Sobre despir-se

Eu chorei. Eu deixei escapar pela minha face toda a dor que meu coração sentia. Por tanto motivos. Racionalmente nao era a coisa mais sensata a fazer. Vamos combinar que lagrima não é nenhum pouco sexy. Da outra vez que chorei dei um tiro no pé. Eu queria amparo e recebi abandono. Mas depois eu fui entender que ali, naquela noite, naquela primeira vez,  eu fui precipitada. Quis demais talvez. Me expus demais com certeza. Pedi desculpas, foi over. Apesar de achar que eu merecia minimamente um abraço, entendi aquela fuga sua. Também foi medo. Depois de tudo no lugar, jurei à mim mesma que jamais choraria na sua frente de novo. Amigos servem pra isso, namorado não. Ao namorado, ainda considerando que sequer nominamos essa relação, cabe a parte boa. Sorrisos,brincadeiras, sedução, maquiagem, beijos. Faz parte do jogo esse marketing positivo. Cara lavada e tristeza a gente esconde. É assim que se conquista. Tirando a roupa e não abrindo a alma, assim de cara. A estreita linha entre ser verdadeiro e se autopreservar. Por muito tempo eu mostrei minhas vulnerabilidades aos meus parceiros amorosos. Eles se apaixonavam mais. Se compadeciam. Queriam me proteger, do mundo, das dores, deles mesmos. No começo, nem era proposital. Mas depois vi que dava certo. Virou uma estratégia. Até que o tiro saía pela culatra. Com o tempo o que era fragilidade virava munição. Muitas vezes acusada de chantagista emocional. Até que comecei a acreditar. E doía mais. E chorava mais. E queria mais amparo e recebia mais solidão. Romper esse ciclo foi difícil. Não queria virar a personagem de super mulher de novo, mas tampouco virar uma mendiga de amor, maquiavélica do choro. Percebi que pra chorar nao precisa de platéia e que as vezes o silencio absorvia melhor o meu pranto. Sozinha me recompunha e seguia. Mas outras vezes, que mal há em ser acolhida num abraço sincero e acolhedor? Eu chorei. E pela primeira vez na minha vida, consegui receber acolhimento emocional. Sem pedir. Foi com você. Eu nao pude escolher. E nem controlar. Assim como imagino que voce também nao pôde controlar sua vontade de me abraçar e cantar “menina grande” e “bem te vi” pra mim. Foram as musicas mais lindas que eu já ouvi na minha vida. Acho que nem no útero da minha mãe me senti tão encaixada como naquele espaço entre mim e voce, naquele ambiente tomado por sua voz, cheia de paz. Se eu pudesse planejar, eu teria sido a menina que ta sempre bonita e unhas feitas. Que sorri por tudo e que concorda com todas suas opiniões. Talvez seja isso que os homens esperam. Se eu pudesse escolher, eu nao teria exposto minha alma aquela noite e teria ido embora sim na noite anterior. Mas minhas pernas simplesmente não me obedeciam e meu mínimo de coerência dizia que se eu fosse, teria que ser pra sempre. E eu nao sei brincar de Deus. Eu fiquei, mas fiquei com medo. Eu fiquei frágil. Eu fiquei com lagrimas acumuladas. (Pra onde vão aquelas que nao escorrem pelo rosto?) Se eu pudesse, teria mantido minha fama de má e de devoradora. Quebrei um mito, arrisquei atirar no meu outro pé. Assumi o risco. Aceitarei as consequências de ser de verdade. Porque fiquei nua, numa posição muito mais vexatória do que qualquer kama sutra sugeriria. Meu corpo, que voce conhece tão bem abriu lugar para minha alma. Num close muito ginecologico. Enquanto tantas mulheres fazem striptease, jogando suas roupas de maneira sexy (sem ser vulgar) e dançando no pole dance, eu exponho minhas verdade, despindo de qualquer convenção. Chorar na frente de outra pessoa, sendo a pessoa da frente quem voce deseja impressionar, conquistar,seduzir pode nao ser sexy, mas é incrivelmente corajoso. É honesto. É jogo limpo. É se dar o direito de ser voce,  e de desejar ser amado como voce é. Nem novela mexicana, nem super heroina. Eu chorei. Eu apenas chorei. E assim como li recentemente, do escritor “Roberto Freire” : “Talvez no fim do choro e do riso todo da gente esteja o começo da nossa capacidade de amar”.  E quem vai dizer que não?

Post Originalmente escrito em Maio de 2013

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