Abaixo a cultura do desinteresse

Por falar em textão, em não ser monossilábico e tal, deixa eu contar uma historinha aqui:

Uma vez eu eu tava ficando com um cara e ele sumiu. Sumiu. Nunca mais respondeu meus torpedos (ele tinha um celular que o que tinha de mais tecnológico era o despertador), não me atendia, assim, fim. A gente marcou uma saída, ele furou. O homem que foi comprar cigarros e nunca mais voltou.

Eu quase morri (tava muito apaixonada). Desabafei com as amigas e elas calmamente me disseram “Marília, bem-vinda à vida de todas as mulheres: os homens somem. Só nunca tinha acontecido com você, mas eles somem”. Fiquei chocada, perdi uns 3 kg em uma semana, chorei, ouvi Raça Negra, essas coisas.

Mas aí claro, escrevi um textão, porque ele podia até não querer conversar, mas me ler, ele iria. Cada um usa a arma que dispõe.

Mandei por inbox aqui. Ele falou que não tinha condição de responder naquele dia, mas que no dia seguinte iria. Passou uma semana e nada. Porra, era grande, mas né possível, o ser humano era professor de Filosofia, me dedicava poemas do Maiakowski, NÃO É POSSÍVEL que não tinha dado tempo de ler.

Aí fiquei me sentido o que? Over!

(Coisas do patriarcado: cê tá numa relação há três meses e não era platônica não, era de verdade e o cidadão DO NADA te ignora sem avisar nada! Você podia muito bem o que? Surtar, gritar, xingar, perseguir no trabalho, furar pneu do carro, expor o cara na rede, mas não, nada, tu só manda um textãozinho e ainda se sente culpada e errada).

Ok. Resolvi encaminhar o texto para um amigo (homem) pra ele me dizer se eu tinha sido over mesmo (eu melhorei, nossa! Onde que eu fazia uma coisa dessas hoje?!), o que ele entenderia se recebesse uma carta daquela e tal.

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Esse amigo por acaso já conhecia o bendito, deram aula juntos e inclusive me falou à época, quando contei que tava com ele: “Sério que cê tá apaixonada por fulano? Fulano é um hippie que não tem nem celular porque não quer ceder ao sistema capitalista, meu bem, cuidado!”, risos, mas enfim, esse amigo também é dos textão, logo, pensei que ele seria o mais apropriado para julgar-me.

Ele (o amigo) respondeu o email com a DR encaminhada assim: “Caralho. MARÍLIA, ISSO NÃO É UMA DR. É UMA PEQUENA CRÔNICA SOBRE O ABANDONO OU O AMOR”.

(Eita sinceridade! Eram 4 laudas do word. Não sei vocês, mas acho de boa. Risos)

Me senti over com sempre me sinto mas com a consciência de que é… também, paciência, só sei ser assim.

Quer leveza, vai voar de balão, não se relacionar comigo.

Daí minha gente, se passaram três meses. TRÊS. E ele me LIGOU e falou “Oi. Então, eu queria pedir desculpas e sobre a sua carta, eu acho que..”.

O QUE QUE EU QUERIA TER DITO? ô seu fdp, cê quase acabou com a minha vida!morra!

O QUE EU DEVERIA TER DITO? Olha, confesso que achei bem imatura sua postura, mas ta bom, vida que segue. Beijos de luz.

O QUE EU RESPONDI? “OK”. (o joinha mental).

Três meses gente, três meses demorou a resposta (mas veio). Cada um tem seu tempo, já diria o IESB.

Mas eu sei que depois disso, tudo mudou.

E essa é uma pequena história (sobre nada com moral nenhuma, só pra me fazer lembrar porque eu só amo os hippiesNÃO PERA) que olha,

• a gente não tem que ficar se sentindo mal por ser quem é,
• que sumir não é coisa de gente honesta,
• que nós mulheres vivemos coisas absurdas em tipos de relações diversas, aceitando tudo goela abaixo e quando a gente surta somos taxadas de loucas ou de estar com TPM,
• que esse discurso de leveza é meu coo (cês viram a pesquisa falando que relacionamento duradouro depende de “a mulher manter a calma” né?) e
• que mandem textão sim, DR também que ninguém é obrigado a ficar doente de tanto guardar sentimento.

Demonstrem tudo. O mal do século é a cultura do desinteresse.

Hoje em dia falo tudo. É um filtro. Fica quem guenta. Mas, ó tem uma dica: alterna os textão com uns nude, uns memes, umas piadas porque também ninguém é obrigado.

É isso. (e já fui over de novo aqui, eu sei. Foda-se.)

Obs: Se puderem, evitem os professores de Filosofia. (Confesso que nessa reforma do ensino médio aí quase add ele aqui de novo pra falar: “parece que o jogo virou né kirido”), mas sou muito madura e o máximo que fiz foi mudar de caminho quando encontrei ele na rua.

Meu querido, meu velho, meu amigo

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(Ler escutando essa música) 

A primeira vez que tive uma noção real do tempo (e da idade) foi quando, pré-adolescente, uma criança me chamou de “moça” na rua.

Eu, moça? Como assim?

(Isso me marcou tanto que gosto que me chamem assim até hoje)

Lembro também quando meu pai completou 40 anos. Ele ganhou uma camiseta “40tão Potência máxima” (risos). 40.

Eu tinha 8 anos e 40 me parecia tão distante, tão velho, tão sei lá.

Hoje, 40 é a média de idade dos meus namorados, amigos, colega de trabalho. 40 é o novo 20.

Meu pai completa hoje 60 anos. 60.

Parar pra pensar nisso me dá outra sensaçao de finitude do tempo, um marco temporal, um nó na garganta, um “caramba, meu pai chegou à velhice”.
60 anos e ele já é considerado idoso pela legislação brasileira.

Ver os pais da gente envelhecendo é estranho né?Mas é um baita privilégio, é sim.

Que o 60 seja o novo 40, que meu pai viva mais um bocado de anos pra ir arrumar meu carro no mecânico, buscar Miguel na escola, cozinhar minhas comidas preferidas, cobrar minhas ligações, reclamar da minha roupa curta, puxar assuntos polêmicos, conversar sobre história e política comigo, me fazer passar raiva com suas rabugentices e viver de amor como foi até hoje.

Meu velho. (Ps: acho que essa foi a última foto que ele tirou comigo. Não tira mais nem a pau. Juvenal)

Postado originalmente no Facebook, ano passado. 

Dezesseis

No dia 16 de outubro nos encontramos para um happy hour.

Nosso trio de sempre: Eu, ela e Cintia. A gente se conheceu em 2006, quando trabalhamos juntas no CNPq. Nunca mais nos largamos.
Nesse dia dezesseis, ela, a Flávia, tava mais linda do que nunca. Até fiz um vídeo e postei no snapchat a chamando de “vaca” (do tipo “ai menina, pára de nos humilhar sendo linda assim”). Em três horas de papo, dominei cerca de 2, no mínimo. Era uma atualização sobre minha vida afetiva-amorosa. Ela disse “ele vai te pedir em namoro, se prepara”. Falei também do Miguel, do trabalho e da casa nova. Ela me indicou uma loja pra comprar um sutiã igual ao que ela tava usando. Devolvi umas roupas dela que estavam comigo. Ela também falou de amores, de dores, do novo boy de SP. Teve uma hora que eu disse : “como você é corajosa, não sei se eu iria”. Ela respondeu: “Até parece Mary, eu aprendi a ser assim com você. Você é um exemplo de mulher independente, corajosa e que se joga. A vida é muito curta”. Respondi de volta: “Até parece você, você que é maravilhosa! Merece toda felicidade do mundo”.
A gente era assim. Uma rasgação de seda reciproca, constante e verdadeira.
Fomos ao banheiro do shopping, segurei a porta pra ela, tarefa cotidiana de amiga mulher. Maquiagens retocadas, assuntos diversos. Planos. A gente tava tão feliz. “Vocês tão ‘tudo’ apaixonada”, disse a Cintia depois no nosso grupo de Whatsapp.
Dei carona pra elas até o metrô. Já era noite e começava a chuviscar. Esperei sumirem do meu olhar para ir embora (sempre), mas antes gritei:  “tchau amigas, foi lindo!” e elas acenaram. A Flávia olhou pra trás, já longe e disse “amo você, Mary”.
Guardei esse momento na gaveta da memória, congelei esse olhar pra sempre sem saber que era o último. Mesmo que na hora parecesse rotineiro como eram todos nossos eu te amos. Meu inconsciente quis eternizar.
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Em outro dia 16, o de novembro, 1 mês depois, ela tinha o diagnóstico de Câncer com metástase, meu celular tava afogado na piscina e o carinha lá, como ela previu (e eu desacreditava), me pediu em namoro mesmo.
Eu seguia incomunicável e planejava mentalmente como ia contar a noticia pra ela, compartilhar sensações, mandar fotos do jantar (no qual ela me ajudou a escolher a roupa que usei, opinou sobre a maquiagem, desejou sorte).  Não deu tempo.
Uma segunda-feira depois, recebi a noticia. Ela já estava no hospital e muito doente. Recuperei o celular, mas dessa vez era ela que já não tinha acesso.
Em 16 de Dezembro de 2015, o fatídico, ao meio dia, eu soube da sua morte.
Aquele happy hour, no Madero do Patio Brasil Shopping, foi a última hora feliz pra nós. Ultima vez que estive com ela.
Quem saberia que exatos dois meses depois ela já não estaria entre nós? Era impossível prever, como ainda parece ser impossível acreditar.
Ainda tenho muitas coisas a elaborar, sofrer, chorar, viver nesse luto que hoje só completa um ano. Nunca mais vou viver um dia dezesseis em paz.
Ainda vou (precisar) falar muito sobre ela e do seu legado na minha vida e no mundo.
Prometi, beijando seu rosto já frio e sem vida no velório, que se um dia eu escrever um livro (como ela tanto disse e acreditou que eu faria), seria dedicado à ela. À Flavia Caroline Medeiros e Silva.
Hoje o que me conforta é saber que nossas declarações foram todas em vida. Nossos “eu te amo” eram como “bom dia”. Sobrou amor, palavras de afeto, presentes, presença.
10  anos de amizade, mas foram os últimos dois que trocamos mais e nesse último especificamente, aproveitamos todas as chances que tivemos para estarmos juntas. Todas. Nos esforçamos e encontramos lugar na agenda corrida pra fortalecer nossa amizade. Não ficou nada a ser dito, nenhum abraço a ser dado (só o último), nada pendente no campo das palavras,dos gestos (nunca vou esquecer de quando tava com problemas de grana e ela me ofereceu os únicos cem reais que tinha no banco),dos planos , do carinho, nada.
Sempre tive uma noção quase paupável da fragilidade da vida. Ela também. Talvez meu encontro com a Flávia, na verdade um reconhecimento de alma (nos amamos no momento que nos vimos pela primeira vez, quase um conto de fadas da amizade) tenha sido por causa disso. Flávia amava, dizia que amava, não postergava felicidade, não reclamava (não mesmo, juro), tinha sede de viver. E
Cada dia que o Facebook me relembra as postagens passadas, aparece ela (ou eu) presente na vida uma da outra. E em tempos de redes sociais e tecnologia, digo: façam selfie, gravem audios, façam textão,mandem nudes (a ultima foto que ela me mandou foi dos peitos com o sutiã novo, no banheiro da biblioteca, porque eu pedi. Risos), snapchat sim! Tenho vídeos hilários nosso na Àgua Mineral, dela fazendo trança no meu cabelo (❤️), trocando de roupa no carro, mexendo com pessoas no trânsito, dançando (sou dessas que registra e ainda salva), falando besteira. Ouço áudios com gargalhadas, com choros, com declarações. Tem um de Julho que ela mandou no grupo, falando assim “se eu não morri hoje, não morro nunca mais”, emocionada, sobre um post que fiz homenageando meus amigos, inclusive ela, no dia do amigo.
Não morre mesmo Flavinha. Não enquanto eu tiver aqui pra contar história.
Por fim, tenho refletido em como a morte revela nosso lado mais egoísta. Tô sofrendo a falta porque preciso.
Choramos perder quem é necessário pra nós. Não é uma dor altruísta.
Ela partiu no meio da história e isso também me dá uma certa revolta com o roteirista divino.
Nem cheguei a contar sobre o pedido de namoro e ele (o namoro) já acabou (meus batons duram mais na boca, aff). Aliás, por ironia da vida, no dia do enterro dela.
Rituais de passagem do dia 17 de Dezembro.
Dores. Mas nem se comparam. Como diz o poeta, “suportaria, embora não sem dor, que morressem todos meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos meus amigos”. Não é essa a questão.
A questão é que seria mais fácil com ela aqui. (Como fez falta ouvir: “você é muito mais, amiga. Olha pra você. Linda, deusa, engraçada, inteligente…”  e achava qualidades que nem eu via. De todas as amigas que tenho que dizem isso – quase uma obrigação da amizade feminina- ela era a única que me fazia acreditar que era verdade mesmo. Flávia era tão linda que acho que transbordava um pouco em mim, a admiração dela era um dos meus melhores trofeus, eu era melhor pelos olhos dela). A vida era, na verdade. (E assim eu também justifico a maior fossa que já vivi na vida, esse dezembro e janeiro passados).
O mundo era mais fácil antes do dia 16 de Dezembro de 2015, isso é que é um fato.
Agora o que me resta é agradecer por ter tido a chance de viver com ela o outro 16, de Outubro, aliás, vivi todos os outros 16 e datas e tais que vivemos nos últimos 10 anos.
Foi lindo mesmo. (Pena não poder ouvir o “amo você, Mary” de volta)
Eu te amo, Flavinha.

Não é a crítica que é vulgar, é o amor

Eu amo #Belchior. Sei que ele virou uma espécie de mito depois que sumiu e agora parece que tão reconhecendo toda sua grandeza como compositor e filósofo: o chamam até de Nietchsze brasileiro.

Belchior é sim um gênio, um intelectual, um homem à frente do seu tempo (como o próprio Nietchze, com quem o comparam, aliás, disse: “o homem verdadeiramente de seu tempo sempre está à frente de seu tempo” e Belchior já cantava na década de 70 o que vivemos hoje. Talvez por isso agora ele esteja ressurgindo como a voz de uma (nossa, essa atual) geração insatisfeita com a politica, o governo, a sociedade, que já não está interessada em “nenhuma teoria”.

Belchior já está cool, hipster, cult. Meu filho de 6 anos cantarola suas canções e as escreve na parede. Ressuscitaram Belchior como um símbolo justamente quando ele próprio quis sumir, preferiu andar sozinho, como já havia anunciado há tempos. Enfim, chega a ser irônico o #VoltaBelchior quando nós mesmos temos a mesma vontade de largar tudo todos os dias. Não volta não, Belchior (e você caiu fora bem antes, mais uma vez provando a vanguarda) que por aqui não estamos bem não.

Mas não é isso que quero falar. Quero mais que amem e cantem Belchior.

É que hoje ele completaria #70anos e eu quero “poder falar palavra sobre essas coisas sem jeito que eu trago em meu peito (e que eu acho tão bom)”:

Não foi por suas composições engajadas politicamente ou por suas letras filosóficas que comecei a amar Belchior. Foi pelo bigode. Desde pequeninha sustento esse fetiche de virilidade, me desculpe aí o clichê. Junto com isso, aquelas roupas dos anos 70 (época que queria ter nascido), as calças xadrez ou boca de sino, o blusão de couro (<3), os chapéus (e até hoje me amarro em homem de chapéu), as camisas, a cabeleira.

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Foi pela voz anasalada (já falei que curto uns pequenos “defeitos”? um pouco de fanhice, língua presa – ó Cazuza ai, que charme -, uma leve gagueira, enfim, ele  próprio cantou “a minha voz, rara taquara rachada vem soul blues, do pó da estrada e conta o que a vida convém”), foi o fato de ser cearense (meu pai e meu avô são, ou seja, minha referencia boa ou má de masculinidade é o homem do nordeste, com todas suas caricaturizações machistas. Ah amo o Fagner! <3) e claro, porque ele fala de amor (com a dose certa de safadeza e breguice).

Belchior é brega. Todo mundo que fala de amor é brega (“Por favor não confunda as coisas! toda a canção é vulgar!”). Ate Joao Gilberto ou Vinicius de Moraes são bregas. Fernando Pessoa já falava que toda carta de amor é ridícula. Sei que hoje brigam pra enxergarem Belchior para além da “critica vulgar”, que o reconheçam como o compositor de canções profundas, pelo poeta e homem erudito e engajado que é, mas eu tal qual o Mc Marcinho quero mesmo é falar de amor. Eu sou brega. Na verdade eu sou cafona (brega com ênfase).

Amo Roberto Carlos, Fagner (já falei né?), Fafá de Belem, Alcione, Roupa Nova, Fábio Jr, Guilherme Arantes, Xitãozinho e Xororó…

E bom, pra mim, que o conheci ainda menina, Belchior era só o moço másculo de bigode que (também) falava de amor.

O título de “brega”, nesse caso pejorativo, que a indústria fonográfica e a imprensa deu a ele (e a mim por tabela), só fui entender depois. Hoje sei que é muito mais pelos arranjos simplinhos das melodias e porque, obvio, ele caiu no gosto do popular (como se algo ser apenas do gosto de poucos prove que é de melhor qualidade).

Acho que não devemos brigar para desassociar Belchior do Brega. Belchior é um cara que soube sim usar as palavras (suspiros) como instrumento de luta política, para despertar a consciência de classe e por isso foi um revolucionário, mas fez isso (também) falando de amor, de sexo, de desejo, de fetiches e o fez na linguagem do povo, porque fazia questão de lembrar “eu sou como você, eu sou como você”. Seu materialismo poético, a melancolia quase desesperançada, a realidade escancarada de que ao contrário do que Caetano falava, “nada é divino / nada, nada é maravilhoso” fez da sua arte, uma arte que de fato imita a vida, sem deixar de ser bonita por isso.

Defendo o brega, aliás defendo a vida (e a música e o amor) livre de rótulos porque me parece que isso é só um meio de marginalizar a cultura popular e de hierarquizar até nossas subjetividades. Eu gosto de quem fala o que eu sinto. Seja minha insatisfação política ou seja minha dor de cotovelo. Por que tudo que toca a maioria das pessoas é tão passível de criticas?

Não me responsabilizo se estou dirigindo e toca “Divina comédia humana”: levanto os braços e canto com toda a alma “deixando a profundidade de lado eu quero é ficar colado à pele dela noite e diaaaaaaa”. Juro. E espero muito falar pra alguém um dia que “entrou em mim feito um sol no meu quinta”.

Dos álbuns dele, sei do peso politico de “Alucinação”, um verdadeiro manifesto, mas o meu preferido é de longe ““Coração Selvagem”, a começar pela canção que dá nome a ele: “Eu quero um gole de cerveja no seu copo, no seu colo e nesse bar”. “Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja / Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja /Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo/Tenho pressa de viver”.

Ai Belchior, cê me entende. “Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagarque é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar”. Tão vendo?. Ô vontade de beijar aquele bigode agora.

E quando ele chama de “minha normalista linda”?,  fala “musa, deusa, mulher, cantora e bailarina”?. Ou repara na “aeromoca, sexy, fica mais bonita”.

Medo de avião. Aliás, é linda a relação que tem com seus medos, expondo fragilidades, apesar do lugar de macho alfa conquistador “Eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão”. (E quem não?).

Seus desejos: “quero uma balada nova falando de brotos, de coisas assim/ De money, de banho de lua, de ti e de mim”. Eu também quero, Belchior.

Sua defesa da paixão em detrimento do amor : “Eu não vou querer …o amor somente é tão banal. Busco a paixão fundamental, edípica e vulgar” e ainda deixando a profundidade de lado mais uma vez, não seguindo o conselho do amigo analista: “Me pegue, me toque/Saques de sax/ Você é demais!/ Hoje à noite namorar sem ter medo da saudade/ Sem vontade de casar” .

Eu também tenho pressa de viver, Belchior, mesmo que as vezes a gente se contradiga: “Quantas vezes nós dissemos eu te amo pra tentar sobreviver” e sofra, porque faz parte: “(Oh! Deus daqui!)/Jurou assim: Porque fugir se enfim me queres!/Só me feriu como me feres”.

Mas escuto o conselho: ”Meu bem, admire o meu carro e goze sozinha enquanto fumo um cigarro/ mas cuidado!, atenção!

– Oooh! oooh!… não vá quebrar mais nenhum coração”.

Coração é pra ser quebrado mesmo, amor é pra sofrer também e filosofia é lugar para morar, porque nessa divina comedia humana, nada é eterno mesmo, só você.

[Fazer o que, sigo amando caras “tão sentimentais” (e sujando todos de batom)]

#Belchior70anos

Você pensa que sabe (mas não sabe)

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Cena 1: Uma vez postei uma foto de maiô no instagram. Cortava meu rosto. Muitos likes. Muitos elogios. “Muito sexy”, “linda”, essas coisas. Eu tinha comprado o maiô pra uma ocasião especial. Era o aniversário do meu namorado (na época). O lugar era o melhor, mais caro e mais bonito hotel de Brasília. O dia tava lindo. Foi um “final de semana surpresa” que dei de presente pra ele. Postei a foto deitada na cadeira de sol, depois de ter chorado compulsivamente por um longo tempo ali sozinha (meu namorado estava trancado no quarto escuro de cortinas fechadas) O relacionamento mais importante da minha vida (mais que meu casamento) tava acabando . A diária do hotel também. Eu quis só dar um mergulho na piscina pra afogar de vez aquilo. Peguei o celular pra me olhar na câmera frontal porque depois de ficar insone/brigar/chorar eu não devia estar com uma cara muito boa e foi quando tirei a foto, sentindo um pouco de pena e graça da expectativa que aquele maiô carregava. Postei a foto cortando meus olhos inchados. Para a internet: só mais uma selfie sensualizante de uma mulher qualquer. Pra mim o registro de um fim de uma era.

Cena 2: No meu trabalho, há algumas semanas fui informada sobre uma usuária “agressiva”, “nervosa” e que tinha ameaçado “cortar o cabelo e bater” nas servidoras que a atenderam, caso não tivesse seu problema solucionado. Realmente essa mulher gritou, tentou se impor assim e eu mesma, a fim de evitar maiores problemas dado os nervos alterados de ambas, a atendi. (Ela queria atualizar seu cadastro único, pra voltar a receber o Bolsa Família). Na conversa particularizada dias depois, mais calma e sendo ouvida com atenção, ela informou que era catadora de materiais recicláveis no lixão, mas que não tava podendo trabalhar porque descobriu-se soropositiva e já com baixa imunidade . Sem renda nenhuma, benefício social bloqueado e com um filho no colo. Falou que um dia antes dela chegar na unidade “exigindo” o atendimento, seu companheiro a espancou (me mostrou feridas ainda recentes na cabeça) e saiu de casa porque ela falou que tava grávida (dele) novamente. Para quem a atendeu era uma louca agressiva, pra ela mesma era a última instância do desespero.

Cena 3: Uma mulher após perder o vôo, ficar desabrigada num pais que não é o seu, esperar por dias uma conexão, horas sem comer e dormir, desesperada e exausta pela situação, estende um paninho no chão à sua frente e coloca seu bebê deitado ali em segurança (sim porque se colocasse no banco ao lado ele poderia rolar e cair) para poder falar ao telefone e encontrar a solução para aquilo ali que vivia. Alguém (que duvido muito perguntou se ela precisava de algo) passou, tirou uma foto, muitas conclusões e postou na internet. De repente essa mãe virou ré (mais uma) na rede mundial de computadores. Um segundo. Um instante e de mãe preocupada e protetora, ela virou a mãe negligente e ausente.

Questão de perspectiva.

A verdade é que ninguém sabe o que a outra pessoa está passando. As cicatrizes que mais doem não saem em selfies. Ninguém sabe a luta diária que cada um enfrenta para sei lá, estar de pé agora trabalhando, tomando um café, dividindo o transporte público com você ou sei lá, fazendo um comentário na internet.

Nas redes sociais especificamente, só mostramos o que é bonito (claro), mas é bom lembrar ninguém tem a vida perfeita. Uma taça de vinho postada pode ser solidão e não ostentação, por trás de uma foto linda de por-do-sol pode ter um coração melancólico e não grato, aquelas fotos de viagens paradisíacas não contam os bastidores, os perrengues, as brigas do casal que parece saído da novela global das 7.

Nem tudo que parece é. Nem tudo que somos em um instante determina o que seremos pra sempre. O que as pessoas mostram geralmente é só um retrato (nem sempre fiel) de um momento, não pode ser nunca uma sentença.

Ser empático, respirar fundo antes de julgar e esperar o melhor dos outros, ainda que não seja o que eles estão demonstrando naquele momento não é fazer papel de trouxa (vamos parar de demonizar os sentimentos bons que ainda temos?), é entender que cada um já carrega sua própria bagagem de dor e sofrimento, logo, ser legal com todos vale a pena sim. (E parar de reclamar da própria vida porque o parâmetro de comparação é a do outro, digo, a que o outro quer mostrar é também é um caminho para a paz interior).

Pela minha experiência (no trabalho e na vida) percebo que quem é mais agressivo, quem mais cria problemas, tretas, quem mais quer afirmar sua pseudo felicidade ou arrogância ao mundo e as pessoas que parecem ausentes ou indiferentes são quem mais precisam da gente.

Ainda quero muito viver num mundo em que falaremos abertamente das nossas feridas, dores, que nos orgulharemos também das nossas cicatrizes, solidão, defeitos. Onde possamos pedir desculpas no Facebook (parar com essa cultura de “lacre”, que parece exaltar a má educação, as respostas rápidas e o fechamento de qualquer oportunidade de diálogo), tenhamos mais coragem de “fazer a Glória” e simplesmente admitir que às vezes não somos capazes de opinar mesmo (de formadores de opinião esse bagulho já está cheio), onde possamos mostrar nossas vulnerabilidades vez ou outra e parar um pouco com essa ditadura rivotril da felicidade eterna.

Mas enquanto isso não acontece, podemos apenas considerar que a gente pensa que sabe, mas não sabe? Uma foto é só uma foto. Um like é só um like, um momento é só um momento e não estamos aqui numa grande inquisição. E a internet não é um tribunal.

Antes de xingar alguém no trânsito, cobrar simpatia demais da atendente na padaria ou sofrer pelo silêncio e frieza do seu crush, pense nisso: V-O-C-Ê N-Ã-O S-A-B-E.

É fácil pedir mais amor por favor e dizer que gentileza gera gentileza. Difícil é praticar. Mas se esforçar, a gente consegue. O paraíso é o outros.
(No caso do meu namorado, eu fiquei muito arrasada à épca. No dia que ele terminou comigo o achei frio, insensível, monossílabico, covarde. 1 ano depois, agora recentemente, o reencontrei e ele me falou que passou por um processo depressivo e que foi naquele dia que ele se deu conta dos gatilhos que desencadearam isso. Que não tinha nada a ver comigo).

A dor da gente não sai no jornal.

Queria terminar falando que o essencial é mesmo invisível aos olhos ou que a dor é inevitável e o sofrimento opcional, mas além de esgotar o limite de auto-ajuda do dia, só queria comprovar minha teoria de que vocês não sabem: aposto que tão pensando “ai como a Marilia é sensível e legal, e humana e …” GENTE, ESSE POST É SÓ UMA OPORTUNIDADE PRA POSTAR ESSA FOTO NOVAMENTE, ok? Risos.

(Lição essencial: sofrendo ou não sofrendo, sensualize sempre).

Sobre o dia das mães: não me violente com seus esteriótipos

Ontem passei o dia das mães longe do meu filho. E da minha mãe. Fui pra uma cachoeira e fiquei meio que offline para essa data. Apenas uma data (criada pelo capitalismo para o consumismo e insira aqui esse clichê esquerdóide, porém verdadeiro), mas uma data que é impossível não ficar mexida com ela. Afinal, mãe é mãe. Dizem.

 Quero falar disso.

Quando voltei, à noitinha, vi as redes sociais inundadas de fotos lindas e carinhosas, declarações e relatos sobre mães, maternidade, experiências, os clichês de sempre, tal, e aí quis escrever sobre isso.  Sobre ser mãe, sobre ser filha, sobre esse dia. A primeira coisa que me assustou foi a reação das pessoas quando eu falei que não ia passar o domingo com meu filho. Nem com a minha mãe. Parece que tinha ofendido gravemente os valores da família tradicional brasileira.

Bom, ontem especificamente, Miguel estava no final de semana com o pai, a madrinha dele viria de outra cidade pra vê-lo, eu já havia programado esse passeio roots e não vi necessidade de ir buscá-lo só para reforçar uma data que homenageia a mãe e como no caso a mãe sou eu e eu não me importo, achei super ok. Ele tem 5 anos, certamente não tinha comprado presente, não tinha reservado restaurante, não ia sentir falta de passar esse dia comigo, simplesmente “porque é dia das mães” (é o que espero ao menos, só falta virar emo depois por causa disso).

– Pausa –

Nessa semana as tarefas da escola foram todas nesse tema e a gente já tinha curtido um tanto. Teve uma que eram perguntas sobre a mãe. “Qual a comida preferida da sua?” ele respondeu “Leite com nescau”.   Cara, isso encheu meu coração de ternura.

Só quem me conhece muito bem responderia com exatidão que não vivo sem meu leitinho e que esse leitinho com nescau é a melhor comida do mundo pra mim (sou adulta, sou requintada, sou sim. risos). Meu filho me conhece.

– Despausa.

Enfim, não caguei regra, não tô fazendo isso agora, mas cara, eu tenho a oportunidade de criar meu filho da maneira que acredito e não acredito muito nessas datas comerciais (Também não dou ovo de páscoa, presente de Natal, nem nada no dia das Crianças – me julguem) e a gente leva isso, desde que ele nasceu, com muita tranquilidade, sem extremismos, quando dá, dá, mas não fazemos dessas datas momentos importantes pra nós. Não as reafirmo, não repasso pra ele, não dou importância.

Pra minha mãe eu sempre dou presente (ó as contradições), simplesmente porque ela adora ser presenteada (é a sua linguagem de amor) e pra ela é importante.  Ok. Mas justamente recentemente, eu e ela (minha mãe e eu) tivemos umas DR’s, umas crises de identidade, umas brigas, uns papos profundos e a NÃO comemoração esse ano foi importante (pelo menos pra mim) pra dar um fôlego e espaço pra traçar os rumos da nossa relação, que está sendo construída.

Construída.

Relação de mãe e filho (a) é uma relação como todas as outras, gente. E foi isso que falei pra minha mãe, quando ela falou algo como “mãe é mãe”, exigindo uma determinada postura minha em relação ao Miguel, no sentido de que mãe deveria fazer mais, amar mais,se doar mais, porque amor de mãe é mais forte. Eu falei: “Mãe, eu amo meu pai do mesmo tanto que amo a senhora. O tanto que a senhora se dedicou a mais por mim, o tanto de abdicações, renúncias, e esforço braçal mesmo, não contou pontos extras para o meu amor”. Foi duro, eu sei. É duro. Mas é a verdade.

Eu amo meu pai. Loucamente. Não foi ele que me carregou no ventre, nem que acordou de madrugada pra me amamentar, nem que trocou minhas fraldas, nem nada disso, mas eu o amo. Como amo minha mãe. Loucamente também.

Como se dá a relação de pai e filho? Pai se dá conta de que é pai, quando o filho nasce, praticamente. Ao contrário da mãe, que já sente o bebê nos primeiros meses de gestação. Pai começa em desvantagem.

Pai tem que correr atrás do prejuízo (os que tem interesse, claro) porque nos dois primeiros anos a criança depende muito da mãe (inclusive pela amamentação) e ele é um pouco desnecessário, muitas vezes. Pai tem que construir um vinculo, porque a mãe já tem, nem que seja o de pele, o de umbigo. A da mãe tá dada, tá no corpo, tá na cara, mas também tem que ser construída e nem é maior e mais forte por isso. Sempre fui apaixonada por essa relação de pai e filhos. (Aliás, até hoje, piro num pai solteiroAPAGAR). Infelizmente ainda é minoria homem que é pai protagonista, que reivindica esse papel, que não se acomoda no lugar secundário que a sociedade lhe dá, mas quando rola, é lindo.

Usei minha própria experiência em relação ao amor pelos meus pais quando me tornei mãe.

Nunca quis sozinha (aliás, até casei precipitada e erroneamente em busca desse compartilhar), nunca achei que eu era uma super heroína por ter um útero, nunca vi o pai do meu filho como um ser inferior a mim, essa coisa de mãe, santa, poderosa, suprema. Não foram poucas as vezes que pedi ajuda ao Heitor. Que pedi socorro. Que reconheci habilidades dele em relação ao Miguel como muito superiores às minhas (trocar fralda, pegar no colo, dar remédio, sei lá). Que briguei por direitos iguais. Que falei: “toma um pouco, dou conta não”. A guarda compartilhada, por ocasião do divórcio, foi sempre decisão/imposição/insistência minha. Fui julgada muitas e muitas vezes por isso. Até hoje sou, aliás. Sempre achei que Miguel merecia um pai. Que Heitor merecia e devia ser pai. Que eu era só a mãe e que não deveria carregar peso nenhum a mais por conta dessa nomenclatura. E que eu tinha direitos, de ser eu, Marília, e não só a mãe do Miguel.

IMG_9163Há 5 anos sou mãe. 5 anos dificeis pra porra. Mas 5 anos de muito aprendizado.

Ano passado, tive que tirar Miguel da escola e ele foi morar com o pai dele (na verdade, com a avó paterna e eu tenho pegado meio que meio a meio). Eu também  estava num momento da minha vida que… não tava dando conta. (Depois eu vou fazer um post sobre filhos que não moram só com as mães). Procurei ajuda. Fui reconstruir minha relação com o Miguel. Fui trabalhar minhas coisas na terapia. Foi uma barra.

Mas aprendi uma grande lição nesse período: pedir ajuda é libertador, uma mãe sem rede de apoio não é ninguém e principalmente: eu preciso acreditar na MINHA maternidade, confiar no que eu acredito e foda-se o que o mundo espera de uma mãe.

Não sou a mãe que a sociedade espera. Nem a que a minha família admira. Nem que é retratada nos comerciais e na publicidade. Mas eu sou só mais uma mãe e não, mães não são todas iguais.

Eu esqueço de levar casacos pro Miguel, ou seja, nada de: “ta levando o casaquinho?”, eu não sei cozinhar, nem preparo o lanche da escola, eu detesto fazer tarefa escolar e ir em reuniões de pais, eu viajo sem ele e sem culpa cristã, eu não ligo pra ele no final de semana que ele tá com o pai, ou seja, eu não falo com ele todo dia, eu às vezes vou comer uma comida escondido só pra não ter que dividir com ele (quem nunca? risos), eu não penso nele antes de pensar em mim algumas vezes, eu não esqueço dos meus outros e múltiplos lados enquanto mulher e ele não é a minha vida. É parte dela. Uma parte essencial, diria, mas não é meu todo.

Eu não senti um amor incondicional quando ele nasceu (embora eu já tenho dito isso e que já achei bonito acreditar que sim), mas o amo cada dia mais, porque estamos construindo isso. Decisão minha e dele. E construir relação é dificil gente. Mesmo com um ser de 5 anos.

As vezes briga, as vezes chora, as vezes tem culpa, DR (sim, sou aloka da DR e sim tenho DR com o Miguel), tem tempo afastado, tem reconciliação, tem tudo. Pode parecer bizarro, mas trato o Miguel assim desde que ele era um feijão no meu ventre.

Chorava pacas na gravidez e sofri muito nos primeiros meses de vida dele (os 2 primeiros anos na real, pior fase da minha vida) e todo mundo falava: “você é mãe, agradeça por ter um filho saudável” ou “ele vai achar que você não o ama”, colocando meus sentimentos e crises de mulher, de ser humano em stand by porque bem, eu era mãe, não tinha o direito de sofrer. O filho em primeiro lugar. Pois eu conversava com a barriga e dizia: “meu filho, não é bem contigo, mas minha vida tá uma merda. Te amo, mas tá foda”.

Sempre me mostrei humana pra ele. Peço desculpas ao Miguel. Não falo “porque sim, porque tô mandando”. Nunca desenvolvi uma relação (apenas) de poder e de hierarquia.

  Outro dia tava chorando e ele simplesmente foi ao banheiro, pegou um papel higiênico, limpou minhas lágrimas e me deu a mão. Não falou nada. Achei lindo.

Sou mãe, mas sou vulnerável, errante, tenho medos, desejos, frustrações.

Mas principalmente: não acho que a maternidade nos salva de nada. Filho não é pra preencher nossa existência, nem cumprir nossas expectativas e foi exatamente isso que gerou a tensão com minha mãe.

Talvez eu não seja a filha que ela desejou que eu fosse. Mas e a nossa mãe, a gente escolhe? Não. Então, também não dá pra escolher o que os filhos vão ser. E o negócio é se amar APESAR DE.

NHQA3812Filhos não são a continuação de nossa existência.

Falei pra ela que temos que construir algo que seja mais forte que um laço sanguineo ou um almoço no segundo domingo de maio.  Quando crianças, até o começo da juventude, uns 20 anos, nossas mães e pais, cuidam da gente. Depois, quando eles estão velhinhos, nós é que cuidamos deles, lá pros 70 anos. Me diz, o que fazer com uma relação que se baseia na dependência,  nessa lacuna de 40,50 anos, em que somos todos adultos e ninguém precisa de ninguém? Almoçar, pedir benção e serem meros estranhos uns aos outros?  Foi isso que falei que pra minha mãe. Que passou.

As fraldas sujas passaram. As olheiras também. Sou grata, mas não a congratulo por isso. Ser mãe não é uma corrida em que há um pódio no final. Não espere minha reverência. Construa seu espaço na minha vida, para além do amor.

Uma das coisas mais excitantes na maternidade é justamente: “não temos controle de nada”. É pular de olhos vendados num abismo. Nunca sabemos onde vai dar, não adianta querer prever. Mandei meu presente pra comemoração e fui curtir meu dia, não porque era das mães, mas porque era meu domingo livre. Quando cheguei, liguei pro Miguel. Falamos um pouco. Nos despedimos, amanhã vejo ele.  Minha mãe, verei também. Uma segunda-feira. Um dia comum.

Sabe, não é mal agradecimento, mas não quero que Miguel me chame, me trate como “minha rainha”. Não sou. Não quero devoção. Abdico do tratamento especial, porque ele traz um peso pra maternidade, um peso de que quero me livrar, rótulos que luto para desconstruir. Não quero que Miguel me agradeça por eu ser alguém altruísta, alguém que renunciou, que se anulou, que deixou de viver por ele. Isso não é amor de mãe e se amor, não é exclusivo nosso. Eu quero que o Miguel cresça me agradecendo por tê-lo deixado livre pra ser quem ele quiser, porque eu não depositei nele minhas expectativas de vida.

Que cresça com uma vinculação comigo para além das obrigações e reverências, que olhe pra minha vida e veja nela alguém que foi livre, feliz, que amou, que errou, que nunca teve pretensão de ser perfeita, nem que o amou mais do qualquer outra pessoa no mundo.

Chega de semi-deuses. Deusas. Ser mãe não é algo sublime, queridos publicitários. Ser mãe é algo bom, ou ruim. Depende das circunstancias, depende de muitos fatores. Maternidade não é uma experiência igual pra todas as mulheres. E é por isso que defendo a maternidade como escolha e não imposição social (aborto, tema polêmico. falo um outro dia).

Ano passado postei algo no Facebook como: “Doce, terna, fazedora de bolos, santa…com todos esses adjetivos dado às mães, me sinto uma mera chocadeira”. Risos. Mas brincadeiras à parte, não me vejo nesses modelos retratados no Dia das mães, que convenhamos, que data mais sem sentido (como todas as outras comerciais, aliás). Na verdade sou mãe porque transei.  O resto eu tô batalhando pra fazer, me virar, aprender.

Desculpa desapontar o imaginário de vocês, mas mãe é só mãe mesmo. Descreva a sua e eu descrevo a minha.

E pra finalizar, vi minha mãe sendo humana de verdade esses dias atrás, quando ela me disse coisas terríveis e pra machucar mesmo, mágoas de anos, coisas sérias e até me excluiu do Facebook (novos tempos, minha gente. fiquei ofendidíssima com essa, sério). Na hora da raiva, falou “esquece que você tem mãe” e aquilo me deixou embasbacada. Pensei e até revidei: “Nunca vi mãe renegar filho”, mas refletindo depois, vi que putz, minha mãe, a minha, que é calma, que nunca grita, que releva tudo, toda bobinha e coração mole, um referencial de amor incondicional, foi só…humana.

Achei libertador. Pra nós duas. Me senti em pé de igualdade. Suspiros.

Propus algo a ela depois como “mãe, tamo junto, bora aprofundar as coisas aí, nas nossas diferenças mesmo, nesse tempo que nos resta” e é o que espero pra nós duas. Passamos o dia ontem separadas, mas mais ligadas do que nunca.

Nunca é tarde pra se descobrir mãe, pra aprender a ser filha.

Por isso finalmente, meça seus comentários estereotipados, parça. Não reproduza esses clichês que na prática só oprimem e reforçam um ideal inatingível pras mulheres, que exclui pessoas do processo de maternagem, que pesa pros filhos também.  E você que é mãe, liberte-se também. Não é tudo mérito seu e a culpa não é toda sua. Outros domingos virão.

Comemore com moderação.

(Post originalmente publicado em Maio de 2015 aqui)

O amor e o poder

Ontem eu conversava com uma amiga sobre um meme que tá rolando por aí que diz assim “Namore um homem que não tenha medo do seu poder”. Ironizei que a continuação deveria ser: “Ou seja, amiga: seja feliz solteira mesmo, porque né…risos, tá difícil ” e problematizamos um pouco sobre o que já vinha refletindo há um tempo. Isso de que os homens não tão acompanhando mesmo essa geração de mulheres fortes pra cacete (ou pra buceta, no caso) e tão sim, ficando à margem, aquém, deixando a desejar, enfim, insira aqui (_________________) qualquer outro adjetivo que alguém chamará de mimimi mesmo.

Daí hoje o deputado com essa fala infeliz: “as mulheres de verdade não querem ser empoderadas, querem ser amadas” me veio mais coisas à cabeça.

A noção de amor que nós mulheres recebemos desde a infância é realmente inconciliável com a de uma mulher empoderada.

O amor que nos é ensinado desde cedo é mesmo um amor que silencia e abaixa a cabeça. A começar pela maldição dos contos de fadas que romantizam abusos e introjetam a eterna idéia que devemos esperar (belas, recatadas e do lar) um príncipe vir nos salvar de nossa vã existência. A idéia de princesa, de passividade, do amor como um sentimento romantizado e irreal (É irreal. Felizes para sempre não existe!) é de um fardo e uma opressão sem tamanho.

Por mais bem-sucedida e feliz que você seja, ainda será (e até muitas vezes mesmo se sentirá) incompleta se não tiver um homem do lado. Os conselhos e mensagens que uma mulher minimamente “empoderada” ouve no decorrer da vida é:

“Não pague a conta”, “Homem se assusta com mulher independente”, “Ele está inseguro, não o assuste”, “Não grite com seu marido”, “Quem vai querer uma mulher que age como um homem?”, “Deixa ele se sentir no comando”, “Você tem que prender ele na cama”, “Ele tem ciúme porque te ama” e tantos outros.

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(E eu não tô falando da revista Nova e as “5864 dicas infalíveis de surpreender o gato com um sexo oral incrível”).

Tô falando de mim, das minhas amigas, to falando da maioria das mulheres fodas que conheço. Uma geração de mulheres que até cresceu assistindo Cinderela, mas um belo dia (resolveu mudar e fazer tudo que queria fazer) se deu conta de seu poder e acabou batendo de frente com uma puta crise existencial:

eu não sei amar sem ser submissa. Ou: como amar e ter voz? Ainda: até tô sabendo amar e lidar com meu poder, mas meu parceiro não.

Isso é uma coisa.

A outra é:

Feministas não são mulheres “de verdade” porque “Mulher de verdade”, como diz a música, não é aquela que sequer questiona sua fome? (“Meu filho o que se há de fazer?” – Ai que saudades da Amélia), imagina se questionará homem um dia né? E tamo aí questionando tudo.

Também faz sentido ainda chamar feministas de “mal-amadas” numa sociedade que ensina que amor é sinônimo de silenciamento. Realmente, nesse caso, por esse prisma de amor, eu topo. Sou mal-amada mesmo (mal comida jamais). Ponto.

Não quero também um amor que vez ou outra aparece como causa de um assassinato. Ainda é normal ver manchetes de jornal por aí dizendo “homem mata esposa por amor” ou “mulher é vitima de crime passional”.

Sei que amor não mata. Como feminista (mal-amada) sei que o que faz os homens matarem mulheres todos os dias (o Brasil é o 7º no mundo nesse ranking) não é amor, é a sensação de PODER que eles tem sobre nós. (“Se não for minha, não será de mais ninguém”, conhecem essa expressão?).

 E aí fica tudo fica muito claro porque não interessa ter mulheres empoderadas e sim mulheres “de verdade” no mundo né? E porque é tão mais fácil enfiar um conceito de amor passivo e silencioso goela abaixo.

Pra um homem que sabe que poder mata, nada mais assustador que uma mulher com ele (o poder). E nada mais ameaçador para ele (o homem) uma mulher poderosa ao seu lado.

Só que assim como feminismo não é o contrário de machismo. (Machismo é um sistema de dominação. Feminismo é uma luta por direitos iguais).

Vamos desconstruir a idéia de que amor é antítese de poder.

Vamos falar de amor (chamem o Marcinho) com nossas filhas. Amor, gente. Dá pra ter poder, amar e ser amada, dá sim. Aos nossos filhos vamos dizer que o poder feminino não mata (ao contrário do masculino). A mulher empoderada de hoje é o mito da “vagina dentada” de antigamente. 2016 e ainda alimentamos lenda urbana.

Às nossas filhas, ao invés de contos de fadas, vamos dizer (o que aprendi a duras penas, ainda venho aprendendo e digo pra todas as mulheres que eu tenho oportunidade) : amor só existe quando a gente tem voz.

Não dá pra querer amor de quem não considera a gente enquanto mensagem no mundo. Homem que te ama e aceita seu poder é o que se interessa pelo que você tem a dizer, pelo que a sua história diz, que considera a sua singularidade. Qualquer coisa fora disso fora é consumo e não amor. Se você não tem voz, se não pode ser você mesma, é melhor ficar sozinha (e ser chamada de mal-amada).

E é isso que incomoda o deputado lá e seus amigos né?. Conveniente mesmo é ter as mulheres bem caladinhas , “amadas” e felizes fazendo a janta – que não pode ser sopa – enquanto eles decidem no plenário sobre o futuro do nosso útero.

Bom, pra citar mais uma música (tô bem musical hoje). A gente não quer só ter voz mesmo. A gente quer comida e quer fazer amor.

Amor e poder.

(Ps: eu fui colocar o título no texto e obviamente saiu a música “como uma deusaaaaaa, você me mantééééém”. Até que achei apropriado. Leiam de novo, agora escutando:

Ps2: eu aproveitei os texto pra problematizar todos as ultimas polemicas e memes juntos. Se organizar direitinho, tem treta todo dia. Com calma mundo!)