Caldeirão do cafetão: machismo sob medida nas telas da Globo

Responda rápido: qual a imagem que boa parte do mundo tem a respeito do Brasil? Não precisa ser um gênio para dizer: seios, bundas, pouca roupa, cerveja, país tropical, mulheres bonitas, carnaval. Nós, mulheres, somos uma espécie de atrativo, junto com as praias, cachoeiras ou o Cristo Redentor. Com a chegada do maior evento esportivo do mundo em nosso país, era esperado que hipersexualizassem nossos corpos ainda mais, enfatizando o Brasil como o país da liberdade e promiscuidade sexual e, claro, de mulheres disponíveis.

Camiseta Adidas modelo "machismo padrão FIFA".

Sabe-se que o turismo sexual gera lucro e que a indústria do sexo alimenta a economia. O “mundo do futebol” está diretamente ligado ao acesso ao corpo das mulheres, e a movimentação recente para a aprovação do projeto de lei do deputado Jean Wyllys  (PSOL) a respeito da regulamentação da prostituição não foi mero acaso. Aliás, esse projeto só oficializa a profissão dos “cafetões”, e passa muito superficialmente pelas condições reais e pelos direitos das trabalhadoras do sexo. Mas, de certa forma, serviu para levantarmos essas questões entre os movimentos e a sociedade em geral.

Os efeitos pós-Copa em relação ao corpo e à vida das mulheres ainda é desconhecido. O que esperar do “padrão FIFA de machismo” que, em parceria com a Adidas, lançou camisetas colocando o corpo feminino como “estímulo” para turistas virem para a Copa no Brasil? Mas o pior ainda estava por vir: na noite desta terça-feira, 24 de Junho, um dos maiores representantes do “bom mocismo” brasileiro, o apresentador global Luciano Huck se apresentou como um grande cafetão na rede mundial de computadores. Em sua página no Facebook, ele publicou o seguinte chamado:

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Seguido por inúmeras críticas e muita polêmica, o post foi retirado do ar. Sua assessoria respondeu que “Luciano é contra qualquer tipo de violência” e estava apenas pensando em um novo quadro de encontro/namoro entre pessoas, sejam elas brasileiras ou não. Bom, para além da alusão ao turismo sexual (alguns internautas chegaram a pedir a intervenção do Ministério Público), esse caso ilustra bem como as mulheres são vistas pela sociedade machista e pelo patriarcado: como donzelas disponíveis à espera de um príncipe encantado. Como mocinhas em busca de um ser (homem) que a salve de sua condição triste de mulher.

Mas se era pra ser um quadro de namoro, como há tantos outros na TV, por que a chamada era direcionada às mulheres? Por que não tinha “você, homem solteiro, encontre uma gringa pra chamar de sua”? Soa ridículo quando invertemos os papéis, não é? É porque já consideramos “natural” a objetificação não só do corpo das mulheres, mas também de suas emoções e projetos de vida. Vale ressaltar ainda a questão racial e o “complexo de vira-latas” que está ao fundo.

Os “gringos” que estão em alta são, em geral, brancos, loiros e de olhos claros (qualquer semelhança com o clã do referido apresentador é mera coincidência). São príncipes. No entanto, para o turismo sexual inverso que eles praticam aqui, são as “mulatas” e as negras as escolhidas. Como são em maioria as prostitutas. A fetichização em torno dos estrangeiros, forçada ou não, parece desmerecer nossa beleza, cultura, nosso país. Como se os brasileiros e brasileiras fossem inferiores.

Caro Luciano Huck, nós brasileiras não estamos à espera de um gringo que nos peça em casamento e nos tire daqui, desse país que sua elite detesta. Gostamos de brasileiros (algumas preferem as brasileiras), e nem todas queremos casar. Aliás, gostamos muito do seu xará, o Hulk da seleção. É, pois é, mulheres também têm desejos, gostam de apreciar corpos bonitos, gostam de sexo sem compromisso e, em última instância, não precisamos de você como cupido. Ao contrário da propaganda do sabão em pó Ariel e de uma piadinha machista que circulou no dia dos namorados, não servimos apenas para torcer (roupa) ao lado do homem amado, também gostamos de futebol – aliás, nem todas nós temos um homem amado. Somos também lésbicas, bissexuais, negras e gordas. Somos diversas mulheres que não cabem no seu anúncio, padrão e estereótipo. Machistas: não passarão.

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