Mudar de lugar ou mudar o lugar?

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                                                                           *

Outro dia em uma discussão no Facebook falei sobre determinada cidade aqui do Distrito Federal, essencialmente habitada por servidores públicos e formada praticamente por prédios e condomínios. Águas Claras. Lá só se vê arranha-céus. Inteiramente de classe média, quase todos têm suas piscinas, seus play-grounds, suas saunas e academias. Cada prédio é um feudo. Cada feudo é uma ilha.

Me sinto estranhamente sufocada numa cidade sem casas, sem jardins, (praticamente) sem praças. Seus prédios altíssimos destoam completamente do padrão de Brasília, cidade planejada pra gente olhar o horizonte. O trânsito é caótico, há somente uma entrada e saída na cidade inteira, mas o que mais me incomoda é que ela virou o sonho de grande parte dos brasilienses. Um pouco mais afastada da região central, com muita oferta imobiliária, os novos servidores públicos, filhos e netos de quem construiu Brasília, encontram nela a possibilidade mais acessível de uma casa pra chamar de sua (e um status também, mesmo que seja contraditório “acessível’ e “status” andarem juntos).

Porém não é o fato de eu não gostar da cidade que quero ponderar e sim esse “sonho da casa própria”. Em Brasília o ditado é assim: “diga-me onde tu moras, que eu direi quem tu és”. Você é onde você mora ou você é a casa que tem.
Tenho 27 anos e já morei em 6 casas. Atualmente moro onde eu durmo. Risos.

A primeira mudança foi da casa onde morei do nascimento aos meus 15 anos. Extremamente apegada ainda. Me despedi de cada cômodo, de cada lembrança, de cada coisa vivida entre aquelas paredes. Eu ia, com meus pais e irmã, para uma outra cidade, totalmente diferente daquela. Mudaria de escola, de amigos, deixaria de frequentar os lugares em que eu me sentia segura, porque afinal só conhecia aquilo. (O tempo passou e eu sofri calada – não deu pra tirar ela do pensamento).
Era uma primeira grande mudança. Ou mudanças, porque uma casa nunca é apenas uma casa, é nosso lugar no mundo.

Mudei.

“Culpa” da minha mãe que simplesmente ~enjoou~ da casa que ela e meu pai se esforçaram pacas para comprar e decidiu querer novos ares, que arriscou sair da zona de conforto e foi tentar ser feliz em outro lugar. Simples assim. Do nada. Um dia acordou e falou: “cansei de morar aqui”.
Obrigada, mãe.

Daí em diante, mudei mais vezes e me viciei em mudar. Em todos os sentidos.
Quando casei e engravidei (ordem inversa), mudei. Mudei pra um apartamento grande, lindo e arejado. Queria crescer, a casa foi o reflexo.

Quando tava em crise no casamento, mudei. Mudei para um apartamento minúsculo, escuro e fofo. Queria acolhimento.

Quando me divorciei, renasci, cresci, virei chefe e mudei de novo. Mudei para longe dos meus pais, pra outra cidade que eu sequer conhecia direito, pra perto do novo trabalho. Mudei para um apartamento enorme, claro, feliz, no alto do seu quarto andar sem elevador. Subi muito na vida.

Quando tive um dos piores anos da minha vida, 2014, entreguei o apartamento, vendi os móveis e fiquei só com o mínimo de coisas, tipo o Chaves com aquela trouxinha no cabo da vassoura. Queria me livrar de várias coisas, queria ficar mais leve, queria respirar.

Praticamente só com a roupado corpo (tá, uma guarda-roupa cheio) e com meu filho a tira-colo, era o momento de recalcular a rota, pedir abrigo, aprender a viver com menos, redefinir prioridades, a conviver, viver-con. Fui ficar com uma tia que mora num palacete branco, de pilastras romanas, portões de museu, sol entrando pelas cortinas também brancas pela manhã, sendo acordada por três lindos e fofos cachorros. Numa vila que tem praça, parquinho (público, pra todos), mercadinho, restaurantezinho. Tudo inho. Muito amor.

No trabalho, literalmente a única coisa estável que tenho na minha vida, estava à disposição da administração pública, então eu poderia ser re-lotada em qualquer cidade de Brasília. Por isso, estava lá em stand by. Se isso me assustava? Nunca. Moraria onde fosse. Agora já tenho definição de trabalho, tô trabalhando na cidade mais pobre e vulnerável do DF (e amando conhecê-la, aliás), mas continuo no palacete da vila. Eram pra ser 2 meses,mas já estou indo para o quarto (tia se você estiver lendo isso: prometo que vou sair um dia).

Hoje em dia, se me perguntam: “onde você mora?” não sei responder direito. Moro em tanto lugar. Já morei em tanta casa que nem me lembro mais, Renato Russo. E porque basicamente, estou eu, minhas roupas e meus livros. E meu filho, que mora comigo, mora com o pai (avó) e segue seguro de si, se sentindo parte do mundo. Um dia isso me preocupou, é verdade. Tive medo de sei lá, o fato de eu não ter uma casa NOSSA (minha e dele) fosse gerar algum tipo de insegurança. Daí a psicóloga dele falou um dia: “Ele diz que mora e quer ficar com você e a casa dele é onde você está, seja onde esse lugar for, com você ele se sente protegido”. Saí do consultório com o peito cheio de alegria e gratidão. Tô educando um filho que se importa com o que tem que se importar nessa vida.

No final, em cada uma dessas mudanças, fui uma pessoa diferente. Cada casa respondeu aquela demanda minha, daquele momento de vida. Sou grata a cada uma delas. Saí feliz de todas, desejando que as outras pessoas que chegassem pra viver ali, fossem tão bem recebidas como eu.
Todo mundo me questiona quando vou comprar meu apartamento, que pagar aluguel é jogar dinheiro fora, que estou pagando por uma coisa que não é minha. Mas gente, enquanto eu usurfruir é meu. E eu lá preciso de um papel pra me dizer o que eu tenho? E quem precisa ter de direito o que é seu de fato? Aplico essa mesma lógica para carro (que um dia eu espero não mais precisar dele, aliás) e relacionamentos. Acho meio bizarro esse sentimento de possessividade que temos com as coisas e o pior, com as pessoas.
E eu vou lá aguentar morar na mesma casa por 30 anos? E eu vou muito enterrar meu dinheiro (sim, porque uma casa nada mais é do que: aqui plantei o suor do meu trabalho)? Se eu não fico preocupada com o futuro do meu filho? Não, quero deixar pra ele: amor, conhecimento e uma dose de “se vira moleque, que tua mãe não é eterna”.

Agora, entrei naquela fase mais deliciosa da vida que é procurar um novo lugar. Ficar o dia inteiro olhando sites, ir visita-los, colocar defeitos em uns que o seu santo não bate, observar a vizinhança, ter como critério maior o fato de ter uma padaria maravilhosa perto, de poder fazer as coisas a pé, ou se tem crianças que brincam na rua, imaginar e sentir que sim, serei feliz ali e não saber o que virá. Pra mim, a graça da vida tá justamente na impermanência das coisas.

Parece falta de bom senso, solidez, planejamento, mas é só desapego. Não tenho necessidade de uma casa pra chamar de minha. São as casas que me tem. Como disse o nosso Mujica: “Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade….”. E que a gente precise  de cada vez menos pra viver.

Por um mundo com um habite-se interno.

“Minha asa, minha vida”.

Porque a gente foi feito pra voar.

(*A frase e a arte da foto do post é do querido Pedrinho Fonseca e você pode conhecer mais dele em http://www.pedrinhofonseca.com )

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2 thoughts on “Mudar de lugar ou mudar o lugar?

  1. Gostei muito do post. Apesar de não ser muito fácil na prática, também partilho da ideia de “aprender a ser feliz com menos posses…”

  2. O maior tesouro que a gente leva dessa vida é a evolução pessoal. Eu sei que eu/nós temos bem mais que pessoas que tem casas enormes e que as chamam de suas. Nós temos o que ninguém pode comprar. Nós temos e viver do amor e da felicidade diária de fazer todos os dias, se tornarem especiais… pelo simples fato da gente poder vivê-lo!

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