poder.

(Ps: eu fui colocar o título no texto e obviamente saiu a música “como uma deusaaaaaa, você me mantééééém”. Até que achei apropriado. Leiam de novo, agora escutando:

Ps2: eu aproveitei os texto pra problematizar todos as ultimas polemicas e memes juntos. Se organizar direitinho, tem treta todo dia. Com calma mundo!)

 

Advertisements

Livre, respeitada e de onde quiser

13001073_975465632522179_2297018686031711772_n

A reportagem (se é que isso pode ser chamada de uma) da revista Veja de ontem nos mostra para onde estamos caminhando. Para trás.

Saímos do “toda menina pode sonhar em ser uma presidenta da República” para “lugar de mulher é nô âmbito doméstico, à sombra de um homem”.

Saímos da figura de Dilma, uma mulher cujo slogan de campanha era “coração valente” para entrar na figura de “Marcela, a bela moça recatada de vestidos na altura do joelho”.

Saímos do “lute como uma garota” para entrar em “sua função no mundo se resume a sua aparência física”.

Politica se faz com símbolos.

Não se enganem, o golpe de domingo não é somente contra a democracia,é contra a Dilma, MULHER sim ! e tem muita misoginia e ódio por ser uma MULHER sim! ocupando aquela cadeira.

Nunca aceitaram sequer a flexão do gênero na palavra PRESIDENTE, gente. É um A que eles não aceitam.

Para eles, nosso lugar é no tanque, é em casa, é na reunião de “pais” dos nossos filhos.

Sobre a Dilma, simbolicamente falando, pesa o manto do patriarcado e do machismo.

Não é pouca coisa ser a primeira mulher a governar um país do tamanho do Brasil. Junto com isso (ou também por causa disso) as mulheres foram se organizando e não-mais se silenciando num movimento que foi chamado, ano passado, de a “primavera das mulheres” por alguns. A gente se levantou. As mulheres tomaram as ruas, saíram “do lar” de onde não queriam que saíssemos (assim como a casa grande surta quando a senzala aprende a ler).

2015 foi um marco civil e politico no feminismo brasileiro, um movimento reavivado nas ruas e redes.
2016 já aponta para o retrocesso.

Fiquem atentos: num dia um parlamentar exulta um torturador, estuprador e assassino de mulheres. No outro, já querem vender o modelo ideal do que é ser mulher (e essa mulher é jovem, branca, magra, “se dá o respeito”, usa saia comprida e NÃO FALA).

Primeiro-damismo é das coisas mais atrasadas da nossa sociedade. Significa afirmar que nascemos com função secundária. Não aceito sequer esse termo, que ao meu ver, já devíamos ter superado.

Quem já foi presidentA jamais se conformará em voltar a ser primeira dama. Tá avisado.

E à VEJA fica o recado: minha saia seguirá curta. Continuarei sendo não-recatada e meu lar é o palanque. Não nos calaremos nunca mais. Nunca mais. N-U-N-C-A M-A-I-S.

(Post original aqui e aqui)