Parindo e andando: o parto de Kate e a medicalização das nossas vidas

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A duquesa de Cambridge Kate Middleton deu à luz ao bebê real. Tudo certo, não passa de mais uma manchete dos sites de noticias e celebridades, certo?

Errado.

O parto e a recuperação no pós-parto da duquesa roubou a cena nos últimos dias. Kate apareceu para a imprensa, algumas horas após o parto, linda, radiante e feliz com a cria no colo e isso…incomodou as pessoas.

Um jornal russo questionou seu parto e afirmou: “Impossivel estar tão bem”.

Bom, antes de falar um pouco disso, vale lembrar da patrulha que a mesma Kate sofreu, após parir seu primeiro filho e surgir digamos, ainda barriguda, ou com seu corpo recém-parido (e não com a barriga chapada como estamos acostumadas a ver celebridades exibindo) para o mundo. A polêmica foi porque, bom, é isso que a sociedade espera de um corpo que abrigou outro por 9 meses: que em menos de 48 horas ele já esteja dentro do padrão, bonito e apresentável, ainda mais se tratando de uma princesa/duquesa/whatever.

Isso sim é impossivel. Portanto, obrigada Kate. Somos mulheres reais (sem trocadilho).

Agora, no caso atual, me espanta tanto alarde pelo que deveria ser natural. N-A-T-U-R-A-L. Parir é natural, gente.

Vamos lá, anote aí: VAGINAS FORAM FEITAS PARA PARIR (desculpa desapontar os mascus que achavam que elas eram só a diversão de vocês). MULHERES SABEM PARIR. O CORPO FEMININO ANATOMICAMENTE É PREPARADO PARA PARIR.

Agora que já temos esse pressuposto, vamos lá de novo: por quê tanto espanto em ver uma mulher que aparece saudável e disposta logo após parir? Por que questionam o parto da moça? (Que aliás, pouco importa se é uma princesa ou uma plebeia, mas como é uma pessoa pública, fica visível o burburinho).

Simples: porque incomoda ver uma mulher protagonista do seu corpo, do seu parto, da sua saúde. Se Kate tivesse feito uma cesárea bem sucedida e surgisse igualmente bem e saudável, as pessoas estariam exaltando a medicina, a tecnologia, o médico que a operou.

Kate simplesmente pariu.  Kate surgiu com seu corpo recém-parido. Kate apareceu saudável após parir. Kate, uma mulher dona do seu corpo, da sua sexualidade, do seu parto, da sua saúde. Kate afrontou o sistema.

(Não estou defendo a família real britânica. Se querem saber, odeio monarquia e tudo mais. Não estou dizendo que Kate é exemplo a ser seguido, nem dizendo que é uma revolucionária porque pariu. Poderia ser a Madonna, a Sandy, a moça do telejornal, mas foi a duquesa. Ela é só a ilustração do post).

Mas enfim, saibam que um parto, como acontecimento fisiológico e natural, humanizado, um parto tranquilo, com uma mãe tranquila e empoderada (desculpa aí, sei que odeiam essa palavra) gera um pós-parto igualmente tranquilo e natural. Uma vez que a criança sai, placenta é expelida, a vida segue normalmente. Disse no meu relato de parto que em parto normal não tem recuperação, tem curtição (do bebê gente, não festa vida loka regada a vodka e gogoboys, ok?).

10521728_665115413557204_9197254555721434747_n                                                                       (Eu recém parida #Chupa Kate)

Assim são os mamíferos. A mãe precisa estar bem pra cuidar da cria. Fomos projetadas pra dar certo, não pra ter intervenção cirúrgica e esperar por horas o efeito da anestesia passar.

Eu pari às 23:30 horas de uma terça-feira (pari assistindo BBB em dia de eliminação…chorei litros com o discurso do Bial. Me julguem) e meio dia da quarta-feira tive alta e fui pra casa. Depois de parir, e do meu filho mamar, eu tirar uma soneca com ele e tals, expeli a placenta. A obstetra e meu então marido na época levou o moleque pros procedimentos pediátricos e eu? Levantei do chão (pari num colchão) e fui tomar banho, aliás, o banho mais demorado da minha vida. Voltei, vesti uma camisola, peguei o notebook e sentei (no chão de novo) para tuitar, porque né, #prioridades.  Um tempo depois a equipe de enfermagem chegou, viu essa pessoa que vos fala sentada no chão com o notebook no colo, penteada e perfumada, perguntando: “Você viu a mulher que pariu?”. Falei: “Sou eu”. E elas demoraram um tempo pra acreditar.

Tô falando que toda mulher é assim? Não. Que todo parto é tranquilo?Não. Que todas saem sambando na cara do patriarcado? Não. Infelizmente não. Mas deveria. (E não tô desprezando nenhum tipo de parto ou situação pela qual alguma mulher que esteja me lendo, tenha passado).

O fato é que vivemos num tempo de medicalização da vida, do nascimento como um acontecimento da tecnologia e da medicina e não da mulher. Em que o NATURAL passa a ser visto como exceção.

Nossas avós pariam, nossas mães pariam e nós? Nós ouvimos de médicos que nossos corpos são defeituosos. Que nossa bacia é estreita (ouvi isso na primeira consulta e me senti ofendidíssima: oxe, minha bacia é ótima, sempre achei. #aloka), que somos magras demais, ou gordas demais, ou velhas, ou sedentárias, que temos pressão alta, que vai doer, que não vamos aguentar. Será que a anatomia dos nossos corpos, do tempo de nossas avos pra cá, mudou ou mudaram os valores?

A quem interessa cesáreas agendadas, com internação antes e depois? A quem interessa bebês com problemas respiratórios e varias intercorrências? Nascer virou um negócio, uma indústria. Uma mulher parindo e saudável não é compatível com ele.

Antigamente as mulheres pariam sozinhas ou com ajudas de outras mulheres, as parteiras. Hoje precisamos da figura do médico para dar a luz. Terceirização do nascer. E não tô aqui desmerecendo esse profissional tão importante, tampouco fazendo apologia a partos domiciliares sem assistência (antes que me chamem de índia, bruxa ou égua neaderthal – já fui xingada desses três nomes) e sim, fazendo um exercício de desconstrução da maneira como nascemos hoje.

Com toda essa repercussão do parto de Kate, me sinto como Bertold Brecht : “que tempos são  esses em que é necessário defender o obvio?”.  Mas com taxas de cesárea chegando a 53% no mundo e  80% no Brasil não fica difícil entender porque é parir é tão chocante.

Então, obrigada de novo Kate e durmam com essa verdade: o corpo é nosso, ppk idem, protagonismo também e vamos seguir parindo e andando pro machismo.

Nota da autora: na foto em que exibo essa barriga chapada, calça jeans 36 (ai, saudades) e coloco a hashtag Chupa Kate já tinha 20 dias de parida. E obviamente é uma brincadeira. E gente, maquiagem é vida.

Update: Para além de nossa capacidade de parir, do parto como um evento fisiológico, a assistência humanizada é essencial para que possamos desenvolver esse protagonismo e infelizmente esse direito ainda não é para todas.Leia esse texto e entenda porque “parir como uma princesa” deve ser uma luta nossa.

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