Um manifesto contra o desapego – pelo direito de gostar das pessoas

Vivemos em uma época da ditadura do “desapego”. “Desapega, desapega” é a musiquinha daquela loja online de vendas, mas que usamos em todas situações. “Desapego é o segredo”, “Pratique o desapego”. “Eu cuido, corro atrás, peço desculpas me importo mas quando eu desisto, pode crer, meu desapego é pra sempre!” é uma das frases mais encontradas quando você digita D-E-S-A-P-E-G-O no google. Atribuem a Caio Fernando Abreu. Tadinho.

Desapego, do verbo desapegar. De acordo com o Houaiss, significa “qualidade ou estado de pessoa desapegada, que revela desamor por alguém (ou grupo de pessoas)”, “qualidade ou estado de quem demonstra indiferença, desinteresse, desprendimento, pelas coisas ou por certa coisa em particular; despego”. Em outros: “Desprendimento”, “Solto, entregue.
Viver pensando no presente, sem se preocupar com o passado”, e ainda “Distanciamento ou abnegação. Ausência de amor ou estima. Desamparo ou abandono”.

Desapego. Nunca me encontrei nessa palavra. Quando engravidei, me interessei por uma “filosofia” maternal chamada “Attachment Parenting” ou a “criação por apego”. Visa promover práticas que criem vínculos emocionais fortes e saudáveis entre pais e filhos, atendendo às necessidades da criança de confiança, empatia e afeição, para promover a base para uma vida de relacionamentos saudáveis. Os bebês nascem com fortes necessidades de ser alimentados e de permanecer fisicamente próximos ao cuidador principal, normalmente a mãe, durante os primeiros anos de vida. O desenvolvimento emocional, físico e neurológico da criança é amplificado quando as necessidades básicas são atendidas consistentemente e apropriadamente.

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Foto: Coletivo Transverso

Esses princípios me orientaram a amamentar meu filho em livre demanda (mesmo quando ele já estava saciado), a não negar colo, a não forçar uma independência precoce, a carrega-lo junto ao meu corpo (usei muito o sling, aqueles carregadores de pano), a dormir comigo, a ouvi-lo, entendê-lo como um sujeito integral e com necessidades, a esperar e respeitar seu tempo e a principalmente a entender suas singularidades e de que nada e ninguém é uma receita de bolo.

Talvez só depois da maternidade tenha me dado conta que sou uma pessoa apegada. Gosto de liberdade, gosto de ficar sozinha, odeio me sentir presa a algo (não uso anéis, relógios, colares, etc – só pra ilustrar) ou alguém, mas gosto de criar e manter vínculos. Pois é.

Me envolvi em todas as minhas relações. Sempre tive dificuldade em términos, rompimentos, despedidas. É claro que fui aprendendo ao longo do tempo (sofri um bocado antes), mas pra mim as pessoas são importantes. Quando era pré-adolescente, começou aquele lance de “ficar”. Fulano “ficou” com ciclana era o que ouvíamos toda hora. Como uma menina feia, desengonçada, estranha e nerd que fui, é lógico que eu não ficava. Via minhas amigas “ficando”, e fingia achar legal. Até o dia que presenciei uma ficada, na oitava série. A minha amiga ficou com o maior gatinho da escola, embaixo de uma árvore. Deram uns dois beijos e saíram cada um pro lado depois. Aqui me chocou. Era aquilo o “ficar”? A coisa mais transgressora e adrenalizante do momento? E o depois? Bom, eu nunca fiquei. Sempre permaneci.

Depois a gente cresce, “desenfeia”, descobre as maravilhas do sexo sem compromisso e ok. Mas é aparecer alguém que te balança pra surgir os conselhos: “desapega”, “não crie expectativas”, “não ligue no dia seguinte”. Por que?

Namorei com a primeira pessoa que beijei, aos 16 anos. E depois com a segunda. Conto nos dedos da mão do Lula quantas pessoas beijei (tá, mentira). Sei o nome de todas, porque de certa forma todas tiveram sua importância na minha vida. O mesmo com o sexo. Engravidei, casei, separei, namorei de novo, fiquei solteira, namorei. Conheci pessoas incríveis e lindas, não poderia desperdiça-las. Depois do ficar, lá da minha adolescência, surgiu o “eu pego, mas não me apego”, a tal da pegação. E hoje é esse lance de desapego pra lá, desapego pra cá. Vejam bem: todo meu apoio à pegação, a azaração, o sexo e o amor livres. Isso é legal, revolucionário. Mas não parece que a ditadura do desapego é mais uma fuga por medo de envolvimento?

Não acho que todo beijo deve terminar em sexo e sexo em relacionamento. Tô falando em não tratar as pessoas como objetos de descarte. Em tempos de Tinder, o cardápio das relações (tô lá, não é uma crítica), temos que ter cuidado em não levantar a bandeira da banalização dos sentimentos. Somos super apegados às coisas, mas as pessoas: aí não, tenho que ser desapegada.

Na época da Lulu, comentei no face de uma hashtag #nãoliganodiaseguinte, que apareceu no perfil de alguns caras que eu tinha saído. Todos tinham me ligado. Claro que brinquei e mandei beijinho no ombro prazanimigas, mas isso não tem a ver comigo, não sou a “xoxota das galáxias” (apesar de o curso de pompoarismo ter servido pra alguma coisa). É que eu sempre tratei todos os meus amores com amor, mesmo os que foram de uma noite só. Nunca fiz joguinho, nunca me fiz de difícil, nunca fiquei na defensiva e houve vezes em que liguei no dia seguinte: por que não? (Tá. Ligar não que tenho fobia a telefone. Mas sms/whatsapp/um telegrama, uma carta de amorrrrr.) Pelo direito da mulher de ligar no dia seguinte: taí uma causa pra lutar. Risos.

Se foi legal eu digo, se não foi, e a pessoa é maneira, vamo tentar outra vez, se foi só uma vez valeu a experiência, se for pra ser de novo, vai ser e não é cobrando que vai rolar. Apego não tem a ver com posse, monogamia, relacionamento. Apego é o que devemos sentir por quem deixamos entrar em nosso corpo e na nossa vida. Desapego é o que devemos ter pelo dinheiro e pelas coisas.

Devemos deixar as pessoas irem, quando é pra ir, mas descartar não. Esse lance de desapego me soa como medo de sofrer: “ó, não vou criar expectativas porque depois vou me frustrar” é a dor antecipada. É coisa de gente que não se joga. É discurso de gente vazia.

Antes de escrever esse texto, pesquisei muito por algum texto parecido. Não existe. Quando se fala de APEGO é pra referir-se a algo ruim. Que amor pra ser amor, não deve ter apego. Discordo. Amor não pode ter posse e controle. Amar, verbo intransitivo, já dizia o poeta. Apego: afeição, simpatia por alguém ou alguma coisa, ligação afetuosa, dedicação. Eu sou apegada. Sou amiga de todos os meus ex, e todos fazem parte da minha vida. Mesmo que seja como pessoas importantes em meu passado. Alias, o passado não é ruim, paremos de odiá-lo. Os caras do Tinder me ligam pra desejar feliz dia das mães, perguntar como tá minha dor de dente e me chamam pra ver minissérie debaixo do edredon sábado à noite. Todo mundo que passou pela minha vida tem importância, todos que um dia vão chegar vou dar a eles esse lugar (e outras coisas).

E olhando meu filho, aos quatro aninhos de idade, vejo o quanto a “criação por apego” tem tornado ele independente, forte, inteligente emocionalmente e capaz de tomar decisões. Se o apego é bom para os bebês, porque quando crescemos devemos seguir solitária e autossuficientemente?

Não levante a bandeira do desapego. O mundo já anda muito complicado, pra nos esvaziarmos ainda mais de sentimentos e pessoas.

Mais sobre o “Attachment Parenting aqui .

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