O prostituto do afeto

A gente tá junto há quase três meses. A gente tá num processo claro de intimidade. Eu e ele num quarto confortável. Só nós dois. A gente faz planos pro futuro. Eu escolho a melhor roupa. Eu passo a semana pensando em qual irei vestir na próxima. Capricho no batom. Ensaio frases e citações legais pra dizer, pra impressionar. Aquele frio na barriga bom. Ansiedade em vê-lo. Ele me escuta. Mais, ele me ouve. Ele vê nas entrelinhas e o melhor: ele não usa minhas fragilidades contra mim depois. Guarda segredo. Ele não acha ruim se eu chorar, ao contrário. Ele me conta histórias. Ele é sensível, sincero e sabe esperar meu tempo pras coisas. Só tem um detalhe: ele é prostituto. Sim, ao final de tudo, vestindo minha alma, recompondo meu corpo de nossos momentos, eu abro minha carteira e pago. É, pois é. Deixo agendado pra semana que vem. É oficial: eu amo meu analista. E não, não me venham com suas análises freudianas. Eu sei o que é transferência. Me deixem, que até Freud disse que esse sentimento transitório pode fazer parte, positivamente, do meu processo de cura. (Mas eu ainda preciso descobrir do que quero me curar). Eu sei que isso é comum. Eu sei que eu deveria ter procurado uma analista velha, vivida e amargurada  experiente. Ok, ok, escolher alguém pra compartilhar suas crises existenciais, apenas por ele ter o mesmo nome que seu filho já mostra o quão sem foco você é. Eu sei, eu sei. Eu ainda não contei isso pra ele. Já disse que estamos na fase do enamoramento? Por enquanto, ele já faz o suficiente, o que nunca tive assim, de graça mesmo: ele me ouve. Vocês já pararam pra pensar que ninguém mais escuta ninguém? Em um mundo cada vez mais solitário, tecnológico, globalizado e estressante: ninguém mais escuta ninguém. Chame algum amigo pra conversar e considere-se um sortudo caso ele te conceda 30 minutos, com o celular na mão, pedindo comida no restaurante e fazendo checkin no foursquare ao mesmo tempo. Numa conversa, ou diálogo, sempre tem alguém com uma história mais triste/mais comovente/ mais importante que a sua. Vivemos constantemente numa competição. Eu sei, nossos amigos não fazem por mal. Quero ver alguém ter saco pra ouvir o outro por uma hora e vinte minutos. Só pagando mesmo. Os prostitutos do afeto. Mas olha, é dinheiro bem investido. Eu sei, não tem ligação no dia seguinte. Eu sei, não tem saliva, não tem mucosa, não tem fluido corporal. Não tem tesão. Não tem amor, só profissionalismo. Mas ali, do outro lado do divã, tem que ter muito mais que um senhor ou senhora dotada de saber científico apto a curar a vida da paciente–histérica-neurótica-carente-sozinha-depressiva-maníaca aqui. É transferência sim. Mas recíproca. Não essa transferência freudiana a que me referi (até porque me falta conhecimento sobre ela), mas a transferência de experiências, de vida, de cumplicidade. Eu vejo um ser humano também. Que mesmo do alto da hierarquia médico-psicossocial em que estamos naquela sala, faz questão de se mostrar de carne osso, errante e com experiências suas pra contar. Ali eu vi que estamos todos no mesmo barco. E ele só ajuda a remar. Do outro lado do divã, eu vejo um homem jovem, talvez da minha idade, talvez mais novo. Um nobre estranho pra mim, já que não é ele o analisado, nem o objeto de nossas conversas. Será onde ele mora? Será casado, solteiro? Será feliz com ela? Quem será ela que está com ele? O que faz nas horas vagas? O que ele pensa de mim, afinal? Me acha uma doida? Eu não sei. Só sei que teve empatia, rolou química. Assim, dessas de verdade. Tá pra nascer pessoa mais hermética do que eu. Não me abro. (Apenas no duplo sentido). Mas sou mais evasiva que óleo escorrendo pelas mãos. Contraditória também. Por tudo isso, não era qualquer um assim que faria o que ele fez.. E sem cerveja, hein? Ele conseguiu que eu de fato falasse o que sentia. Sem personagem, sem esteriótipo, sem medo, sem expectativa. Pelo menos uma vez por semana, por oitenta minutos, eu sou eu. Prazer em conhecer. Tô me conhecendo pra valer e não é que tô gostando do que tô descobrindo? Ele? Metafóricamente, ele só me ajuda a retirar uma peça ou outra e talvez com o espelho. Às vezes  me empresta o óculos dele também. Pra eu me enxergar com outros olhos. Vai ver essa é uma transferência narcisística. Tô me apaixonando é por mim. Ele é só meu objeto meio. Um objeto querido, eu admito, mas objeto muito bem remunerado também. E há quem diga que dinheiro não compra felicidade. Sou mais feliz a cada terça-feira que volto com um turbilhão na cabeça, mas com uma paz contagiante. Taí, eu admito: eu amo mesmo meu analista.

Post originalmente escrito em Abril de 2013

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3 thoughts on “O prostituto do afeto

  1. Nossa amiga, agora eu quase chorei. é minha profissão!!! e é isso aí, as vezes temos a impressão que estamos falando com um espelho, sei lá. Essa empatia é maravilhosa….
    Mas vendo pelo outro lado, dessa escuta que não existe mais, isso é a mais pura verdade. Agora se vc que é uma “pessoa normal” não encontra essa escuta, imagina que eu sou a psicóloga da história e tenho que ter sempre formulas pra todos os problemas dos outros…cada vez me sinto mais só, já perdi as esperanças e nem cobro mais. Preciso de um bom analista urgentemente! rs Adorei o texto, você expressou muitas coisas de maneira genial pra um “leigo” rs.
    Beijo!

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