Agosto


image

Acordo 7 h com meu despertador tocando Nação Zumbi. (Saiba como aprender a odiar uma música: coloque-a como seu despertador). Meu plano era chegar mais cedo no trabalho para poder tirar mais horas no almoço. Opa, essa essa casa não é a minha.
Alguns segundos de “onde estou, dormi com quem?”.
Estou só de calcinha e camiseta (de ontem). Bebi um pouco. Será que fiz besteira?
Luana acorda lendo Chapolin Sincero pra mim. “É impressão minha ou agosto tem 365 dias?” Ufa. Sorrio.
Lembro da noite anterior. Dignidade ainda comigo (apesar das fotos bregas e felizes achadas no celular e de lembrar que tirei o sutiã no meio do show. Ok. Antes o sutiã que a blusa).
Acordo de bom humor.
Me arrumo rapidamente.

Por que eu bebi ontem e que cabelo é esse? Vai assim mesmo.

Sinto cheiro de chá e de ovos. Luana fez omelete. E torradas. E me deu opção: “chá ou toddynho?” Toddynho claro. Que amor.

Quanto tempo não tomava café decentemente ou acompanhada. (Apesar que uma vez ganhei mexericas descascadas. Se isso não é amor, o que mais pode ser?).

Penso que todas as últimas vezes que dormi com alguém fui embora na madrugada ou fugida de manhã cedinho.

Lembrei das conversas com uma amiga que disse que eu não me abro e que sou blasé. Não aprofundo esse pensamento. Tá muito cedo pra crise existencial.

Lembro de um cara que postou um textão filosófico conceitual no facebook sobre o “seu lugar na objetificação sexual masculina” depois que eu fui embora da casa dele com ele dormindo. E não deixei mensagem. Só não fiquei ofendida porque não entendi muito bem o texto. Aliás, fiquei de mandar pra Luana ler. E me explicar. Lembro que encontrei ele no show de ontem. E ele não falou comigo.

Me questiono se sou escrota. (algo dentro de mim me censura e diz que o escroto foi ele, mas calo essa voz rapidamente) e porque ainda não exclui ele dessa rede social.

Ah, foda-se a meia hora pra chegar mais cedo no trabalho. Tomo café com a Luana. Mereço.

Caramba, 8:40 h, vou chegar atrasada. Desço correndo. Beijo na Luana. Aviso que peguei um sapato emprestado. No caminho pro trabalho agradeço mentalmente por ter amigas incríveis.
Coloco uma música e danço. Só eu danço dirigindo?

Trânsito semi congestionado. Droga, vou chegar atrasada mesmo. Por que eu tô sempre atrasada?
Uma rápida olhadinha no whatsapp. Putz, tenho tanta gente pra responder. Mensagens de sexta passada.

Chego no trabalho com 10 minutos de atraso e vou direto pra labuta, sem os 15 minutos de enrolação que levaria para tomar um café preto feito pela menina da limpeza e engolir uns biscoitos água e sal.
Trabalho.
Ligações.
Email de encheção de saco do pai do meu filho. Respondo civilizadamente ou mando se fuder? Não, vou ser de boa.
Porém nota mental: usar sempre camisinha. Por falar em coisa boa lembro que entro de férias depois de amanhã. Mas sem viajar. E sem dinheiro. Paciência.

Atendo um homossexual que foi espancado… Por ser homossexual. Sem família. Tava com o olho roxo. E sua família? Pergunto. “Não tenho. Não me aceitam como sou”.
Mundo escroto.

Penso que não posso absorver tudo isso pra minha vida pessoal. Como não?
Ofereço um café pra ele enquanto conversamos. Ele diz “ai brigada, tô numa ressaca”. Penso em dizer “eu também”. Mas não falo.
Faço os encaminhamentos.

Vou ao banheiro, me olho no espelho e desejo perder 3 kg, que provavelmente estão concentrados todos na minha bunda. Paciência.

Entro no facebook (site).Dou uma lida geral no feed. Ninguém merecendo meu like.

Começo um relatório.

Outra família pra atender. Estupro.

Putz, passou meia hora do almoço.
Vou correndo ver meu filho que tá doente. Beijo o filho. Vejo remédios do filho. Tem tarefa da escola do filho. Não deu tempo. Deixo pra noite.
Almoço interrompido a cada 30 segundos por “mããããe”. Comida esfriou. Ok. Paciência.

20 minutos restantes pra voltar ao trabalho: 10 pra cochilar. 10 para o percurso. Oba. Deito. Que delicia.
Sinto mãozinhas abrindo minhas pálpebras.Só queria cochilar. Não deu. Paciência.

Voltar para o trabalho.

No caminho vejo que o carro tá na reserva. 20 reais na carteira. Cartão ficou na outra bolsa. Penso que esse lance de trocar de bolsa é tipo sair com mais de um cara ao mesmo tempo: requer muita logística pra pouco prazer na prática. Acho que vou investir numa bolsa só mesmo.

Abasteço e vejo que não dá mais pra postergar: tenho que calibrar os pneus.
Droga, logo hoje que estou de vestido justo.

Nunca sei quanto colocar. Tenho vontade de perguntar pra um boy magia e já aproveitar pra puxar um assunto, já que “você é blasé”, critica de uma amiga, não sai da minha cabeça.
Resolvo apelar pro google mesmo, afinal, ao menos ele não faz joguinhos nem é monossilábico.
Diz que o ideal é 30 libras. Enquanto calibro ouço buzinas. Respiro. Vou ficar de boa.
Um cara grita: “Mas que rabo!”. Fico puta. Quero xingar. Quero mandar ele dar meia hora de bunda. Respiro.
Penso que talvez dar meia hora de bunda seja uma coisa boa. Sorrio.
Talvez meia hora seja muito tempo, concluo.
Penso em perguntar isso pra algum amigo gay. Lembro do homossexual espancado. Tenho vontade de chorar. Ainda estou calibrando os pneus.
10 minutos atrasada.
Penso em como o mundo é opressor.
Enquanto dirijo dou uma olhadinha no whatsapp.
Penso no porquê os homens serem tão monossilábicos. (Se Bukowski tivesse rede social ele mandaria emoticons? E nudes? divago. Quase avanço o sinal vermelho. Mais um). Penso nas minhas amigas incríveis e que reclamam de homens monossilábicos.

Eu penso demais.

Chego a conclusão que os homens estão meio aquém do bando de mulherio foda que tem por aí. Quero escrever um texto sobre isso. Eu escrevo demais.
Cheguei.
Reunião.
No meio percebo que as minhas mãos ainda estão sujas.

Atendo uma família. Caso light. Só ameaça de morte.

Olho o whatsapp. Penso que se uma pessoa não se dispõe a te responder usando no minimo três palavras é porque ela não quer falar com você. Depois eu que sou blasé?

Mensagens no snapchat. A única rede social que me atrai ultimamente. Pelo menos algo ainda tem me atraído, concluo tentando ser otimista.

Ligo pra corretores de imóveis. É mais fácil encontrar o amor verdadeiro do que um apartamento legal.

Internet do trabalho acaba. Oba, dá pra responder algumas pessoas no whatsapp. Falo de sexo, filhos, fotografia, política e dou conselhos amorosos.
Escuto alguns.

Me questiono se sou escrota. Já estamos no meio da tarde e já dá pra ter crise existencial.

Começo a escrever a pauta pra minha consulta no analista quarta. Talvez tenha que pedir horário duplo.

Lembro do homossexual espancado. Tenho vontade de chorar. Checo se estou na Tpm. Não estou.

Hora de ir embora. Chega gente pra atender. Nada grave. Agendo pra amanhã. Não me sinto culpada por isso.

Chego em casa.
Estaciono o carro. Não desço. Preciso de 15 min só pra mim. Mas resolvo responder uma mensagem no whatsapp. Audio. Putz, passei 1 hora dentro do carro. Subo.

Filho me demanda muito. Estou mal humorada e sem paciência. Me sinto culpada por isso.

Me olho no espelho pela segunda vez no dia e desejo perder 4 kg ( sim, 1 a mais porque provavelmente ganhei esse retendo líquidos durante o dia).
Dou uma googlada sobre retenção de líquidos. E penso que talvez o cara que gritou sobre o meu rabo mais cedo não estivesse me cantando. Ainda bem que fiquei de boa.

Talvez eu seja de boa.

Vejo que preciso arrumar o cabelo. Corto ou não corto?

Filho me chama. Fujo pro banheiro. Tomo um banho de 10 minutos. Agora sim só eu e eu. Doce ilusão. Ouço “mããããe” do outro lado da porta. Deos, quando eles param de nos chamar?
Lavo o cabelo. Escovo o cabelo.

Compro um vestido maravilhoso. Eu mereço.
Me sinto culpada, capitalista consumista e que desvia o foco das coisas, mas ok.

Filho faz birras pra chamar minha atenção. Converso. Respira. Não pira. Ele chora. Fico brava. Ele melhora, pede desculpas. Eu pego no colo. Abraço. Beijo.
Tô saindo do salão com meu filho. Ainda estou com a mesma roupa que trabalhei. E calibrei os pneus. Um cara passa e fala “mas você está maravilhosa hein?”. Respondo que não perguntei. Acho que não sou tão de boa. Paciência.
Fico com vergonha pelo meu filho. Talvez eu não devesse usar mais esse vestido. Ou talvez os homens devessem ser menos escrotos. “Meu filho, não seja um homem escroto” talvez seja um bom ensinamento. Só penso.

Chego em casa de novo. Meu filho pede colo. Como esse menino cresceu.

Esqueci que não como nada desde o almoço. São 21 h. Janto sopa. Excepcionalmente tô na casa dos meus pais.

Penso num audio que recebi. Penso sobre relações vazias e amor livre. Sinto falta de conexões e trocas reais. Lembro que “rejeitei” quase 5 mil caras no Happn.
Tenho medo de castigo divino. Porém lembro dos matchs e crushs: quantos passaram de um número a mais no whatsapp ou na minha listinha? As pessoas estão mais desinteressantes? Eu que tô exigente? Ou chata? Acho que a última opção. Virei uma mulher que fala “conexões” e quer perder 4 kg.

Tô precisando de um detox de gente. Penso.

Meu filho quer ficar grudado. Eu só queria ficar sozinha. Ele dorme. Lembro que não fiz a tarefa com ele. Me sinto culpada, mas prometo que amanhã vou acordar mais cedo pra fazer.

Olho o whatsapp: muitas mensagens pra responder. Não vou. Vou ser monossilábica agora. E fazer joguinho. Ou ser misteriosa. Não consigo.

Definitivamente não sou escrota.

Penso. Por que tanto? Só queria relaxar.

Abro o instagram: todo mundo é feliz. Posto esse texto que mistura tempos verbais e confusões mentais lá. Apago. Fiquei com vergonha. Lá todo mundo é feliz.
Deito. Vou dormir. Sem pensar. Tenho que responder as pessoas. Não consigo.

Penso demais.

Amanhã não posso sucumbir ao modo soneca. Tenho tarefa de filho e atendimentos. E mensagens. E planos. E culpas. E é véspera de férias. Mas sem viajar. E sem dinheiro. Paciência.

Resolvo postar esse texto no facebook porque baixei o app de novo só pra excluir o cara que disse que eu objetifiquei ele. Não tive coragem (de excluir, de postar ainda tenho. “Post like nobody’s watching”. Meu lema.  Apesar que me arrependo e apago às vezes). Anoto mais essa pauta pro analista quarta. Apago o post que já tinha 13 curtidas e 7 comentários. Na madrugada. Não sei lidar com likes. Não sigo de volta.

Me dou conta que fazia mais de 14 dias que não postava nada lá/aqui. Muitos joinhas, pouca interação. Nem o Zuckerberg escapou do meu bode.

Me questiono porque eu apaguei o app (o do face, porque os de encontro já expliquei) e lembro que é porque o celular estava sem memória. Meu iphone é o oposto de mim. Lembro de tudo.

Penso demais.

Dou uma última olhada no
whatsapp: respondi uma mensagem. de um cara. Ele é bonito e fofo e não-monossilábico, mas não vou ao encontro amanhã.
Me sinto culpada, só que não tô a fim. Paciência.
Consegui dizer não. Vou falar isso também pro meu analista na quarta. Acho que não sou escrota.

Observo meu filho dormir. Parece um anjo. Dou um beijo e digo no ouvido dele que amanhã vou tentar ser melhor.

Estou cansada. Não estou dormindo na minha cama de novo. Agosto tem quantos meses, Chapolin Sincero? Coloco celular pra despertar às 7 horas. Vai tocar Nação Zumbi. Mas ao menos na quarta estarei de férias (sem viajar e sem dinheiro, mas ok, paciência), terei consulta no analista e os pneus do meu carro já estão calibrados. Quem sabe eu ache um apê legal e consiga não pensar sobre tudo. Só ser de boa. Paciência.

Advertisements