Aprendi com minha mãe

Aprendi com minha mãe sobre linguagens de amor. Uma vez dei uma gravatinha de papel (que fiz na escola) para o meu pai e ele desprezou. Na hora aquilo me doeu, mas depois que eu descobri uma gaveta da minha mãe, cheia de desenhos e declarações minhas, junto com meu primeiro vestidinho, sapatinho, pulseirinha da maternidade e outras coisas, me dei conta que simplesmente as pessoas amam (e demonstram) de forma diferente. Então tava explicado: minha mãe era das minhas. Colecionava memórias e guardava amor em pequenos gestos. Ela se importava com declarações escritas, com lembrancinhas sem valor financeiro, com pequenas doses de gentileza. Meu pai? É de outra praia e isso não quer dizer que ame menos, só que ama diferente.

Minha mãe guarda até hoje um desenho que fiz: ela cuidando de bebês. (Nessa época ela era estagiária de enfermagem na Obstetricia). Isso deve ter uns 25 anos.

Minha mãe fica feliz ganhando um bombom recheado ou um ingresso vip pro show do Roberto Carlos. É uma delicia comprar presente pra ela: fica feliz, experimenta a roupa, rasga o embrulho, usa a coisa na hora, agradece com os olhos brilhando. Ela sabe que merece.

Minha mãe nasceu pra ser amada, ela sabe aceitar. Humildade é isso: saber receber e saber dar. Não é humilde quem não sabe receber. Minha mãe é uma recebedora nata.

Mas minha mãe é também uma doadora universal, tipo meu tipo sanguíneo. Minha mãe doa tudo. Minha mãe dá presentes. Pra todo mundo. Minha mãe dá presentes para as diaristas lá de casa, pros colegas de trabalho, pra todos os aniversariantes da família, pra mim então…fui a mais agraciada! Se tem uma coisa que lembro da minha infância é de esperar ansiosamente ela chegar do trabalho, só pra correr e perguntar “o que a senhora trouxe de bom pra mim hoje?” e SEMPRE tinha alguma coisa. Podia ser um chocolate branco (que eu e ela amamos), um pirulito, uma revistinha, um arranjo de cabelo… qualquer coisa. Minha mãe me ensinou que a felicidade está nas coisas simples da vida, a ter prazer em receber, a ver gentileza e cuidado nas mínimas coisas. Minha mãe me incentivou a gostar de amor em doses homeopáticas.

unnamed

Teve um tempo que eu não a via chegar em casa. Minha mãe trabalhava o dia todo e fazia faculdade à noite. Vinha de ônibus, quase de madrugada, com meu pai, que também estudava. Eu ficava com minhas irmãs. Na maioria das vezes, dormia orando pra eles chegarem bem. Eu tinha medo de assalto, de acidente, eu tinha medo de perde-los. Minha mãe me ensinou o que é alivio quando eu sentia ela me cobrindo com o cobertor quando chegava. Ela não devia saber na época, mas eu sentia. Sentia paz, sentia cuidado, sentia acolhimento. Dormia tranquilamente.

Hoje, imagino que talvez ela tenha sentido culpa, medo, insegurança. Imagina uma filha pequena (eu devia ter uns 5 anos) sendo cuidada por outras duas ainda pré-adolescentes enquanto você sai pra colocar a comida na mesa. Não tínhamos empregada. Minha mãe ensinou minhas irmãs sobre responsabilidade e união. Eu sobrevivi e mãe, sobrevivi cheia de orgulho dessa história. Minha mãe me ensinou que ser só mãe não basta e que é sempre tempo de correr atrás do que se quer.

Lembro da formatura do meu pai até hoje. Inventei de passar minha própria roupa e ganhei uma queimadura na barriga. A cicatriz ta ai até hoje me lembrando da minha falta de habilidade com coisas domésticas. Risos.

Por falar em habilidades domésticas: minha mãe me ensinou o que é prioridade na vida. Ela, nessa rotina exaustiva, nunca teve obsessão por uma casa impecável e nunca, nunquinha perdeu uma noite de sono por causa de uma pia cheia de louça. Entre descansar ou fazer uma faxina, minha mãe descansava. Ela dormia até mais tarde aos finais de semana, às vezes cochilava a tarde. Minha mãe nunca passou a imagem de Amélia, mulher subserviente ao lar, nunca vestiu  a carapuça de “Super Mulher” e isso fez muita diferença na mulher que sou hoje. Sou uma mulher que não se deixou oprimir por estereótipos do que é uma boa mulher. Obrigada, mãe.

Minha mãe é uma mulher que sabe viver a vida. Talvez seja por isso que nunca a vi reclamando. É sério: ela NUNCA reclama de nada. Minha mãe é leve, minha mãe é feliz, minha mãe é sem estresse, minha mãe me deu esse legado. Eu também prefiro dormir até mais tarde, também sou fã de praticidade e tenho como uma verdade da vida que se reclamar não muda nada, pra que então? Amo meu trabalho, minha rotina, eu agradeço até pelos problemas. Ela foi meu espelho.

Dona Sandra também nunca foi uma exímia cozinheira. Até se vira, mas admite pra quem quer ouvir que não gosta de cozinhar. Entretanto, pra equilibrar, se aperfeiçoou no quesito sobremesas e olha, ela faz o melhor pavê de sonho de valsa e bolo de chocolate do mundo, sem exageros. E ela me fez e ainda faz muito feliz quando deixa a gente lamber a forma da massa do bolo. Pequenos prazeres.

Minha mãe é uma mulher vaidosa. Comecei a gostar de batom por causa dela. Lembro dela se arrumando pro trabalho algumas vezes. Lembro do cheiro que deixava (e ainda deixa) pela casa quando saía, porque sempre amou perfumes. O cheiro da minha mãe é doce e forte, como ela. Fica nas roupas, fica na casa, fica na gente. Fica na memória. Se eu pudesse fazer um pedido pra Deus hoje, pediria pra encapsular esse cheiro. Pra ele nunca sair da minha memória (afetiva), mas também pra distribuir pra todo mundo. O mundo seria melhor.

Em relação ao trabalho, minha mãe se aposentou no mesmo setor que entrou, com 17 anos. Morro de tédio só de imaginar. Nisso somos opostas, mas ela me ensinou o que é ser uma profissional excelente. Minha mãe não teve uma falta, uma reclamação, não deu um atestado. Todos amavam minha mãe: de médicos chefes a pacientes em estado terminal. Ela tem um senso de responsabilidade gigante, o maior que já vi e que adquiri observando. Minha mãe recebia presentes e mais presentes, apenas por fazer o que um servidor público de verdade deveria fazer: servir bem o público. Ela tratava todos com igualdade, respeito e gentileza. Valeu mãe, é da senhora que eu lembro todo dia quando atendo meus usuários.

Hoje ela é aposentada e mesmo tendo se dedicado tanto ao trabalho, não sente falta dele. Nunca esteve tão disposta, feliz, jovem e bonita. Minha mãe é rainha de si mesma. Ela usa redes sociais, assiste programas de tv, malha todos os dias, corre na esteira, participa de grupos de oração, de mães, manda piadas no whatsapp, viaja sozinha com meu pai, aprende tutoriais de tudo no youtube, sabe de tendências de moda, jaja vira blogueira. Um dia é pouco pra ela. Ela me ensina sobre aproveitar o tempo.

Minha mãe me ensina sobre tudo o tempo todo, sem dar lição nenhuma.

Aprendi com ela que afagos de mãe são definitivos. Pra sempre me lembrarei do cobertor à noite, do chocolate quando vinha do trabalho, do leite com nescau já frio que eu encontrava ao meu lado ao acordar (ela deixava quentinho ao lado da minha cama, mas como saía muito cedo, esfriava), do lugar que eu achava entre as pernas dela no sofá, na hora de assistir Tv ( e eu caibo nele até hoje porque aprendi que colo de mãe é adaptável, ele sempre vai ser do tamanho que a gente está), do pijama que guarda pra mim até hoje, pra quando eu vou dormir lá.

Aprendi com minha mãe que dá pra amar pequeninho, que alguns desenhos de caneta bic não desbotam, que cheiro não se esquece, que gentileza é o amor em movimento, que quando a gente tá com a mãe da gente não sente medo de nada (a não ser dela mesmo), que a vida é bonita, leve, parafraseando o poeta, que “pode ser maravilhosa”.

(Observação: O título do post e a idéia desse texto veio desse livro aqui , que li em Julho desse ano)

Advertisements