O amor nos tempos do Facebook

Seu amigo alterou o status de relacionamento para “em um relacionamento sério”. Seu outro amigo adicionou 58 novas fotos ao álbum “Noves meses com mozinho”. Fulaninho postou foto de duas taças de vinho no instagram, no sábado à noite. Sua vizinha fez checkin  no motel no restaurante badalado com a legenda “noite com meu bem.” Não esqueça das hashtags: #MEFAZTÃO BEM #ELEMEAMA #OBRIGADASENHOR #SOUFELIZCOMELE #MINHAMETADE #ELAMECOMPLETA #INSIRAAQUIOAPELIDINHODOCASAL

Alguma dessas cenas já apareceu na sua timeline. Eu sei que sim.

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Vivemos na época do ego, do look do dia, das selfies, do “me diga quantos likes sua foto tem que eu direi quem tu és”, a época em que mais vale APARECER DO QUE SER. Na era digital, nada mais comum que virtualizar as relações. Problema é superficializar os sentimentos e as sensações.

Só postamos no Facebook coisas que vão chamar atenção das outras (não adianta negar), ninguém publica nada sem a intenção de conseguir algum tipo de feedback. É natural até. Em suma o facebook é um espaço para propagandear nossa felicidade (ou reclamar, mas o fim é o mesmo: chamar atenção) postando coisas que mostram como a nossa vida é incrível. Os relacionamentos amorosos viraram os troféus.

Há muito tempo venho refletindo sobre isso. Não sei que boom do capeta cupido foi esse que metade da minha timeline tá namorando e consequentemente essas fotos, declarações e alterações de status saltaram aos meus olhos e me fizeram refletir sobre isso. Começou a me incomodar demasiadamente o oversharing de declarações. Eu sei que quando estamos apaixonados queremos gritar ao mundo sobre esse estado de espírito, eu sei que nosso objeto de amor é único e especial e queremos demonstrar o quanto somos sortudos em tê-lo. Eu .entendo. Não sou esse coração de pedra. Na verdade sou sim e vocês são uns malas. Tô falando em todo santo dia o ser humano postar uma foto-declaração para a pessoa, inclusive marcando-a na publicação (que às vezes a pessoa só da um like porque convenhamos nem ela aguenta mais).

É tipo assim:

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Tô falando de todo dia a pessoa deixar um recado no mural da outra (e aparecer na timeline de todos os amigos em comum,claro). Às vezes penso com meus botões: “cara, essa pessoa já ouviu falar em sms, whatsapp, ligação, email, carta, olhos nos olhos, Quero ver o que você diz?”.

Qual é a real necessidade dizer a todo mundo o amor, admiração, tesão e carinho pelo seu parceiro? Não pode ser só pra ele? O que está por trás desse excesso de publicização dos seus sentimentos e da sua relação?

Pra mim, soa como um grande “ vou enfiar minha ‘felicidade’ goela abaixo”.

Esses comportamentos são mais frequentes em mulheres (sem generalizar), de acordo com minha pesquisa empírica. (Risos). É fácil desvendar né? Nossa cultura machista inculte em nós que precisamos de um macho alfa ao lado para sermos inteiras, plenas e realizadas. Mesmo que você seja bonita, bem sucedida, inteligente, o seu valor é medido pelo “desencalhou, fia?”. E não conta se você sai com vários, se você tem sexo casual, se você tem um rolo, se você não quer ter alguém, o importante é TER e DEMONSTRAR QUE TEM.

Gente, todo mundo transa. E quem não transa, corre pro Tinder, que é sucesso. Precisa provar que tem uma vida sexual ativa e emocionalmente correspondida não. Alterar o status do facebook é o novo andar de mãos dadas no shopping ou apresentar pra família (até porque sua família já está nele). E agora esse site fica pentelhando: “Qual seu status de relacionamento?”. Ei Zuckerberg, me deixa, tá parecendo minhas tias no Natal.

Sei tanto das relações dos meus amigos, que se encontrar na rua sou capaz de prever o ciclo ovulatório da moça e que hoje o rapaz deve cozinhar pra ela, uma massa. Com vinho. Sei quando fazem meses de namoro. E que vai rolar uma montagenzinha de fotos todas iguais, feita pelo PicFrame. (Aliás: o incrível mistério que faz os casais tirarem fotos idênticas uma a outra).

Parem. Postar foto de presentes, cartas, surpresas é um modo de agradecer? Outro dia minha mãe, que fez um bolo pra eu levar pra festa de uma amiga, perguntou: “O pessoal gostou do bolo?”, respondi que sim e ela completou: “Credo, ninguém postou foto”.

1 minuto de silêncio.

É gente, é esse o país que sediou a copa. Sério, se minha mãe já tá assim, o que será de nós? Das nossas relações? Falta quanto pra gente terminar nossos relacionamentos pelo facebook? Compartilhar nossas fotos íntimas? Postar #FoiBomPraMimSimMeuAmor como feedback pós sexo?

Bom, nunca fiz nenhum dos exageros que citei, porque sou difícil dificílima, sou centrada, sou fria, sou razão  não emoção, mas não me excluo das críticas. Quando reatei o namoro com uma pessoa que gostava muito, há uns meses, e estava no auge da empolgação: me vi postando uma foto no feice. Era dele (de costas) lavando a louça da minha casa, dizendo que lia historinhas pro meu filho e com a legenda “ele traz pão”. Bombou. Choveu likes. Teve comentários do tipo “isso é que maneira de alterar o status”, “não joga fora, porque tá difícil de achar”,ai que inveja” e “nossa, humilhou as inimigas com esse boy”. A cada like eu sentia um extremo desconforto. Não fazia uma coisa do tipo, desde que me divorciei (e olha que dei umas namoradas boas nesse período). Não é da minha natureza esse mimimi romântico. Nunca fui de apelidinhos, de declaraçõezinhas, de fazer aquela voz ridícula, etc. Nem de ficar expondo minhas relações por aí e fiquei me questionando porque tinha postado aquela foto. Conclusão: sim, era para causar.

Desnecessário.

Deletei uns dias depois. Quem for um stalker profissa até acha outras fotos minha de quando namorava, mas todas pra registrar um momento feliz, não para fazer as mulheres solteiras deitarem em posição fetal de inveja. Até porque o namoro dos outros pelo facebook é sempre feliz e perfeito. Incçlusive a gente nunca entende porque acaba logo com ambos se excluindo e se odiando. Uai. Não era conto de fadas?

Posto Redes Sociais

Não gente, nada é. A vida é cheia de altos e baixos. As relações tem momentos bons e ruins. A edição e os filtros das redes sociais é que nos cegam.

Tudo isso pra dizer que é muito mais legal ouvir aquele elogio no ouvido. Que algumas coisas a gente só sente, olha no olho, responde com um beijo. Ao receber um presente, não tenha pressa de tirar uma foto para mostrar aos outros como você é amada, agradeça. Pessoalmente. O mundo não precisa saber. Parece que a gentileza virou mercadoria.

Os casais mais legais que eu conheço não ficam nessa putaria. Se gostam, se curtem, trocam presentes, mas tudo in loco. Até tem uma declaração outra, mas nada demais. É aquilo: quem é feliz de verdade não tem tempo e necessidade de ficar dizendo isso toda hora. E para os outros ainda.

Nos últimos três anos (que foi quando saí de uma relação formal – inclusive civilmente) saí com caras bonitos, inteligentes, desejados, subcelebridades (ops, me empolguei), me envolvi muito com alguns, namorei sério outro (que o que tinha de mais tecnológico era um email do Hotmail) e que me ensinou pacas a viver a real life. Em todas as situações: amei e fui amada, ouvi e disse coisas lindas e safadas e fofas, agradeci, fui elogiada, ganhei e dei presentes. Vivi dias felizes. E uma coisa é certa: as melhores coisas que li e ouvi sobre mim foi só pra mim. No calor e no sabor que só uma intimidade a dois (ou a três, quatro, sei lá) permite. Minhas inbox, meu whatsapp, meu celular, o quadro de avisos da minha casa, meu ouvido e parafraseando Chico, meu corpo foi testemunha do bem que eles me fizeram.

Entendo que a gente publicize toda nossa vida nas redes e que fica difícil desassociar nossas relações amorosas disso. Veja bem: não sou contra fotos de amor na timeline (só as de beijo de língua, porque né, não sou obrigada), aliás, quanto mais amor espalhado por aí, melhor. Só quero um mundo onde meu amor não dependa de um like e que eu não precise ser marcada num status pra me sentir num relacionamento sério. Aliás, no dia que o Zuckerberg criar as seguintes opções, eu altero o meu:

Fulano está em um relacionamento engraçado (porque esse lance de “sério” me assusta)

Ciclano está em um relacionamento dialético (porque tudo que é sólido se desmancha no ar)

Beltrano está apenas transando com fulano (ah porque não? Já dizia Zeca Baleiro que sexo também é bom negócio)

Fulaninho está alterando o status para relacionamento sério mas paquera todas as amigas inbox. (hehehe sempre rola)

Na verdade, saudade eu tenho mesmo é do Orkut que era “namorando”.

Namorar é um verbo que eu curto.

Namoremo-nos. Com trocas de fluidos e não de likes.

Observação: esse texto não é um caga-regras, use-o com moderação.

Post editado para colocar essa imagem, que resume tudo: (Obrigada Luciana)

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3 thoughts on “O amor nos tempos do Facebook

  1. Texto FODA! Infelizmente a graça hoje em dia é mostrar e não fazer.
    E quando não mostramos viramos seres estranhos… “Nossa, será que eles estão bem?” “Será que tá tudo certo?” “Olha… o rolo deles não tá indo bem, não tem nada no facebook, não tem nada no instagram!”

    E por aí vai, rs… Os tempos mudaram. Feliz sou eu que não me adaptei (poser, porque mudei pra relacionamento sério) e não preciso mandar recadinho cheio de amor porque se ele não ver isso nos meus olhos, f*deu… tem coisa errada aê!

  2. Marília, lindo texto.Bem lembrada a cadência interminável e gostosa da aplicação do gerúndio no verbo namorar. parafrasenando dona Wilkpédia, essa conjugação, namorando, torna o ato ou processo como um “presente perfeito”indica uma ação em andamento, um processo verbal ainda não finalizado.

  3. Tenho a mesma visão que você. Namoro e sou muito feliz, porém acredito que a privacidade é essencial. Aliás, na minha vida o que me tira do sério é pessoa que não sabe se colocar no lugar, por conta disso evito ao máximo coisas que acredito que pode dar este tipo de brecha. E eu também sinto falta do “namorando” no facebook, namorar pra mim é algo tão mais romântico, bonitinho, cute hahaha o “relacionamento sério” já acho muito racional, frio.
    beijos
    http://www.oestranhomundodecamila.wordpress.com

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